Música & Badalo

“Por enquanto, de filhos, só os projetos mesmo, mas temos esse desejo”, diz Lan Lahn

Em conversa exclusiva ao site HT, a percussionista fala do seu novo trabalho com EP, videoclipe e show inédito, ao lado da congolesa Sagrace Menga, de representatividade e da baby face mantida aos 51 anos: “Deve ter a ver com a minha natureza, e a do meu orixá, Logunedé, um santo menino. É um orixá criança, que o velho respeita. A coisa de aliar a sabedoria da idade e uma vida saudável”

Publicado em 11/01/2020 | Por Heloisa Tolipan

*Por Brunna Condini

No próximo dia 16, às 21h, no clube Manouche, no Jardim Botânico, o palco será invadido pelo axé e a ancestralidade: “A voz da África vai reverberar nos tambores da Bahia”. E quem garante isso é a percussionista Lan Lanh, que ao lado da cantora congolesa Sagrace Menga estreia “Muziki na Biso” (Nossa Música), um show inédito que consolida a parceria das duas artistas. “Foi imediato nosso entendimento musical, sou diretamente uma filha da África. Desde que conheci Sagrace não consegui mais ficar longe. Ela é incrível, me encantei com a sua voz”, destaca, a baiana, que faz na ocasião, o primeiro show do ano “Ela é uma mulher do continente negro, e eu, uma mulher do estado negro. Cada uma sofreu preconceito à sua forma e buscou resistência na arte”.

A congolesa Sagrace Menga e Lan Lahn lançam “Muziki na Biso” (Nossa Música) (Foto: DuHarte)

Pense no palco vazio. Agora pense em Lan Lanh surgindo, na figura de uma ogan feminina, abrindo o show pedindo licença com o afro samba “Canto de Xangô” (Baden Powell e Vinícius de Moraes) e, depois, emendando já com “Coisa Nº 4“, do maestro Moacir Santos, em tom afro jazz. De arrepiar? Esse é o clima da apresentação, que antecede o lançamento do compacto homônimo, composto pelas canções “Essa Tristeza” e “Alegria Vem”, criações da dupla que também terão videoclipes.

“Ela é uma mulher do continente negro, e eu, uma mulher do estado negro” (Foto: DuHarte)

Em bate papo exclusivo ao site, Lan Lanh fala do encontro artístico, fruto de uma oportunidade do acaso. Ou não. “Me convidaram para um evento em prol dos refugiados há dois anos no Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). E perguntaram se eu abraçava a causa, porque queriam me apresentar uma cantora que tinha chegado do Congo. Claro que já abraçava a causa e felizmente a conheci ali”, lembra. “Sagrace foi me assistir depois e fizemos um show de voz e percussão. Já fizemos duas apresentações juntas, inclusive no ‘A Arte É Mulher’, evento idealizado por mim em 2019 no CCBB do Rio. E agora, preparamos este trabalho inédito. “Sagrace”, significa consagrar, dedicar a Deus, às divindades. E é às deusas que dedico a nossa música, uma maneira de voltar às origens e ultrapassar todas as fronteiras, passando por cima de qualquer muro”. E completa: “A Bahia me deu a ancestralidade, mas agora estou bebendo na fonte original. Isso é o pilar da minha música, o que faço há mais de 30 anos”.

“Sagrace”, significa consagrar, dedicar às divindades. Então, é às deusas que dedico a nossa música” (Foto: DuHarte)

São exatamente 32 anos de carreira em 51 anos de vida. Fato que sempre causa espanto e que faz a artista, com cara e energia de menina, achar graça. “Deve ter a ver com a minha natureza, e a do meu orixá, Logunedé, um santo menino. É um orixá criança, que o velho respeita. A coisa de aliar a sabedoria da idade e uma vida saudável”, detalha. “E eu ser um atleta da música, já que a minha profissão exige muito”.

“Sou solar. Músico não tem muito fuso horário, faz o que pode, vou tentando equilibrar” (Foto: DuHarte)

E revela que foi, de fato, atleta no passado. “ Jogava vôlei na seleção baiana até 16 anos. Depois fui deixando de lado por conta da música, para não machucar os dedos. Também joguei futebol”, conta. “Sou solar. Músico não tem muito fuso horário, faz o que pode, vou tentando equilibrar. Mas gosto mesmo é da praia, do dia”.

Ao lado de Nanda Costa, em viagem de fim de ano: “O amor tem que ser respeitado, é algo natural” (Reprodução Instagram)

Foi assim, que Lan Lanh e a atriz Nanda Costa, passaram a virada do ano. Na folga da agenda do casal, a instrumentista organizou uma viagem ao Litoral Nordeste. “Estive em Natal no Festival de Bossa e Jazz e ela não pode ir, estava gravando. Quis levá-la no Réveillon, teve uma brechinha. Até porque, geralmente passo as viradas fazendo show”.

Para Lan Lanh, 2019 foi um grande ano. Ela lembra do casamento com Nanda, “Fizemos só um documento para oficializar o que já vivemos” (desde 2014); e da intensa produção. “Nunca tiro férias. Comecei a tocar com 17 anos e nunca parei. Estou sempre trabalhando e criando”, diz. “Teve o projeto “A Arte é Mulher”, de voz e empoderamento de artista e equipes femininas, que repetiremos este ano, o lançamento do terceiro álbum solo, vários encontros musicais”.

Além disso, a baiana falou da vontade de ter filhos com a atriz. “Por enquanto, de filhos, só os projetos mesmo, mas temos esse desejo. Vamos criando de acordo com o momento. Mas a vontade existe, então pode ser”, revela. E aproveita para compartilhar o retorno e carinho dos fãs, desde que tornaram o romance público: “Eu e Nanda ouvimos muito a palavra representatividade. Tem muita gente que sofre violência ainda e vemos os relatos. Além disso, a revista que trouxe nós duas na capa, foi um marco, né? Quando estampou nosso amor, abriu as portas para que as pessoas se inspirassem. Até hoje vem falar conosco. O amor tem que ser respeitado, é algo natural”,

Lan Lahn termina nossa entrevista, dando seu recado: “Que a paz seja a nossa melhor companheira em 2020. Se você está em paz, faz tudo. Tem saúde e alegria. É um estado de graça mesmo. E quem está falando isso, é uma jovem senhora de 51 anos, então, acreditem”.

 

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