Teatro & Pensata

Crítica teatral – Rodrigo Monteiro analisa “Dorotéia”: “Rosamaria Murtinho completa 60 anos de carreira no melhor espetáculo da temporada”

Para o nosso crítico da ribata, há uma "inspiração maneirista" na direção de Jorge Farjalla e Rosamaria entrega uma "magnífica interpretação"

Publicado em 24/03/2016 | Por Lucas Rezende

Por Rodrigo Monteiro*

No Rio de Janeiro, a melhor programação teatral de 2016 começa com “Dorotéia”, espetáculo dirigido por Jorge Farjalla a partir de texto de Nelson Rodrigues com Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller no elenco. A ótima montagem melhora vários problemas dessa obra do nosso grande dramaturgo, oferecendo uma versão maneirista que, embora não resolva de todo seus problemas de ritmo, faz pontual contribuição. Assim como as protagonistas, as atrizes Anna Machado, Dida Camero, Jacqueline Farias e Alexia Deschamps também apresentam excelentes interpretações na produção em que cenário, luz, figurino e direção musical concorrem positivamente com os destaques. Em cartaz até 3 de abril no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, eis aqui uma agenda obrigatória nesse início de outono carioca.

Alexia Deschamps, Rosamaria Murtinho, Jaqueline Faria e Letícia Spiller (Foto: Carol Beiriz)

Alexia Deschamps, Rosamaria Murtinho, Jaqueline Faria e Letícia Spiller (Foto: Carol Beiriz)

Escrita em 1949 por Nelson Rodrigues (1912-1980), a peça é, para o crítico Sábato Magaldi, a última do grupo dos textos míticos em que também estão “Álbum de família”, “Anjo negro” e “Senhora dos afogados”. A história começa quando a personagem Doroteia (Letícia Spiller), cujo filho recentemente faleceu, aparece na casa de Dona Flávia (Rosamaria Murtinho), Maura (Alexia Deschamps) e de Carmelita (Jacqueline Farias). Ela diz ser prima delas e estar decidida a mudar de vida. Ocorre que as mulheres da família são marcadas por dois sinais hereditários: seus olhos não enxergam os homens e todas, desde a bisavó, sentiram náuseas após a primeira relação sexual em suas noites de núpcias.

De maneira catalisadora, duas forças paralelas estruturam a narrativa. A primeira delas é a dúvida sobre a real ascendência da Doroteia que chega – valendo lembrar que, na família, há outra de mesmo nome. A segunda força diz respeito ao destino de Das Dores, filha de Dona Flávia, cuja noite de núpcias acontece ao longo do espetáculo. A expectativa de que a noiva sinta as náuseas como suas parentas determina a força argumentativa de sua mãe, que é líder da casa.

Sob vários aspectos, esse quadro rodrigueano é uma resposta crítica à complexa cultura brasileira, essa cuja transformação dos anos de 1950 para cá talvez tenha sido menor do que se pensa. O catolicismo retrógrado (que hoje é um evangelismo emburrecedor) e um tropicalismo americanizado eram duas faces de uma só moeda que, ainda que opostas, estavam unidas. No texto, o empenho de Flávia, Maura e de Carmelita em se afastar do prazer se vê pela sagração da feiura, pela valorização da vigilância contínua e pelo isolamento social. Em exata contrapartida, esses três posicionamentos conduzem para a exaltação dos próprios egos em um comportamento definitivamente nada santo.

Rosamaria Murtinho (Foto: Carol Beiriz)

Rosamaria Murtinho (Foto: Carol Beiriz)

A direção de Jorge Farjalla, assistido por Diogo Pasquim e por Raphaela Tafuri, rejuvenesce o aspecto mítico já considerado relevante no texto desde sua estreia em 1950. No modo como essa encenação acontece, no formato de arena, as palavras de Nelson Rodrigues e as vozes das atrizes ecoam. Dessa maneira, a terra onde essas figuras habitam é meio do caminho entre céu e inferno, e o homem lugar de conflito entre sua salvação e sua perdição. Em resumo, esse é o contexto cultural em que o renascimento deu lugar ao barroco na Europa entre séculos XVI e XVII. É visível a inspiração do diretor nessas estéticas e bastante eficaz seu resultado.

