Teatro & Pensata

“Irmãozinho Querido”: Flavio Marinho escreve comédia que permeia a rivalidade, o fraterno e o amoroso da relação entre irmãos

De Abel e Caim aos Irmãos Coragem, dos Irmãos Marx e Lumière a Brothers & Sisters, irmão dá pano pra manga. Até que ponto você seria a mesma pessoa se não tivesse existido aquele irmão – ou irmã – para roubar a atenção de seus pais? Que limites separam a fraternidade da rivalidade?”. Essas perguntas moveram o trabalho do roteirista e diretor Flavio Marinho ao desenvolver a peça, em cartaz até 18 de novembro e que também vem em livro

Publicado em 16/11/2018 | Por Anna Castro

Quem vê o espetáculo “Irmãozinho Querido” pronto e nos palcos, não imagina que  a história levou 5 anos para ser desenvolvida e acabada. A peça, em cartaz até 18 de novembro no Teatro SESC Ginástico, no Rio de Janeiro, começou com a perda do irmão de Flavio Marinho, roteirista e diretor do sucesso nos palcos. E o caminho desde seu luto até a luta de levantar seus recursos para executar a peça foi longo e transformou seu trabalho em algo inesperado e que tomou seu próprio rumo. “Irmãozinho Querido” traz no elenco Marcos Breda, Alice Borges e Leonardo Franco, numa comédia que faz rir, mas também faz chorar. Além da peça, o autor também lança o livro, que contém o texto integral do espetáculo, com todas as marcações e rubricas, próprias do texto do teatro, sendo uma oportunidade para os amantes do espetáculo e da arte.

Alice Borges, Flavio Marinho, Leonardo Franco e Marcos Breda formam o time de “Irmãozinho Querido” (Foto: Divulgação)

A trama é metalinguística pura. Léo (Leonardo Franco) e Raul (Marcos Breda) são dois irmãos bem diferentes: Léo é  divorciado, ator e autor de teatro, talentoso, inteligente, autocentrado e bem sucedido. Raul é casado, pai de dois filhos, dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, um sujeito generoso e solidário.O relacionamento entre os dois se complica  quando Raul descobre que Léo está ensaiando uma peça intitulada, justamente, “Irmãozinho Querido”. Raul não gosta nada da ideia, não quer ter sua vida devassada no palco. Disposto a impedir a realização da peça, invade o ensaio para um ajuste de contas com o irmão que, por sua vez, está determinado a seguir em frente. No meio da contenda familiar, sem ter nada a ver com o acerto entre os irmãos, está a diretora Muniz (Alice Borges), que acaba virando, involuntariamente, juíza de um embate repleto de lembranças e antigos ressentimentos.

Marcos Breda, Leonardo Franco e Alice Borges atuam na peça de Flavio Marinho que retrata fraternidade versus rivalidade (Foto: Beti Niemeyer)

“Irmãozinho Querido” trata da importância e das consequências da presença e da ausência deste “outro” em nossas vidas. A partir da rivalidade entre irmãos, a peça fala, com bom humor e amor, sobre o limite tênue que separa a verdade da mentira e de como a passagem do tempo atua sobre nossas lembranças. Flavio viu se desenvolver também a reflexão sobre usar o outro como inspiração. Até que ponto podemos nos apropriar da vida alheia em nome da criação artística? A partir de que ponto a inspiração dá lugar à invasão? E o autor traz essas questões e reflexões vivas dentro de cada diálogo e de cada cena fraterna.

Flavio Marinho não é novato no mundo das cortinas que se abrem e nos scripts. Comemora 31 anos de carreira, dirigiu 88 espetáculos entre teatro e shows, escreveu 25 peças, adaptou 22, traduziu 23 textos, foi redator e/ou colaborador em 27 programas de TV, escreveu o roteiro de 13 shows, tem 19 livros publicados, 7 prêmios e 12 indicações. É muito número, mas que não explica e nem mostra a sensibilidade e a simpatia de alguém que tem muita história para contar, inclusive com sinceridade.

O enredo mistura rivalidade, amor e família (Foto: Beti Niemeyer)

O autor, que passou pelo processo de luto 5 anos atrás, quando seu irmão subitamente faleceu, quis transformar essa dor em história e arte. E ao contrário da opinião pública de que o processo de criar um espetáculo é simples e sempre prazeroso, Flavio viveu anos intensos tentando encontrar formas de fazer o espetáculo acontecer e que resultou em usar seus próprios recursos. Mas, de uma peça que falava diretamente da sua relação pessoal fraterna, o autor viu o surgimento de outras conotações ao longo do tempo. “Para manter a peça viva dentro de mim, eu fui escrevendo, reescrevendo, cortando e fazendo loucuras com meu texto. E então a peça saiu do luto e da perda do irmão, nascendo algo que fala sobre os limites entre a verdade e a mentira, sobre a ação do tempo na nossa memória e principalmente sobre a rivalidade que se mistura nesse processo”, explicou Flavio.

