Teatro & Pensata

Exclusivo: Jane Di Castro fala sobre a volta aos palcos sob direção de Ney Latorraca, luta gay e afirma: “Respeito é bom e conserva os dentes”

A artista performática, que estará nos dias 24, 25 , 26 e 31 de julho e 1 e 2 de agosto com o espetáculo solo “Passando Batom”, na Sala Municipal Baden Powell, em Copacabana, nos conta ainda como é lidar com o preconceito nesse país, suas dicas de beleza para as mulheres e a experiência de ser síndica de um prédio com oito anos de mandato

Publicado em 18/07/2015 | Por Heloisa Tolipan

Conheço Jane Di Castro há anos. Desde os meus tempos de repórter do Jornal do Brasil. Gente, e o que falar então de Ney Latorraca, que vai assinar a remontagem de um sucesso da dupla nos anos 80: o espetáculo “Passando batom”, com estreia dia 24, na Sala Baden Powell, em Copacabana? Eu preciso fazer uma pausa aqui e me lembrar do meu convívio íntimo com Ney durante viagens ao exterior para participarmos do Brazilian Film Festival, da produtora Infinitto, das irmãs Adriana e Cláudia Dutra + Viviane Spinelli. Ney é nobre, gentil, cavalheiro, divertido, agradável. Precisaria de linhas e linhas para eu colocar todos os adjetivos que destino a esse ser de luz. Na quinta-feira à noite, liguei para Jane, a diva trans que o Rio de Janeiro inteiro conhece pelo trabalho como atriz performática de primeira grandeza, e falei que queria bater um papo sobre diversos temas a partir da remontagem do espetáculo. Jane estava exausta, saindo do salão de cabeleireiro que mantém em plena Copacabana, mas parou tudo para, gentilmente, conversar comigo alguns minutos. Ela é do tempo do olho no olho, da relação direta entre os seres humanos e não  da frieza que impera nos dias de hoje.

Ney Latorraca e Jane Di Castro: diretor e atriz na remontagem de "Passando batom"

Ney Latorraca e Jane Di Castro: diretor e atriz na remontagem de “Passando batom”

A peça-show, assim chamada, foi sucesso nos anos 80 com direção do mesmo Ney. Tempos de agito noturno em um Rio de Janeiro e um Brasil bem diferentes. “Teremos um público novo. Não é apenas uma releitura, é a confirmação do talento da Jane, desde o sucesso de 1984. Quando a dirigi, há 30 anos, ela já sabia de todo o potencial dela e eu da estética, do cuidado e do talento que tenho com este espetáculo”, disse o diretor. “E Jane, depois de participaar do espetáculo Divinas Divas, ao lado de Rogéria, Divina Valéria, Camille K, Eloína, Marquesa, Brigitte de Búzios e Fujika de Halliday por que ‘Passando batom’?”, perguntei. Ela foi rápida no gatilho: “Uma brincadeira. Quando eu ainda era criança, me chamava Luiz e morava com a minha família em Oswaldo Cruz, eu tinha fissura por batons. Roubava todos os da minha mãe. Vermelho sempre foi a minha cor preferida. Acordo e durmo passando batom. Eu me trancava no quarto dela e me deliciava de batons na boca. Foi sempre uma fissura e virou uma marca registrada minha, pois tenho lábios carnudos e com o vermelho paixão estou sempre pronta para despertar desejos”. E o nosso papo fluiu sobre o dia-a-dia de Jane como dona de um salão no bairro de Copacabana, onde mora e é síndica há oito anos, do preconceito contra os gays que impera há anos no país e por aí vai!

HT – Nos conte sobre a volta do espetáculo encenado na década de 80 e adaptado para os dias de hoje. Por que ele se adequa perfeitamente aos dias atuais?

JC- “Passando batom” foi um grande sucesso em 1984. Começou de forma despretensiosa ali em cima do Amarelinho, na Cinelândia, e quando vimos virou um sucesso, com filas na porta, celebridades na plateia. Eu buscava um diretor, até que minha amiga, Teresinha Sodré, me apresentou ao Ney Latorraca. Foi paixão à primeira vista. Que pessoa maravilhosa! Que ser humano especial. Sempre tive vontade de voltar a encenar e, conversando com o Ney, ele disse que toparia uma remontagem. E estamos aí. Acho que se adequa, porque hoje canto melhor do que antigamente e tenho mais histórias para contar.

HT – Ser dirigida por um gênio chamado Ney Latorraca. Para quem não o conhece na intimidade como você o definiria e por quê?

JC – Uma pessoa espirituosa, divertidíssima. Sabe aquele papo meio chato às vezes de que a pessoa tem que ter humor, o pior é que é verdade. E o Ney é exatamente essa pessoa. Não tem baixo astral perto dele. Me faz rir horrores. Outro dia, depois do ensaio, sentamos em um bar (porque eu adoro sentar em um pé sujo e beber minha cervejinha em Copacabana) e ele fez uma festa. Começou a distribuir filipetas do show, fazer selfies com as fãs. Foi um tumulto. Causamos mesmo em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Não é um luxo? Kkkkkkkk

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HT – Você também é uma das Divinas Divas, espetáculo que reuniu os maiores nomes que revolucionaram o comportamento sexual no país e com 50 anos de estrada. O que você pode nos contar ainda de inédito sobre os bastidores do documentário Divinas Divas, assinado pela Leandra Leal?

