Leandro Hassum: “Se disser que haters não me incomodam, estarei mentindo, mas a gente tem que ignorar”


Ainda no embalo do sucesso da comédia “Tudo bem no Natal que vem”, no catálogo da Netflix, Leandro Hassum se prepara para voltar aos palcos com “É noix família” e “Zé e Nina – A história de uma amizade”. “A cultura foi o que nos manteve sãos durante o isolamento. Sem ela, a gente teria se matado, batido com a cabeça na parede”, garante. Para o ator, o cancelamento na internet não passa de uma grande bobagem. “A rede social tem que ser que nem canal de televisão: não está gostando do programa, muda. Não gosta do que a pessoa fala, deixa de seguir”, afirma

Leandro Hassum: "Se disser que haters não me incomodam, estarei mentindo, mas a gente tem que ignorar"

*Por Simone Gondim

Em 2021, Leandro Hassum chega a três décadas de carreira com os pés no chão. Apesar das restrições impostas pela pandemia, ele fechou o ano passado saboreando o sucesso de “Tudo bem no Natal que vem”, comédia que ficou em primeiro lugar na Netflix Brasil e entre os dez filmes mais vistos da plataforma nos Estados Unidos, na Alemanha, na Itália e em Portugal. “Hoje em dia, graças a Deus tenho a possibilidade de escolher meus projetos e me engajar neles. Sabia que a gente estava fazendo um bom trabalho”, reconhece. “Internacionalmente a gente nunca espera, é sempre um mistério, porque falamos de um Natal muito particular do brasileiro. Então, me surpreendeu muito positivamente. Tenho recebido mensagens do mundo todo, em idiomas que não consigo nem traduzir, mas, sem dúvida, é um reconhecimento com o qual estou muito feliz”, comemora.

Antes de estrear o longa-metragem, o ator fez uma intensa temporada de apresentações ao vivo no modelo drive-in, percorrendo várias cidades brasileiras. E, para janeiro, o ator tem duas peças a estrear: “É noix família”, que traz histórias divertidas envolvendo seus parentes, e o infantil “Zé e Nina – A história de uma amizade”, livremente inspirado na animação australiana “Mary e Max – Uma amizade diferente”. “Com todas as dificuldades que já passei na minha carreira, sou um privilegiado de poder viver do meu trabalho. É uma luta diária”, afirma. “Acho que o que me faz carregar esses 30 anos é manter a constância do propósito, saber exatamente o que eu quero, para quem eu quero me apresentar. Não mudaria nada. Todas as pedras, todos os degraus que subi na minha carreira têm seu valor e foram fundamentais para chegar onde estou e ir ainda mais longe”, acrescenta.

Hassum garante que fazer humor com a própria família não compromete as relações de afeto (Foto: Janderson Pires)

Um dos obstáculos mais recentes que Hassum precisou superar foi o adiamento de projetos profissionais, em função dos riscos relacionados à Covid-19. “Em maio do ano passado, iríamos gravar para o Multishow um seriado chamado ‘Casa Paraíso’, mas tivemos que jogar para o meio desse ano porque se passa dentro de uma casa de repouso e o elenco tem muita gente do grupo de risco. A própria estreia do ‘É noix família’ era para ter sido em abril de 2020″, lembra.

A sucessão de ataques às artes e aos artistas, vista nos últimos tempos no Brasil, também afeta Hassum. “O momento é delicado, mas ficou comprovado que a cultura foi o que nos manteve sãos durante o isolamento. Sem ela, a gente teria se matado, batido com a cabeça na parede”, acredita. “Como a gente não podia sair de casa, o que consumíamos, graças à internet, eram as plataformas, os canais de televisão, livros, teatro on-line, visitas virtuais a museus. Imagina como era na gripe espanhola, quando só se tinha os livros. Quem não tinha acesso ficava ali, à luz de velas, olhando para a parede”, complementa.

Na peça infantil “Zé e Nina – A história de uma amizade”, Hassum repete a parceria com Elisa Pinheiro (Foto: Janderson Pires)

Mas será que fazer humor com a própria família não compromete as relações de afeto? Hassum explica que jamais passou constrangimento. “Nunca ninguém levou isso de forma a ficar chateado ou criar mal-estar. Pelo contrário, eles se sentem homenageados, porque são histórias que a gente realmente viveu”, garante. “Muitos vão assistir ao espetáculo várias vezes, levando amigos, para dizer: aquele cara de quem ele está falando lá sou eu. Minha mãe adora quando conto as histórias dela, minha filha e minha mulher também”, revela.

