Coronavírus: o rito de passagem do mundo da moda ao saciar a fome de pessoas em situação de risco nas ruas do Rio


O relato de um dos stylists mais respeitados do Rio em prol das pessoas que vivem sem um teto em época de Covid-19. Anderson Vescah viu sua vida mudar totalmente durante este período de isolamento e passou a contar com um grupo de amigos ao lançar o projeto ‘Estilo Solidário’. Ele e o marido, o make up artist Bruno Alsiv sem às ruas levando comida e palavra de afeto às pessoas

*Por Anderson Vescah

Trabalho há 20 anos com moda, vesti muitas celebridades, vi e assinei muitos desfiles, fui a muitas festas exclusivas e acessei lugares e pessoas que nem imaginava quando saí do subúrbio carioca aos 19 anos para cair no mundo. Criei e produzi imagem para inúmeras revistas e marcas de renome, conheci muitos lugares ao redor do mundo graças ao meu trabalho e inclusive com ele ganhei um prêmio. Porém há dois anos venho sentindo uma inquietação interna aliada a uma sensação de fim de ciclo, que culminou com a chegada da pandemia do coronavírus.

Há algum tempo tenho buscado me aproximar da minha essência e acredito que a única forma de fazer isso é olhar pra dentro de si, acessando a espiritualidade. Essa busca começou com idas a centros espíritas, prática de budismo, giras de candomblé, cerimônias com uso da Ayhuasca, além de muita reza forte no meu altar pessoal onde convivem em harmonia meu Pai Oxalá, Ganesha, Exú, Kuan Yin, São Miguel Arcanjo e qualquer entidade-santidade-divindade, que possa somar no positivo. Porém o grande “chamado” que tive foi há dois anos quando fiz um curso de auto-conhecimento na “Arte de Viver”, instituição criada pelo guru indiano Ravi Shankar que proporciona e incentiva a esse mergulho interior. Ali entendi que eu não sabia respirar! Sem respirar da forma certa se torna uma tarefa árdua atingir o estado meditativo, por consequência dificultando chegar ao cerne das questões a serem confrontadas, com objetivo de se tornar uma pessoa melhor.

Com esse despertar me vieram várias questões e inquietações, que em tempos de desacelerar e re-pensar, comecei a entender como uma necessidade de mudança interior que eu possa levar para o mundo externo pós-pandemia. Tenho focado em idéias colaborativas e de deixar para trás esse modo exclusivista e acessível a poucos, característicos do que será em breve um velho mundo demodé.

Hoje posso afirmar que incentivar o consumo desenfreado e pouco consciente através da minha profissão, não me deixa mais em paz com meu interior. Sobre meu isolamento social, ruiu emocionalmente na primeira semana quando fui ao mercado logo cedo para “fugir do movimento” e um morador de rua me pediu para comprar algo para comer, pois, segundo, estava já há alguns dias sem se alimentar. Sucumbi instantaneamente, pois enquanto estamos pensando quando poderemos sair das nossas casas, ir ao shopping, à praia ou fazer nossas viagens, existe uma multidão de pessoas passando necessidade do “lado de fora” sem a mínima possibilidade de defesa e proteção.

O alimento, a solidariedade para seres humanos e situação de risco nas ruas do Rio

Nesse dia. eu decidi comprar vários itens no mercado e fazer kits de lanche com sanduíche, frutas, chocolate e suco. Saí para entregar na companhia do meu marido, Bruno Alsiv, que me ajudou a montar os lanches e a desenhar as ilustrações que colocamos carinhosamente em cada pacote com palavras de afago.

Nesse primeiro domingo foram 35 kits de lanche e muita conversa, pois queria tentar entender minimamente como estava a situação dessas pessoas em plena quarentena. Todos sempre afetuosos, receptivos e falantes, contavam suas histórias e demandas, que eu obviamente escutei com muita atenção.

O stylist Anderson Vescah e o make up hair Bruno Alsiv escrevem mensagens de afeto e carinho em cada marmita

Muitos disseram que, aos domingos, com poucas pessoas nas ruas e restaurantes fechados, eles não têm para quem ou onde pedir e que possivelmente aquele seria um dia que não iriam se alimentar, um verdadeiro choque de realidade devastador. Voltei pra casa em estado de comoção e postei alguns vídeos. Foi quando amigos e pessoas que inclusive nem tinha tanto contato, começaram um movimento de solidariedade resultando em uma onda de amor. Nesse momento, eu entendi a importância do movimento de coletividade e a possibilidade de ser um elo ativo para esse “novo mundo”. Com as doações recebidas até o momento que somam o total de R$ 4.580 reais já foram entregues 240 quentinhas em quatro domingos e ainda tenho garantido para mais dois de distribuição, com 80 quentinhas em cada dia. Também passei a entregar kits com roupas limpas e produtos de higiene pessoal desde o último domingo, graças a disposição dos amigos que vêm somando e se unindo ao projeto. Sobre o estilo solidário que decidi adotar, espero que outras pessoas também possam aderir a essa tendência.

Porém, como toda ação gera reações, também recebi críticas que me fizeram desanimar e quase desistir. Foi quando lembrei que que me foi ensinado a não ser a bola da opinião dos outros. Tem quem pense que fazer caridade significa aplacar culpa, confundindo assistencialismo com políticas públicas e não entenderam que pessoas em situação de rua não têm tempo para esperar por justiça social, ainda mais com o atual governo que nitidamente não pretende investir em atos que possibilitem a ascensão de classes, gerando assim mais desigualdade.

Nesses dias, eu pude vivenciar e ver cruamente que “quem tem fome, tem pressa”, olhando nos olhos de pessoas reais para as quais a vida e nem o coronavírus conseguiu conter. Eu já entendi esse período como um divisor e que tudo que estamos passando. Acredito que tenha um significado espiritual e uma tentativa de melhorar o mundo desumanizado que construímos ao longo dos fatos. Eu estou usando esse tempo de isolamento para repensar e tentar aprender em como fazer da nossa casa um lugar melhor e mais colaborativo.

Sobre o projeto “Estilo Solidário” pretendo continuar mesmo após a quarentena e enquanto houverem doações, então quem puder colaborar pode me procurar por direct no instagram (@estilosolidário) ou pelo meu número pessoal que está disponível para todos (21) 98106.3121

Façamos a diferença mesmo que através de pequenas ações.

É hora de rever nossas prioridades, atitudes e universos particulares, pois impactam do lado de fora das nossas janelas privilegiadas. Logo tudo vai passar e podemos reescrever essa história de uma forma mais justa.

Se cuidem, mantenham a mente em paz

e Jai Guru Dev!