 JC – Os bastidores das filmagens você imagina como foi, né? Um monte de bichas já com idade reunidas, prontas pra brilhar. Foi uma querendo arrancar a peruca da outra, quebrar o salto. Kkkkkk. Brincadeirinha. Nos amamos e nos respeitamos muito. Fomos pioneiras e as que estão chegando hoje aí tem de nos respeitar. Baixar a cabeça e bater cabelão para gente. São anos de convivência. Leandra Leal nos conheceu no Rival, ficou encantada com a nossa história e está finalizando o filme, que promete.

HT – Há anos você é dona de um salão de beleza em Copacabana. O que a mulher de hoje tanto procura em termos de cuidados. O que você acha que a busca frenética pela beleza?

JC -Tenho pavor de mulher que não se cuida, não se pinta. Mulher tem que ser vaidosa, viver cheirosa, com a pele macia, cabelos bem cuidados. Vivo disso também, né? Sou super a favor da busca pela beleza, das operações plásticas. Afinal, sou uma boneca, né, benhêêê? E fica a dica para mulher que está para baixo: não tem nada que um salão de beleza não resolva. Qualquer coisa, é só passar no meu: Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 314, sobreloja.

HT – Você está no seu oitavo mandato como síndica no edifício onde mora em Copacabana. Como vê o relacionamento entre as pessoas hoje em dia? Qual o segredo para administrar tão bem um local comum a todos tão diferentes?

JC – Olha, vou falar que não é fácil não. É uma trabalheira sem fim. Mas me orgulho disso. Sou meio xerife. Mas superei todos os preconceitos e amo lidar com as diferenças. Por isso, amo Copacabana e amo ser síndica do Edifício Kansas. Procuro botar ordem no terreiro: nada de roupas penduradas na janela, nada de entra e sai de garotas de programa. Cuido do visual dos porteiros: corto os cabelos, faço as unhas.  Teve um morador que não me engolia como síndica por eu ser uma trans. Acredita que na reunião de condomínio, onde fui reeleita, ele teve um piripaque e caiu morto no chão? Infartou de homofobia. Parece um filme, mas foi verdade.

HT – O casamento gay foi legalizado nos Estados Unidos. Qual o paralelo que faz com relação ao nosso país? Em que estágio estamos sobre os direitos gays?

JC – Aqui foi legalizado antes, mas em termos de respeito ainda estamos atrasados. O fundamentalismo religioso que se instalou na política brasileira é vergonhoso e decadente. Esses pastores que mandem no rebanho deles, em quem frequenta o templo deles e se deixa levar pela cretinice deles. O que não pode é quererem impor suas filosofias religiosas a todos os cidadãos. O estado brasileiro é laico!

HT –  Você sempre militou pela causa gay. O que a faz ainda lutar pela igualdade de direitos nesse país?

JC – Respeito é bom e conserva os dentes, já dizia minha avó. É isso. Luto pelo respeito às diferenças. Jamais me cansarei. A graça do mundo está exatamente nessa mistura toda e ainda tem gente preconceituosa nos dias de hoje. Não posso aceitar e não vou me calar jamais!

HT – O que a entristece ainda com relação ao preconceito nesse país? A internet virou território de verdadeiras barbaridades como aconteceu recentemente com a jornalista Maria Júlia Coutinho, da Globo, que apresenta o tempo e é negra. Como você lida com internet? O que ainda a revolta?

JC – Olha, eu fico horrorizada quando começo a ler alguns comentários. As pessoas são cruéis, porque na internet não mostram a cara. Mas estão enganadas porque pensam que podem mostrar o seu lado mais cruel e perverso sem serem descobertos. Acho que a delegacia de crimes na internet tem que agir com mais afinco e combater essa gente de quinta. Internet não é terra de ninguém. Quem mexer comigo, vai ver só. Já deixo logo o meu recado. Meu nome é Jane Di Castro. Não é bagunça não!

HT- A mulher de hoje se diz resolvida, caçadora, independente. O que você tem a comentar?

JC – Acho o máximo essas conquistas todas. Só peço pra elas jamais deixarem de perder a feminilidade. Mulheres, jamais deixem de passar o batom. Fica a dica da boneca!

HT – O que é ser uma verdadeira Divina Diva que passa batom?

JC – É ser feliz. Custe o que custar. É estar de lenço na cabeça, limpando a casa, arrastando o sofá e cantando com Bethânia nas alturas: eu gosto de ser mulher, sonhar e arder de amor, desde que sou uma menina…

Olha, aqui vai uma dica do que vai rolar no palco da Sala Baden Powell: no repertório, de Edith Piaf, passando por Beatles, Roberto e Erasmo Carlos, Marisa Monte a Raul Seixas, além de curiosidades de uma carreira de 49 anos de estrada profissional. Jane estará acompanhada de músicos no palco: ao violão, Lúcio Mariano, na bateria e percussão, Cadinho Caramujo, no contrabaixo, Kathy Valverde e nos teclados, Guilherme Lara, que também assina a direção musical.

Serviço: “Passando batom”

Com: Jane Di Castro

Texto: Ney Latorraca e Jane Di Castro

Direção e roteiro musical: Guilherme Lara

Cenário: Claudia Phoenix

Figurinos: Eloína

Fotografia: Daniel Marques

Direção Geral: Ney Latorraca

Dias: 24, 25, 26 , 31 de julho e 1 e 2 de agosto na Sala Baden Powell. R$ 40,00 (inteira); R$ 20,00 (Meia-entrada). Sexta e sábado, às 20h, e domingo às 18h30

Sala Municipal Baden Powell: Avenida Nossa Senhora de Copacabana, 360. Duração: 80 minutos. Classificação etária: 16 anos.Telefone: (21) 2255-1067.

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