Música & Badalo

“Para um artista negro, gay e que nasceu na Bahia, como eu, existir já é um ato político”, diz Bruno Capinan

Prestes a lançar o seu quarto disco de estúdio, batizado “Real”, o baiano radicado no Canadá falou sobre suas principais inspirações artísticas, momento político e a potência da música brasileira

Publicado em 23/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Iron Ferreira

A música é para Bruno Capinan a sua melhor forma de expressão pessoal, onde ele encontra inspiração para traduzir seus sentimentos em arte. Aos 34 anos, e com 15 de carreira, o músico busca transformar suas dores e alegrias em canções. Em 2010, ele estreou o seu primeiro trabalho de estúdio, intitulado “Gozo”. Nove anos depois, e com mais dois discos lançados, Bruno ainda acredita no poder do artista e no impacto que as obras podem causar no público. Diante de um momento político difícil, como ele mesmo avaliou, a cultura é a única forma de alívio. “Para um artista negro, gay e que nasceu na Bahia, como eu, existir já é um ato político. Ter a oportunidade de fazer música e, através dela, conscientizar as pessoas é muito gratificante. Respeito quem gosta de lacrar, mas essa não é a minha intenção. Quanto mais diversidade de gênero e raça, melhor. O mundo está mudando muito rápido e o artista precisa estar atento a essas transformações. Em momentos em que a cultura sofre ameaça, é importante que ocupemos cada vez mais espaços”.

Prestes a lançar o seu mais novo disco, Bruno Capinan conversou com o HT sobre o novo projeto (Foto: Divulgação)

Nascido na Bahia, Bruno vive no Canadá há 17 anos. A mistura de nacionalidades e as diferenças sociais entre os dois países sempre o instigou. Com o passar dos anos, ele entendeu que o tempero brasileiro jamais deixaria de correr pelo seu sangue. A forte relação com as duas culturas acabou ecoando através de sua criatividade: “A liberdade na hora de compor e gravar reflete muito essa mistura entre os dois países. Quando estou no estúdio, me sinto livre para trazer qualquer tipo de referência para a minha arte. Eu vivo o momento. Isso se assemelha a minha relação com as duas culturas. Quando estou no Brasil, eu procuro aproveitar o máximo. As relações brasileiras são mais calorosas. São mundos muito diferentes, mas que se encontram na minha arte. Acho a diversidade importante. Não vejo motivo para construir barreiras entre os que são diferentes de nós”, afirmou.

Em julho, mais precisamente no dia 19, Capinan irá presentear os fãs com o seu próximo álbum, batizado “Real”. Em parceria com o produtor canadense Mark Lawson, que já trabalhou com a banda Arcade Fire, ele realizou o trabalho mais confiante e diversificado de sua discografia. “Acho que amadureci muito fazendo um paralelo dos outros discos para esse. As canções foram criadas durante as minhas viagens ao redor do planeta. Têm músicas escritas no Canadá, no Brasil, no Japão, Estados Unidos e até na Índia. Ele foi feito pensando no agora, nesse momento que estamos vivendo no Brasil e no mundo. Das minhas urgências pessoais também”, comentou.

A faixa “Tão Perto” foi escolhida para iniciar os trabalhos de divulgação. Com um clipe gravado em Nova York, a canção traz a vibe que o CD irá propor. Assista!

O artista revelou ainda que a essência presente no disco é claramente inspirada pela música brasileira e suas grandes vozes, embora o projeto tenha sido concebido no Canadá. Ele também comentou a respeito do caráter descontraído e solidário da obra: “Esse projeto é mais pop. Eu mergulhei profundo na sonoridade. Tivemos mais tempo de estúdio para produzi-lo, sem nenhum tipo de pressão ou pressa. Eu não me preocupei com absolutamente nada. Ele traz referências de fortes estilos brasileiros, como a Tropicália e a nova MPB. Foi feito para as pessoas cantarem. Embora seja sobre mim, eu fiz pensando no próximo”.

Segundo o artista, a diferença cultural entre Brasil e Canadá o inspira a compor (Foto: Divulgação)

Falando em grandes vozes, nós do Site Heloisa Tolipan perguntamos quais os maiores exemplos musicais para Bruno. Sem pensar duas vezes, ele elegeu João Gilberto e a islandesa Björk como seus grandes ídolos. Provando que está atento ao que há de mais novo no universo fonográfico, o artista manifestou o desejo de parceria com Baco Exu do Blues. “Me inspiro muito em artistas como João Gilberto e Björk. São incríveis. Para uma colaboração, eu gostaria de trabalhar ao lado do Baco Exu do Blues. Gosto muito do tipo de som que ele vem fazendo”.

Além de estar atualizado em relação aos novos nomes, Capinan também vem dando crédito aos ritmos que prometem divulgar, cada vez mais, a identidade brasileira no exterior. Recentemente, a estrela do pop mundial Madonna gravou um funk com Anitta para o seu mais recente álbum de estúdio, o “Madame X”. Isso prova que o estilo vem ultrapassando barreiras e, principalmente, fronteiras. “O Brasil sempre foi conhecido no mundo pela sua música. Se você for às lojas do Japão, por exemplo, irá encontrar uma seção dedicada aos artistas brasileiros. Talvez até com maior variedade do que no Brasil. Acho que o funk está alcançando um espaço muito importante. Assim como o samba, ele veio dos terreiros e das comunidades. Exportar esses tipos de estilos e artistas é importante para a nossa identidade”, comentou Bruno Capinan.

Bruno defendeu o funk e declarou que o estilo pode abrir portas para outros artistas nacionais (Foto: Divulgação)

O trabalho autoral é marca registrada do cantor, que faz questão de gravar composições que estejam totalmente ligadas aos acontecimentos de sua vida. Segundo ele, os relacionamentos pessoais em tempos de redes sociais são bons temas. Em sua arte, ele busca retratar a forma como isso vem se propagando e de como pode culminar em um isolamento social. “Acho que os encontros e desencontros da vida são ótimas formas de me inspirar na hora de compor. Os momentos casuais rápidos e instantâneos, proporcionados por aplicativos de relacionamento, me incentivaram a olhar por esse prisma. Passei a perceber o quanto perdemos com esses tipos de relação. Isso fez com que eu me fechasse um pouco, sentimentalmente falando. É um prazer imediato, mas que nos deixa perdidos. Busco retratar esses sentimentos no meu trabalho”, afirmou.

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