Teatro & Pensata

“Ninguém está preparado para envelhecer”, conta a atriz Vanja Freitas sobre o espetáculo “Rugas” já em cartaz

As artistas Vanja Freitas e Claudiana Cotrim levaram a fundo seu estudo sobre o passar dos anos e transformaram com humor e leveza numa obra que te alerta para a fase da vida que todos vão conhecer

Publicado em 12/11/2018 | Por Anna Castro

O que você vai ser quando envelhecer? Essa é uma das perguntas que Vanja Freitas e Claudiana Cotrim fazem ao público no espetáculo “Rugas”, uma comédia dramática que traz o envelhecimento, as relações pessoais e o pensar no futuro com bastante leveza e sinceridade. Uma coisa é certa: todo mundo envelhece e a peça assume a posição de levar com humor todos os acontecimentos complicados, embaraçosos, surpreendentes e dramáticos que vão acontecendo durante essa fase da vida. Dirigido por Amir Haddad e escrito por Hérton Gustavo Gratto, “Rugas” está em cartaz até 12 de dezembro, no Teatro Maison de France, no Centro do Rio de Janeiro, e é o resultado de uma pesquisa detalhada e contínua das atrizes, que pesquisam a realidade de grande parte da população brasileira: a terceira idade.

As atrizes principais, aliás, tem muito repertório e história para contar. Profissionalmente, os trabalhos de Claudiana incluem performances, peças, contação de histórias, oficinas de teatro e de oratória, telenovelas, filmes e preparação de atores. Na Rede Globo, teve participação nas novelas “Da cor do pecado”, “Ti-Ti-Ti”, “Avenida Brasil”, “Salve Jorge”, “Em Família”. Integrou o elenco de “Hotel Medeia – da meia noite ao amanhecer”, além de trabalhos na linguagem audiovisual. Vanja também tem uma longa lista de veterana no teatro e nas artes. É atriz e artista plástica, já atuou no teatro em “Álbum de Família”, “Estórias de lenços e ventos”, “A vida como ela é”, “Como nasce um cabra da peste”, “Bonitinha mais ordinária”. Na televisão, atuou em “Sítio do Pica Pau Amarelo”, “Você decide”, “Hilda Furacão”, “Pecado capital”, “Laços de família”, “Velho Chico” e “Muito além do Paraíso”.

Vanja deixa claro: “Nesta peça não falamos ‘idoso’ ou ‘terceira idade’, acho que parece algo que já passou, que é sofrido e dolorido. Nós gostamos da palavra ‘velho’”. E é assim que ela se chama e fala sobre esse universo, que começou 3 anos atrás, quando a parceria com Claudiana se fortaleceu para estudar o tema envelhecimento, que estava cada vez mais em alta. E não é para menos: a expectativa de vida do brasileiro continua crescendo. Nos anos 80, era de 62,5 anos e, atualmente, já atinge 76,1 anos em média. O número de idosos só cresce e, de 2012 a 2017, saltou 19,5%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número surpreendeu as atrizes, que passaram a entrevistar pessoas de 80 anos até adolescentes, em um estudo profundo sobre seus pontos de vista e seus cuidados nessa fase. “Nós nos surpreendemos com a questão da qualidade de vida, principalmente como essa parcela da população está atualmente preocupada em melhorar como vive, com alimentação, o encontro com os amigos e pessoas queridas, fazer novas amizades. Isso é, para eles, algo importante para longevidade. Também vemos uma preocupação com saúde, em que eles querem fazer exercícios físicos e o impactante é eles responderem maioritariamente sobre a possibilidade do encontro com o outro, de conversar e de trocar”, revelou a atriz.

A peça veio depois de ouvir muitas histórias e rir durante as entrevistas. Vanja contou que teve grande ajuda para transformar tudo que absorveram em um espetáculo que conta a história de mãe e filha, as duas em processo de envelhecer. A filha, cientista, abandona a mãe para continuar sua pesquisa a fim de parar o tempo e, com isso, o envelhecimento. Ela é considerada boa: manda dinheiro, deixa uma cuidadora e atende às necessidades da mãe, menos com sua presença. Nessa caminhada das duas, drama e comédia se misturam. “Nós pegamos todo o material da nossa pesquisa e chamamos o dramaturgo Hérton Gustavo Gratto e ele fez um texto e uma arquitetura linda com o que pesquisamos. No texto, fomos permeando com perguntas que fizemos durante as entrevistas, sobre quando foi que eles se sentiram velhos pela primeira vez e o que eles gostariam de ser quando envelhecessem. Na plateia, uma senhora respondeu: ‘eu vou ser feliz!’ E muitos deles respondem coisas incríveis. Na peça também falamos da indústria do rejuvenescimento, com botox, cremes e cirurgias. Tratamos disso com muito humor e leveza. É claro que tem a tragédia do abandono, mas a plateia no teatro sai rindo e chorando ao mesmo tempo”, contou Vanja.

