Teatro & Pensata

Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa o musical “Ou Tudo Ou Nada”, em cartaz no Theatro Net Rio. “Para assistir seis vezes!”

A montagem, baseada no filme homônimo de Peter Cattaneo e adaptada por Artur Xexeo, enaltece o ser humano em suas diferenças, medos, prazeres e de sua força em conquistar o que lhe é necessário, também engrandece a programação de teatro carioca. Valeapeníssima!

Publicado em 22/10/2015 | Por Junior de Paula

* Por Rodrigo Monteiro

O divertidíssimo “Ou tudo ou nada – O musical” estreou em grande estilo no último dia 10 de outubro. Em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, a montagem traz alegria e qualidade para a programação teatral carioca. Trata-se da primeira versão brasileira do musical americano “The Full Monty”, que adaptou para a Broadway o filme britânico homônimo de 1997. Na história, o dinheiro e a possibilidade de fazer algo que realmente seja significativo levam um grupo de seis homens a fazer um show de strip-tease em um clube para mulheres. Mouhamed Harfouch, Claudio Mendes, André Dias, Victor Maia, Carlos Arruza e Sérgio Menezes protagonizam o espetáculo em participações cheias de êxito. Sylvia Massari, Patrícia França, Kakau Gomes e Xande Valois são outros grandes trabalhos em um elenco composto por dezessete atores mais oito músicos. O musical tem versões brasileiras assinadas por Artur Xexéo e ótima direção de Tadeu Aguiar com direção musical de Miguel Briamonte. Eis aí uma comédia para assistir várias vezes.

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O filme “The Full Monty” foi lançado em 1997, com roteiro escrito por Simon Beaufoy, o mesmo autor de sucessos como “Quem quer ser um milonário?” e “127 horas”. A produção, dirigida por Peter Cattaneo, concorreu ao Oscar de Melhor Roteiro, Melhor Direção e Melhor Filme, mas só venceu a de Melhor Trilha Sonora. Na ocasião, os autores quase foram processados por plágio pela semelhança com a peça neozelandesa “Ladie’s Night”, de Andrew McCarten e de Stephen Sinclair. Essa teve uma adaptação brasileira chamada de “Os adoráveis sem vergonhas”, com direção de Guilherme Leme, bastante elogiada em 2003 no Rio e em São Paulo. Beaufoy venceu o processo e sua obra foi considerada original.

O musical “The Full Monty” foi a zebra do Tony Award de 2001, a principal premiação do teatro norte-americano. A produção foi indicada a dez categorias, mas não levou uma única estatueta, perdendo quase todas para “The Producers”. Exatamente o mesmo havia acontecido vinte e cinco antes quando “Chicago” também não venceu qualquer das 10 categorias a que fora indicado, perdendo para “A Chorus Line”. Com música composta por David Yazbek e roteiro pelo premiado Terrence McNally (de “O beijo da mulher aranha”), “The Full Monty” fez sucesso pelo mundo. Sobre a temporada de estreia, o crítico Ben Brantley, do The New York Times, disse que “até aqueles que esperam zombar ficarão surpresos com sorrisos que se esgueirarão em suas faces”.

De fato, a narrativa contagia. Os personagens Jerry e Dave estão desempregados há alguns meses quando a história começa. O primeiro corre o risco de perder a guarda do filho Nathan e o segundo a atual esposa. Um dia, eles se espantam ao ver as mulheres da cidade pagando altos ingressos para assistir a um show de streap-tease masculino em um clube só para elas. Então, surge entre eles a ideia de apresentar um show cujo diferencial seria, em primeiro lugar, o caráter corriqueiro de seus corpos e, depois, a proposta de, para além do convencional, realmente “mostrar tudo”. Unem-se aos dois mais quatro homens em situações parecidas: o depressivo Malcoln, o metódico Harold, o promissor Jegue e o bem-dotado Ethan. A ex-vedete Jeanette ensaia os rapazes enquanto o grupo vivencia diversas situações que antecedem a possibilidade de ficarem completamente nus em público.

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Entre vários os méritos do roteiro original – e que permanecem na adaptação de Artur Xexéo -, está a potencialidade do texto de quebrar paradigmas. Um a um, todos os personagens, protagonistas e coadjuvantes, se apresentam inicialmente a partir de marcas superficiais de si próprios para então revelarem novas facetas de suas personalidades. Se a cena inicial, em que Jerry se encontra com o streapper Bobby, faz o público considerá-lo preconceituoso, logo em seguida essa imagem será substituída. Em outros movimentos similares, a plateia se encontrará refletindo em várias oportunidades enquanto se diverte, se emociona e anseia pelo fim.

A direção de Tadeu Aguiar, assistido por Flávia Rinaldi e por Claire Nativel, apresenta belíssimo trabalho. As cenas estão bem articuladas, os atores se movimentam no palco em desenhos limpos e a coreografia de Alan Rezende ocupa o espaço com graça, equilíbrio e força. Sobretudo, emana do palco o envolvimento do elenco como um todo, o que é o requisito fundamental para o sucesso dessa narrativa. Se a dramaturgia é sobre um grupo de pessoas que se une apesar das dificuldades para coletivamente resolver um problema, tudo isso também se sente a partir da encenação.

