Teatro & Pensata

Na peça Quero Ser Regina, Paula Goja questiona o mercado das artes e reflete sobre as frustrações na carreira

A atriz idealizou, escreveu, produziu e anda faz a personagem principal do espetáculo. A história foi baseada em suas experiências pessoais de tentar se encaixar no perfil da vaga. Além disso, ela expõe uma necessidade de ser aceita por emissoras de televisão para alcançar o sucesso profissional. Para completar, o enredo acaba exaltando a carreira de Regina Duarte ao trazê-la como meta de vida

Publicado em 26/12/2017 | Por Ana Clara Xavier

A atriz Paula Goja dá vida à Paola, uma personagem escrita por ela mesma (Foto: Anna Cecília Cabral)

Muitas pessoas passam a vida tentando alcançar metas, muitas vezes, difíceis de conseguir. E quando chegam lá, querem mais e mais. A atriz Paula Goja já foi exatamente assim por muito tempo e, em um momento de desabafo, resolveu colocar todas as frustrações em um papel em branco que acabou se transformando em um monólogo. A peça Quero Ser Regina já está na sua segunda temporada devido a grande aceitação do público, porque de certa forma todo mundo tem um pouco da personagem Paola. “Faço teatro desde muito nova e neste meio é comum que as pessoas queiram atingir um reconhecimento através da televisão, mas é difícil chegar lá porque nunca estamos dentro do perfil do papel. Quis tocar em um assunto que, apesar de todas as situações complicada pelas quais passamos, os artistas sempre fingem que está tudo bem e se acostumam a não ganhar dinheiro. Temos uma cultura de não querer falar sobre o fracasso e, por isso, quis botar o dedo na ferida”, explicou Paula Goja. O enredo fala de uma atriz que almeja ter uma carreira semelhante a seu ídolo, Regina Duarte, mas nunca consegue passar em um teste para fazer uma novela ou um filme.

O nome da personagem principal não é parecido com o da atriz por casualidade. Paula idealizou e escreveu a peça inteira e, por isso, existem muitas semelhanças entre as duas realidades. “Coloco muito das minhas frustrações pessoais na peça, inclusive, brinco que, ao escrever, foi como se eu tivesse feito uma higienização em mim mesma. Foi muito bom para mim contar esta história, porque realmente não adianta ficar esperando o telefone tocar”, comentou. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

A atriz escreveu a história apoiada em suas próprias questões (Foto: Anna Cecília Cabral)

O texto começou a ser escrito em 2013 e de lá para cá muita coisa mudou na vida da atriz. Foram exatos quatro anos de novidades e oportunidades diferentes que passaram pela sua vida. Atualmente, possui um olhar diferente da sua personagem. “A minha visão vem mudando um pouco. Quando escrevi a peça tinha certo rancor com a televisão, porque é uma competição dura e sempre me senti à margem. No entanto, comecei a perceber que isto serve para qualquer profissão: somos obrigados a nos encaixar. Percebi que não preciso estar na TV para me sentir realizada, até porque não será aparecer nas telinhas que me fará bem. Muitos profissionais globais podem não ser felizes. Colocamos muitas coisas na nossa cabeça, como dever para ser feliz, como se casar e ter filhos”, criticou. Paula Goja acredita estar mais madura e, por isso, acabou alterando muitas palavras da trama original. É como se a peça falasse de uma Paula que existiu há quatro anos.

Esta pessoa que viveu no ano de 2013 acreditava que para ser feliz era necessário ser aceita na televisão, por este motivo a escritora colocou a atriz Regina Duarte como um ideal de carreira a ser alcançado. Para Paula, a famosa seria sinônimo de sucesso profissional. “Fui uma criança dos anos 80 e, naquela época, as novelas faziam parte da nossa vida. A Regina Duarte é um grande nome da nossa dramaturgia que sempre fez papéis muito fortes de mulheres que batalhavam em todas as situações. A partir disto, me identifiquei desde o início com esta atriz e os seus personagens, porque fizeram parte da construção do meu imaginário”, confessou. O papel que mais marcou a atriz foi Maria do Carmo, em Rainha da Sucata. Foi a primeira novela que consegue se lembrar de ter acompanhado. A pergunta que não quer calar é se a própria Regina Duarte já teve a oportunidade de se ver como ideal de alguém, já que é o patamar de idealização profissional da escritora. No entanto, até o momento a atriz não pode ir à peça devido à problemas de agenda.

A atriz utiliza a figura de Regina Duarte como ideal profissional (Foto: Anna Cecília Cabral)

O objetivo do espetáculo, portanto, é mostrar que não adianta ficar parado, chorando e esperando a vida acontecer. Paula Goja buscou mostrar que ser bem sucedido é correr atrás daquilo que nos traz felicidade. “Ao focar em apenas uma coisa, às vezes, não conseguimos enxergar um leque de oportunidades. Antigamente, achava produção chato, mas hoje me sinto realizada produzindo. Temos que pensar que as cartas já estão na nossa mão e precisamos apenas aprender a jogar”, garantiu. No espetáculo, por exemplo, a personagem principal confessa que cogita parar de trabalhar no meio teatral. Apesar da atriz contar que viver em uma constante corda bamba com a profissão, ela nunca pensou realmente em desistir de seus sonhos. “Existem momentos em que ficamos cansadas, mas faz parte. Recentemente participei de um coach de atores onde perguntaram, em uma turma de seis pessoas, quem acreditava, realmente, que teria sucesso na carreira. Somente eu levantei a mão. Não acho que as outras pessoas não acreditassem, mas temos medo de falar isso e não conseguir. Acho que temos que crer nisso”, incentivou.

Atualmente a atriz possui uma imagem completamente diferente (Foto: Anna Cecília Cabral)

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