O espetáculo nasceu da pesquisa sobre velhice de Claudiana Cotrim e Vanja Freitas (Foto: Thyago Andrade)

Quando chamaram Amir Haddad, de 82 anos, para dirigir “Rugas”, ele afirmou que só faria se fosse com muito humor. Com uma equipe que tem a vivência de passar por esses processos, eles trazem a comicidade como foco. “O humor é incrível porque faz o contato com o outro  de uma forma bem chapliniana. Além disso, atrai o público para te observar e nós falamos exatamente sobre isso: vamos olhar mais para os velhos e dar voz a eles. Esse recurso aproxima você do público e quando ouvimos a risada, é uma resposta ao que estamos fazendo”, frisou.

Aos 65 anos, Vanja Freitas aceita os cabelos brancos. Primeiramente para a peça, mas, agora, resolveu levar para a vida e que não vê mais necessidade de ir ao salão todo mês colorir as raízes. Segundo ela, a aparência é apenas um ponto que afeta e causa medo nas pessoas ao chegar nessa fase. “As mulheres, diferentemente dos homens, falam mais abertamente sobre envelhecer e o que isso traz. Esse movimento também da mulher que sai de casa, que fala mais sobre o que quer e que busca o que quiser. O homem sofre bastante, principalmente no quesito sexualidade. Eles têm medo da perda da libido, porque diminui realmente e não fica tão aflorada. A aparência é um quesito complicado para as mulheres ainda, mas existe um movimento de deixar os cabelos brancos, por exemplo. Os homens sempre foram considerados sensuais e bonitos de cabelos brancos e agora as mulheres estão nesse momento de mostrar que os fios brancos também lhe caem bem”, afirmou a artista.

Vanja Freitas e Claudiana Cotrim contracenam em “Rugas” (Foto: Thyago Andrade)

Mas nem tudo é problema e drama: a velhice também vem com autoconhecimento.  “Envelhecer não é fácil e nem brincadeira. É olhar todos os dias no espelho e se reconhecer naquela imagem que você está vendo. E você passar a conviver com essa mudança e extrair o humor disso. Com o passar dos anos, nós vamos percebendo que o tempo é curto e que não podemos perdê-lo com coisas pequenas. Vamos ficando mais leves de uma certa forma e a peça fala muito disso”, comentou Vanja. Mas algo que ainda a preocupa é como o estado lida com essa parcela da população. “O aumento do envelhecimento da população demanda que o governo preste atenção em nós. Isso é um problema, porque se as políticas públicas não atenderem essa faixa de idade, vamos ter situações complicadas no futuro, já que com a idade também vem enfermidades, atenções especiais e cuidados que precisam ser garantidos. Mas eu vejo uma melhora do convívio dessas pessoas, dos espaços abertos, como os aparelhos para exercícios físicos na rua. Tem muita coisa acontecendo e que precisa continuar. O envelhecimento não é facil, mas tem que ser encarada com muito bom humor e também com um movimento de solidariedade no olhar, no respeito com essas pessoas que tem histórias únicas para contar e precisamos ouvir”, observou a atriz.

Ela, assim como todos que chegam nessa idade, possuem um momento de reflexão em que percebem que a idade finalmente chegou. Para ela, foi durante o carnaval. “Eu sou baiana, amo essa época do ano e sempre fui muito atrás de trio elétrico. O grupo Filhos de Gandhi, bem conhecido, tem o costume de jogar o colar por trás do pescoço da mulher e depois surge alguém para beijar você. E eu estava bem atrás do trio, dançando, cantando e eu senti o colar cair em mim. Aí o rapaz veio para frente, naturalmente para me dar um beijo. Aí ele me olhou e disse: ‘perdão senhora’ e eu pensei que eu estava realmente velha. Na hora fiquei sem graça, mas depois ri muito”. Esse e outros causos estão presentes na divertida e profunda peça, que leva para o público a missão de se abrir para o outro. “Vamos nos encontrar, nos abraçar e abrir o coração para as pessoas. É a única maneira de encarar e planejar o futuro que vem com tanta coisa nova. E aí, o que você vai ser quando envelhecer? É isso que deixamos como mensagem: é tempo de planejar essa parte da vida também”, completou.

Rugas

Temporada: 31 de outubro a 12 de dezembro

Teatro Maison de France: Av. Pres. Antônio Carlos, 58 – Centro, Rio de Janeiro – RJ

Telefones: 2544-2533

Dias e horários: Quarta, às 18h30.

Ingressos: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).

Duração: 1h05

Classificação indicativa: Livre.

Pesquisas relacionadas