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O carismático Mouhamed Harfouch ganha a audiência facilmente em sua interpretação de Jerry, o líder do grupo. Entre vários aspectos, talvez o mais positivo seja a manutenção da dúvida a respeito dos reais sentimentos de seu personagem quanto à sua ex-esposa Pam (Samantha Caracante). Claudio Mendes, um dos melhores trabalhos do elenco, merece elogios por afastar seu personagem de uma tola nova versão de Sancho Pança. Seu Dave é íntegro, complexo e real, felizmente longe de estereótipos. Com menores oportunidades, Carlos Arruza (Harold) e Sérgio Menezes (Jegue), mas principalmente André Dias (Malcolm) e Victor Maia (Ethan) também merecem elogios pelos mesmos motivos. A dosagem da expressão do universo interior de cada personagem é a principal responsável pela atenção do público no desdobrar da história.

Os outros personagens de “Ou tudo ou nada” são as estruturas do caminho que será trilhado pelos protagonistas. Nesse sentido, o mérito da representação deles nessa montagem é outro. Kakau Gomes (Geórgia, esposa de Dave) e Patrícia França (Vicki, a esposa de Harold) e principalmente Sylvia Massari (Jeanette, a ex-vedete) e Xande Valois (Nathan, o filho de Jerry) se destacam pela forma como suas participações nas cenas são cheias de vitalidade. As palavras não são desperdiçadas, as intenções são claras e o interesse se sustenta. Samantha Caracante (Pam), Carol Futuro (Estela), Sara Marques (Susan) e Larissa Landin (Joana) também merecem elogios.

É verdade que nem todos, no elenco, cantam tão bem quanto André Dias, Victor Maia, Sérgio Menezes, Kakau Gomes e como Patrícia França, mas vale lembrar que a peça não é sobre virtuosismo, mas acerca do que é corriqueiro. Por isso, o visível esforço feito pelo elenco na defesa das canções surge, em “Ou tudo ou nada”, como mais um elemento da narrativa. Cantadas em português, destacam-se as canções “Big Ass Rock”, em que Jerry e Dave se encontram com Malcolm; “Big Black Man”, em que Jegue se apresenta ao grupo; e, em especial “You walk with me”, em que a amizade nascida entre os seis rapazes aparece mais sólida. A direção musical de Miguel Briamonte e o desenho de som de Gabriel D’Angelo e de Bruno Pinho colaboram positivamente.

O cenário de Edward Monteiro faz brilhante participação tanto no que diz respeito ao preenchimento do palco quanto ao movimento da encenação. A peça se passa nos anos 90, em uma cidade cujos moradores viveram boa parte de sua vida trabalhando com aço. Os ambientes, mas também as figuras que habitam esses lugares, surgem como provocadoras desse quadro estético. Por isso, os figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal corroboram para essas questões na vastidão dos detalhes de cada personagem. Com méritos, o desenho de luz é de David Bosboom e de Dani Sanchez.

Produzido por Eduardo Bakr e pela Brainstorming Entretenimento, “Ou tudo ou nada – O musical” é uma produção de baixo orçamento, mas de grande qualidade estética. A montagem, que enaltece o ser humano em suas diferenças, medos, prazeres e de sua força em conquistar o que lhe é necessário, também engrandece a programação de teatro carioca. Valeapeníssima!

FICHA TÉCNICA – OU TUDO OU NADA

Autores: Terrence McNally (texto) e David Yazbek (música)
Direção: Tadeu Aguiar
Direção musical: Miguel Briamonte
Versão para o português: Artur Xexéo

Elenco:
Mouhamed Harfouch (Jerry)
Claudio Mendes (Dave)
André Dias (Malcolm)
Victor Maia (Ethan)
Carlos Arruza (Harold)
Sérgio Menezes (Jegue)
Xande Valois (Nathan)
Patrícia França (Vicki)
Kacau Gomes (Geórgia)
Sylvia Massari(Jeanette)
Samantha Caracante (Pam)
Carol Futuro (Estela)
Sara Marques (Susan)
Larissa Landin (Joana)
Fabio Bianchini (Bobby/Keno)
Felipe Niemeyer (Teddy)
Gabriel Peregrino (Regis)

Músicos:
Miguel Briamonte, Daniel Sanches – piano
Josias Franco, Ricardo Hulck, Marco Moreira (Chiquinho) – sopros
Marcelo Rezende – guitarra
Leandro Vasques – baixo
Tiago Calderano – bateria

Cenário: Edward Monteiro
Figurino: Ney Madeira e Dani Vidal
Coreografia: Alan Rezende
Desenho de luz: David Bosboom e Dani Sanchez
Desenho de som: Gabriel D’Angelo e Bruno Pinho
Multimídia: Paulo Severo
Assistente de direção: Flávia Rinaldi
2a. Assistente de direção: Claire Nativel
Assistente de produção: Leandro Giglio
Assistente de direção musical: Daniel Sanches
Orquestração: Harold Wheeler
Arranjos Vocais e incidentais: Ted Sperling
Arranjos para músicas de dança: Zane Mark
Preparador vocal: Mirna Rubim
Design gráfico: Claudia Xavier
Coordenação de produção: Norma Thiré
Produtor Associado: Brainstorming Entretenimento
Produção geral: Eduardo Bakr
Realização: Estamos Aqui Produções Artísticas

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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