Em “É noix família”, uma das fontes de inspiração é o primo André, que tem quase a mesma idade de Hassum. “Tudo que esse meu primo fazia dava errado. Todo mundo tem aquele parente que, quando as coisas têm que acontecer, acontecem com aquela pessoa”, conta. “São histórias da minha família, mas poderiam ser da família de qualquer um. Em todos os espetáculos que faço, gosto de trabalhar esse humor de identificação. Quero que a plateia se sinta sentada na sala da minha casa enquanto a gente conta histórias e reconheça nelas a mãe, uma tia, um primo, a mulher ou a filha”, resume.

“Sou um privilegiado de poder viver do meu trabalho. É uma luta diária”, diz Hassum (Foto: Janderson Pires)

“Zé e Nina – A história de uma amizade”, no qual Hassum volta a trabalhar com Elisa Pinheiro, que vive a mulher dele em “Tudo bem no Natal que vem”, pode ser vista como uma volta às raízes do ator. “Minha carreira começa com teatro infantil. Tenho uma ligação muito grande, venho do Tablado, onde fui aluno da Maria Clara Machado e fiz vários infantis”, ressalta. “Adoro fazer teatro infantil e assistir a esse tipo de peça. Um teatro infantil de bom gosto, que não seja infantiloide e passe uma mensagem, como são os espetáculos da Maria Clara. Com certeza, ‘Zé e Nina’ também vai passar uma mensagem muito boa para filhos e pais”, observa.

A parceria com Elisa em “Zé e Nina” nasceu nos bastidores de “Tudo bem no Natal que vem”. Como os dois são fãs da animação “Mary e Max”, ficou ainda mais fácil abraçar o projeto. “Em 2013, não pude fazer uma montagem adulta de ‘Mary e Max’ por conta de outros trabalhos. Durante as filmagens, eu e Elisa falamos muito sobre esse espetáculo. Dali surgiu a vontade de fazer uma versão infantil, até porque eu não poderia fazer nenhum espetáculo adulto, pois já estaria com meu show”, descreve Hassum. “Elisa é uma atriz muito talentosa, não só individualmente como uma grande parceira de cena, e tem um tempo de comédia muito bom, além de vir dessa escola do teatro infantil, como eu”, derrete-se.

“Elisa é uma grande parceira de cena, tem um tempo de comédia muito bom”, derrete-se Hassum (Foto: Janderson Pires)

Hassum admite que uma das melhores coisas de trabalhar para o público infantil é a sinceridade. “Diferentemente do adulto, a criança, quando não gosta da peça, levanta e começa a brincar de pique no meio do teatro, grita ‘mãe, vamos embora porque está chato’. É um grande termômetro”, ressalta. Embora as críticas dos pequenos sejam de natureza bem diferente das feitas na internet, o ator assume que já aprendeu a lidar com os haters. “Durante um tempo teve um momento em que isso me incomodou muito, porque eu mesmo não entendia o que era rede social, que o hater quer mais é ser notado. Depois, comecei a lidar de forma positiva”, confessa. “Se eu disser que haters não me incomodam, estarei mentindo. Todos nós não gostamos de receber críticas com relação à aparência ou a alguma coisa que postamos porque estamos felizes. Mas isso faz parte e a gente tem que ignorar”, conclui.

Para fugir do patrulhamento virtual, Hassum pensa bastante antes de postar em suas redes. “Desisto porque pode gerar uma polêmica ou não estou a fim de brigar por conta daquilo. Algumas vezes você está brincando, querendo fazer uma piada, e todo mundo leva isso para o lado negativo”, diz. “Tenho exemplo recente. Com a morte do Maradona, botei uma brincadeira, quando fiz, uma vez, o Maradona no ‘Zorra total’. Escrevi: Pelé é melhor que Maradona. Isso virou uma discussão entre meus seguidores, começaram a brigar nos comentários”, recorda.

“Minha carreira começa com teatro infantil”, conta Hassum (Foto: Janderson Pires)

O cancelamento nas redes sociais é algo que não faz o menor sentido para Hassum. “Sinceramente, acho uma grande bobagem. Você às vezes deixa de seguir porque tem uma opinião contrária ao ídolo, a pessoa da qual você é fã. A rede social tem que ser que nem canal de televisão: não está gostando do programa, muda. Não está gostando do que a pessoa está falando, para de seguir. Vai seguir outras pessoas. Acho que tem que ser assim, sem criar polêmica e ficar seguindo a pessoa só para ficar ali xingando”, comenta.

Outro aprendizado trazido pela pandemia foi a consciência de que ninguém é forte o tempo todo. “O ponto de interseção que todo mundo tem nesse momento de pandemia e isolamento é a oscilação do humor. O que está me ajudando muito é entender que todos nós temos direito a não estar bem, chorar, ficar chateados e nervosos, e daqui a pouco estar de boa novamente. Isso faz parte. E não passou, estamos passando ainda. A verdade é essa”, finaliza.