Debora Lamm dirige solo sobre a infância invisibilizada da criança queer, fala de representatividade e volta à TV


Em ‘Selvagem’, solo com Felipe Haiut, a atriz experimenta mais uma vez sua versão diretora, trazendo à tona uma reflexão sobre a formação da identidade de gênero e a importância do acolhimento e do respeito na construção de uma sociedade mais consciente e diversa. Debora também celebra o retorno do programa ‘Cilada’, após 14 anos, na grade do Multishow e no Globoplay, e seu próximo papel na TV em episódio ‘História Impossíveis’, na Globo

*Por Brunna Condini

Exaltamos quem faz diferença contra a homofobia neste mundo. E viva Debora Lamm! Atriz e diretora, lésbica, conhecida do grande público pelo trabalho como humorista, e mais recentemente por um desempenho comovente na série ‘Todo dia a mesma noite‘, da Netflix, sobre o incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), Debora é cria do teatro e está sempre se alimentando dele. E é lá, no palco, que busca se envolver cada vez mais com projetos que têm relevância para a sociedade de alguma forma. Foi assim que topou dirigir o solo ‘Selvagem’, uma autoficção que traz Felipe Haiut convidando o público a uma imersão em suas memórias e vivências pessoais. “A peça aborda a solidão da criança queer , e como ela é invisibilizada em um mundo cheio de padrões por todos os lados”, diz. Debora também celebra o retorno do programa ‘Cilada’, após 14 anos, na grade do Multishow e no Globoplay, e seu próximo papel na TV em episódio ‘História Impossíveis’, na Globo.

Sobre a peça, ela relata ainda que “quando o Felipe vem a partir da história dele, de uma forma muito simples, direta, partindo da sua infância, e consegue representar tanta gente, isso já mostra a urgência desse debate. Se muitas pessoas se identificam com a história de uma, aí está o ponto”, diz Debora, sobre a peça fica em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro até 28 de maio.

A falta de representatividade em um mundo como o nosso, que consome, além de tudo é burra – Debora Lamm, atriz e diretora

“A liberdade não é binária de jeito nenhum, né? A liberdade são muitas possibilidades e o binarismo é muito restrito. Tanto que a sigla é LGBTQIA+, ganha um ‘mais’ no final porque são diversas formas de estar no mundo e se relacionar. E isso fica evidente para todo ser humano que está por aqui com esse intuito. Estamos aqui para nos relacionar, estarmos inteiros”, pontua sobre o tema. Debora também volta ao audiovisual com dois projetos que a empolgam; a série ‘Histórias impossíveis’, na Globo, em que contracena com Andréa Beltrão, e no retorno do divertido ‘Cilada’, com Bruno Mazzeo, com previsão de ir ao ar no Multishow e Globoplay ainda este ano. Aqui, ela também fala dos novos projetos como atriz. Vem saber!

Felipe Haiut, Debora Lamm e Denise Stutz, os criativos do espetáculo 'Selvagem' (Foto: Nova comunicação)

Felipe Haiut, Debora Lamm e Denise Stutz, os criativos do espetáculo ‘Selvagem’ (Foto: Nova comunicação)

Trazendo à tona uma reflexão sobre a formação da identidade de gênero e a importância do acolhimento e do respeito na construção de uma sociedade mais consciente, o espetáculo que conta com Denise Stutz como diretora de movimento, coloca na roda a urgência de encaramos como enfrentamos questões do presente e a necessidade de apontar para um futuro mais inclusivo e diverso. “Todo esse binarismo é sufocante. Do ‘isso pode’, ‘isso não pode’, ‘isso é coisa de menina ou isso é coisa de menino’. Na infância nada disso faz sentido, pois a infância é experimentação. É fazer um exercício empático das relações, do amor. Nosso intuito é que tudo isso chegue ao público, e o retorno tem sido a melhor parte do trabalho. É muito positivo e muito empenhado. As pessoas não só assistem a peça, como dividem reflexões e isso gera muitas discussões. O espetáculo começa as 19h, mas muitas vezes vai terminar no bar, só depois que ele fecha (risos)”, conta a atriz e diretora.

Acho que estamos no início de uma conscientização da diversidade, mas muito ainda no começo mesmo. É uma discussão que está atrasada – Debora Lamm, atriz e diretora

As linhas mais conservadoras afirmam que falar de educação sexual facilita a sexualização infantil…o que pensa disso? “A educação é fundamental para a vida, assim como é a educação sexual. É muito importante que isso seja debatido também nas escolas, até para que as crianças se sintam abraçadas, acolhidas, respeitadas e protegidas”.

Felipe Haiut e Debora Lamm falam da infância invisibilizada da criança queer (foto: Arquivo pessoal)

Felipe Haiut e Debora Lamm falam da infância invisibilizada da criança queer (foto: Arquivo pessoal)

‘Selvagem’ também é uma intervenção política e cultural, que busca combater a violência e a discriminação contra pessoas LGBTQIA+ no Brasil. E propõe ser uma plataforma, que pretende se estender além do espetáculo, para promover o diálogo e dar voz e visibilidade àqueles que são marginalizados ou invisibilizados pela sociedade. “A falta de representatividade em um mundo como o nosso, que consome, além de tudo é burra. Acho que estamos no início de uma conscientização da diversidade, mas muito ainda no começo mesmo. É uma discussão que está atrasada. E toda forma de criação de esteriótipos é limitadora, castradora, e isso é um tema que precisa ser debatido com mais constância, firmeza”, frisa.

A peça aborda a solidão da criança queer , e como ela é invisibilizada em um mundo cheio de padrões por todos os lados – Debora Lamm, atriz e diretora

De volta à TV

Na TV aberta, a atriz foi vista pela última vez na novela ‘Quanto mais Vida Melhor’ (2021), e volta à Globo em um episódio da série ‘Histórias impossíveis’, ao lado de Andréa Beltrão.  A produção estreou em março com um episódio estrelado por Isabel Teixeira e Luellem de Castro, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. Ao longo do ano, haverá mais quatro capítulos, todos relacionados a alguma data importante do calendário nacional. A série é escrita por Renata Martins, Grace Passô e Jaqueline Souza, e tem direção de Luísa Lima. “Fiz uma participação com uma personagem que é uma motorista de aplicativo, o que adorei fazer, porque nunca havia feito um papel assim na TV, que a princípio seria uma escalação masculina, por exemplo. A expectativa é que de um carro de aplicativo saia um homem na direção, mas não, colocam uma mulher. Adorei fazer”, antecipa Debora.

A liberdade não é binária de jeito nenhum, né? A liberdade são muitas possibilidades e o binarismo é muito restrito. Tanto que a sigla é LGBTQIA+, ganha um ‘mais’ no final porque são diversas formas de estar no mundo e se relacionar – Debora Lamm, atriz e diretora

Debora Lamm entre Pedroca monteiro e Bruno Mazzeo em um dos novos episódios de 'Cilada' (Foto: Marcelo Brasil)

Debora Lamm entre Pedroca monteiro e Bruno Mazzeo em um dos novos episódios de ‘Cilada’ (Foto: Marcelo Brasil)

Ela também estará em ‘Cilada’, atração protagonizada por Bruno Mazzeo entre 2005 e 2009 que ganhará episódios inéditos este ano no Multishow e no Globoplay. Debora conta que a longa amizade entre os dois só facilita as coisas, e vibra com o retorno: “Voltamos! Esse é um programa querido e amado por muita gente. Estamos de volta 14 anos depois da última temporada, mais amadurecidos e com muito mais intimidade. Vivendo as mesmas situações de um ser humano médio, mas mais velho (risos)”.