Teatro & Pensata

“Não consigo ter humor. Sangue ferve. É melhor me manter afastado”, diz Zéu Britto sobre política nas redes sociais

Ator, cantor, humorista e poeta estreia, no dia 9, o show ‘Sem Concerto’, no Teatro PetroRio das Artes, na Gávea. No palco, acompanhado pela multi-instrumentista Natália Carrera, ele apresenta canções inéditas, homenageia Caetano, Tom Zé e Novos Baianos, recita poemas e recebe convidados especiais

Publicado em 09/01/2020 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Quando subir ao palco do Teatro PetroRio das Artes, no Shopping da Gávea, nessa quinta-feira (9), o artista multimídia Zéu Britto estará realizando um sonho acalentado há muito tempo: fazer um show com enredo – no caso, a história de Pierot, o famoso personagem da Commedia dell’Arte eternamente apaixonado por Colombina, que o troca por Arlequim. “É um pré-carnavalesco que segue a história desse palhaço triste que vaga em busca do amor. A história vai sendo contada por poemas que costuram as músicas, a maioria inédita. Os poemas são todos inéditos”, revela, entusiasmado, o artista. “Esse show tem diversos trabalhos novos meus, mas também tem homenagens a gente que admiro muito, como Caetano, Tom Zé e os Novos Baianos. Da nova geração, vou cantar algumas coisas do (cantor e compositor) Rubel, genial, e da Banda Mais Bonita da Cidade”.

Zéu Britto fica em cartaz no Teatro PetroRio das Artes todas as quintas de janeiro com o show ‘Sem Concerto’ (Foto: Julia Assis)

Serão só quatro apresentações, sempre às quintas-feiras, até 30 de janeiro. Cada uma contará com um convidado especial. A primeira será a cantora e compositora Roberta Campos, conhecida pelo hit “De Janeiro a Janeiro”. Em seguida virão o músico e ator paulista Ícaro Silva e a atriz, escritora, cantora, compositora e instrumentista Letícia Novaes, mais conhecida como Letrux. A quarta atração ainda é uma incógnita. “Isso também tem a ver com o nome do show, ‘Sem Concerto’. Se chama assim porque é tudo feito na hora, não é como um concerto. Sou apenas eu e a (multi-instrumentista) Natália Carrera, não tem uma orquestra, uma banda. Estamos procurando um convidado, o show está em movimento e é bom que seja assim”, brinca Zéu.

Apesar desse caráter de “feito na hora”, Zéu frisa que não há espaço para improvisações no espetáculo: “É um show de direção. Não saio muito do roteiro, como em outras ocasiões, não improviso. É uma pérola, um espetáculo muito bem cuidado, feito com carinho”.

O artista conta a história de Pierot, o palhaço triste da Commedia Dell’Arte apaixonado por Colombina (Foto: Julia Assis)

Com 20 anos de carreira, Zéu concilia trabalhos como ator, humorista e músico. No final de 2018, ele encerrou a carreira da bem-sucedida comédia musical “Delírios da Madrugada”, seu primeiro espetáculo solo (apelidado por ele, carinhosamente, de stand-up melody), que ficou dois anos em cartaz e lhe rendeu quatro indicações ao Prêmio do Humor de 2019. No espetáculo, Zéu usava um pijama para interpretar um personagem que não conseguia dormir. Entre uma canção e outra, contava histórias bem-humoradas sobre suas madrugadas na internet “investigando” chats e blogs de acontecimentos surreais. Segundo o comediante, o personagem é “parecido” com ele, pois também demora para dormir: “Não consigo dormir e deixar de ver algo que aconteceu. As histórias que conto em ‘Delírios…’ são crônicas, não piadas”.

Zéu, que fez sucesso com seu primeiro show solo, ‘Delírios da Madrugada’, repete a dose em ‘Sem Concerto’ (Foto: Julia Assis)

Falando nisso, a relação do artista com a internet hoje é… cautelosa. “É muito bom, encontro amigos de todos os tempos, mas pode ser bem invasiva também. Quando começam a invadir demais é hora de dar um tempo e moderar”, adverte. Zéu se comunica mais pelo sistema de troca de mensagens do Instagram do que via Whats App. E acredita que o aplicativo vai superar o Zap como forma de comunicação entre amigos. A veia humorística internética, tão bem explorada em “Delírios da Madrugada”, ficou estremecida pelo clima pesado que paira sobre o país: “Tenho muita disposição para o humor, mas o momento está tão tumultuado, né? As pessoas estão fazendo uma graça muito banal e rasteira. Não dá”.

Outra situação que mantém o artista com um pé atrás com as redes sociais são os comentários políticos. “Ah, eu me emociono. (Por “me emociono” leia-se “me irrito profundamente a ponto de perder as estribeiras”.) Eu me emociono e não consigo ter humor. O sangue ferve, é melhor me manter afastado”, observa Zéu. “Sabe quem é o máximo, que se mantém impassível? (O ator) Tonico Pereira. Adoro como ele se comporta nas redes. A pessoa pode dizer o que for, pode defender os maiores absurdos que ele mantém a elegância. Dá bom dia, boa tarde etc”, diverte-se. Contamos para Zéu que o ator pernambucano Tuca Andrada não poupa quem entra em sua conta no Instagram para atacá-lo, fazendo questão de escorraçar (sim, essa é a palavra que descreve melhor) os “inimigos”. “É mesmo, é? Adoro Tuca! Ele é autêntico. E tem mesmo muita personalidade…”.

Zéu gosta de caminha pelas ruas do bairro onde mora no Rio, o Jardim Botânico (Foto: Julia Assis)

E é “personalidade” que o artista acredita ser necessário para encarar a batalha de quem faz cultura no país. “Tenho alma de sertanejo. Sou resistente e positivo, trabalho pesado sem problema. Sou do fazer. Uma nuvem escura está passando, mas acredito no sol. O que não pode é dar ousadia” (*), explica.

(* Dar ousadia é uma expressão do baianês usada em inúmeras situações. Aqui pode ser traduzida para o carioquês “dar mole” ou o genérico “deixar para lá”.)

Aos 42 anos, o artista baiano nascido em Jequié está feliz da vida. Ele voltou a morar no Jardim Botânico, bairro que ama (“Consigo andar a qualquer hora do dia ou da noite sem problemas”), depois de anos em São Paulo, está pertíssimo do lugar onde costuma ensaiar seus shows e espetáculos, o colégio Divina Providência, na Lopes Quintas, onde mora, e está na cidade que adora. Talvez lhe falte uma coisa: um bichinho. “Eu tinha um pug, acredita? Mas me separei e ele ficou com a outra parte, em Salvador. Morro de saudade, chego a chorar. Adoro bicho, sou doido por cachorro”, revela.

Quem sabe 2020 não realize este sonho também?

‘Delírios da Madrugada’ foi indicado em quatro categorias no ‘Prêmio de Humor’ do ano passado (Foto: Julia Assis)

 

SERVIÇO

Sem Concerto

Teatro PetroRio das Artes. Shopping da Gávea: Rua Marquês de São Vicente 52, Loja 264, Gávea – 2540-6004

Quintas-feiras de janeiro, às 21h

R$ 70 e R$ 35 (meia-entrada)

60 minutos   12 anos

 

 

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