O palco emerge no centro da visão do público. Na disposição de palco adotada, a plateia vê a si mesma na borda, chegando à cena após passar por uma zona de indefinição. No belíssimo cenário de José Dias, grandes árvores estão postas nesses lugares e, de dentro delas, saem os músicos que, não sendo público, também não são atores. Essa imagem sustenta a tese de que Flávia, Maura e Carmelita estão abrigadas das tentações mundanas, embora distantes do céu. Nesse ambiente, o lirismo de Nelson Rodrigues nesse texto ecoa através de microfones que espalham as vozes das atrizes, os sons dos instrumentos musicais e outros registros sonoros participantes.

Farjalla, porém, não consegue dar conta dos problemas de ritmo do texto original. Redundantes, os diálogos são longos demais. A conversa final entre Doroteia e Flávia parece interminável, o que impede a chegada mais fluente do aplauso. É uma pena.

Os trabalhos de interpretação são ótimos no conjunto e em cada parte. Chave para a interpretação de “Dorotéia”, Das Dores é a única personagem que não sente culpa após a relação sexual. No texto de Nelson Rodrigues, ela não nasceu, isto é, saiu morta do ventre de Dona Flávia e cresceu sem consciência de seu próprio falecimento. A atriz Anna Machado, ao interpretá-la nessa montagem, exibe feminilidade em um misto de menina e de mulher que expõe o quadro rodrigueano de modo excelente. A forte presença cênica da vigorosa Dida Camero rejuvenesce a narrativa em suas rápidas, mas excelentes participações como Dona Assunta, sogra de Das Dores. Jacqueline Farias (Carmelita) e Alexia Deschamps (Maura) aprofundam o lugar discursivo protagonizado pela antagonista Dona Flávia com exuberância.

Cena de "Dorotéia" (Foto: Carol Beiriz)

Cena de “Dorotéia” (Foto: Carol Beiriz)

Letícia Spiller, no papel título, apresenta aqui talvez sua melhor interpretação no teatro sobretudo considerados os desafios. Há, no entanto, a perda de parte do protagonismo nessa re-hierarquização dos signos que estruturam a narrativa. Potencializados de modo diverso, nessa nova versão, as forças secundárias concorrem com a primeira mais fortemente, o que traz elogios à montagem, mas também aumenta as dificuldades de quem interpreta Doroteia (e seus méritos). Prova desse mérito da intérprete é a qualidade das cenas entre Spiller e Rosamaria Murtinho, que interpreta Dona Flávia. Comemorando sessenta anos de carreira, essa última brilha em cena em todos os aspectos. Sua voz é alta e clara, sua movimentação é segura, o balanço das intenções é vivo, o jogo que se estabelece com todas as personagens é interessante. Base sobre a qual toda a narrativa da personagem Doroteia se apoia, a de Murtinho tem aqui magnífica interpretação.

Os figurinos de Lulu Real (com maquiagem e visagismo de Anderson Calixto), a direção de arte e cenografia de cenário de José Dias e o desenho de luz do diretor, do cenógrafo e de Patrícia Ferraz compõem o quadro estético com possibilidades significativas riquíssimas. A referência mística alarga a qualidade da obra com ainda nobre contribuição da potente direção musical de João Paulo Mendonça com trilha original dele, de Leila Pinheiro e de Fernando Gajo. Essenciais, o conjunto de Homens Jarros é composto pelos músicos Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil.

É possível que essa seja a melhor encenação de “Dorotéia” dentre as poucas versões oficiais do texto. Imperdível.

Ficha Técnica

Texto: Dorotéia
Autor: Nelson Rodrigues
Diretor: Jorge Farjalla
Assistente direção: Diogo Pasquim
Elenco: Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Deschamps, Dida Camero, Anna Machado e Jaqueline Farias
Homens jarro (músicos): Fernando Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil
Cenografia: Zé Dias
Figurino: Lulu Areal
Direção Musical: JP Mendonça
Direção de produção: Bruna Petit
Produção executiva: Sandra Valverde
Produção operacional: Lu Klein

*Rodrigo Monteiro é nosso crítico teatral e dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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