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De algo podemos ter certeza: relações humanas não são fáceis, principalmente as que existem dentro de casa. A dificuldade da relação entre irmãos, segundo o diretor, está ligada aos pais e a forma como dividem a atenção para cada filho. “Existe uma disputa natural pela atenção dos pais. Na peça, um filho nasceu 4 anos depois do outro. Então, o que já estava ‘em cartaz’, reinava em absoluto e, então, chegou aquele intruso. E começa a luta do irmão mais velho em se manter absoluto, enquanto entende que está perdendo espaço para um bebê, que rouba a cena normalmente. Só que o caçula não entende essa tensão com o irmão que já estava lá. E tudo é laço do coração e é por isso que os irmãos fazem parte dessa disputa, em algo muito delicado. Só que tem sequelas e consequências, principalmente na relação entre os dois. O irmão mais velho deixa de ser modelo para o irmão mais novo, que rejeita essa ideia por causa de toda a briga que existe ali. Na peça, os irmãos são muito diferentes, então acontece”, comentou o autor.

“Irmãozinho Querido” traz história de irmãos baseada na relação fraterna de Flavio Marinho (Foto: Beti Niemeyer)

Em cartaz desde 27 de outubro, Flavio já viu muitas sessões e, como diretor e roteirista, acompanhou cada passo em direção do conjunto da obra. Mas, desde a perda do irmão, sua relação com a produção atual não é mais tão dolorosa. “Hoje em dia eu já consigo ver a peça com certo distanciamento. No inicio, logo depois que começamos a erguer tudo, era super emocionante, porque foi uma luta de 5 anos e uma luta que envolve meu irmão… Então foi uma luta e um luto. Eu estava muito envolvido. Hoje em dia eu já consigo ver sem me debulhar em lágrimas, ao contrário do público, que gargalha, chora! É maravilhoso e eu presto mais atenção na reação do público do que a peça em si. Todo trabalho é compensado”, revelou.

Flavio Marinho levou 5 anos na produção da peça (Foto: Beti Niemeyer)

Nos 2 meses de ensaio, o que Flavio não esperava era a conotação política que nasceu, muito refletida pelos tempos atuais. “A peça criou uma camada política, porque passamos a viver a eleição de forma tão visceral, que a rivalidade de dois irmãos antagônicos, parecia o que nós estávamos vivendo, inclusive como uma reflexão sobre o discurso de ódio que existe Brasil, além dos irmãos lembrarem os dois candidatos presidenciáveis. E eu vi ao longo do tempo, principalmente, que a peça que antes era focada em mim e no meu irmão, foi dando lugar à identificação das pessoas. Me dá muito orgulho e felicidade quando eu ouço dizerem que achavam que algum tinha razão, mas que viram que não e no final já não tinham certeza, pulando de um para o outro. A peça acabou virando uma nova troca de ideias opostas, pesando a complexidade das coisas, não os extremismos”, declarou Flavio Marinho.

E, como uma forma de eternizar tamanha produção significativa, o autor lançou neste mês o livro “Irmãozinho Querido”, que traz o texto integral da peça, hábito comum de grande parte de seus trabalhos como roteirista. A orelha do livro, escrita por Olivia Hime, traz reflexões sobre a fraternidade na peça e na vida. Para Flavio, é momento de tentarmos criar memórias do que pudermos. “O livro continua existindo pelo resto da vida! Sendo lançado no Brasil todo, alguém no Acre, por exemplo, pode montar a peça com seu próprio grupo. O livro é uma memória. Vemos tanta gente com pouca memória, pedindo volta da ditadura militar no país, então temos que lutar muito pela memória brasileira o tempo inteiro. O teatro é uma arte que se esvai com o tempo, porque a imagem fica guardada no inconsciente das pessoas, então pode se perder para sempre. O livro leva essa oportunidade de que outras pessoas futuramente possam conhecer”, afirmou o diretor.

O livro traz o texto integral da peça “Irmãozinho Querido” (Foto: Divulgação)

Com a peça e com o livro, a mensagem do autor é clara: fraternidade. “É uma palavra que se usa tanto, quanto mais fraternal formos entre nós, melhor. Não digo só como família, mas como sociedade também, respondendo ao discurso de ódio que acontece nas redes sociais e nos grupos familiares. Nós temos que aprender a conviver com ideias diferentes”, frisou Flavio. Ainda sobre as relações entre irmãos, é essencial cultivar sempre, segundo o autor. “É um exercício diário e tem que cuidar da relação com cuidado. A pessoas tem que parar de agir impulsivamente, tentar enxergar o ponto de vista do outro e incentivar a tolerância, exercício que tem que começar dentro de casa”, completou.

“Irmãozinho Querido”

LOCAL: Teatro Sesc Ginástico– Av. Graça Aranha, 187, Centro / RJ   Tel: (21) 2279-4027

HORÁRIO: 5ª a sab às 19h; dom às 18h

INGRESSOS: R$30,00, R$15,00 (meia-entrada) e R$7,50 (associados Sesc) BILHETERIA: 3ª a domingo das 13 às 20h

CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA: 12 anos / DURAÇÃO: 90 min

GÊNERO: comédia

TEMPORADA: até 18 de novembro

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