Música & Badalo

O adeus a José Ruy Dutra, um dos fundadores da Banda de Ipanema

Até o fim da vida, ele manteve a verve libertária de quem havia vivenciado dois longos períodos de ditadura

Publicado em 02/04/2019 | Por Heloisa Tolipan

Um dos fundadores da Banda de Ipanema, José Ruy Dutra morreu na manhã de segunda-feira, aos 85 anos. A história de J. Ruy, como também costumava ser chamado, se mistura com a da própria banda, criada em 1964, mas que fez seu primeiro desfile apenas no ano seguinte, no sábado de carnaval de 1965. Sua primeira concentração foi no bar Jangadeiros, frequentado por José Ruy e sua turma, que, por serem componentes de honra, desfilavam de terno branco e chapéu. Lordes do nosso carnaval.

A Banda enfrentou os anos turbulentos da ditadura militar. E, como sempre, valeu-se do humor e do deboche para manifestar-se politicamente. Com sua irreverência característica, o bloco soube criticar as incontáveis intervenções dos governos militares na cultura com graça e leveza. A crítica e o protesto também foram as tônicas usadas por José Ruy em seus comentários sobre a situação do país. Até o fim: em sua página no Facebook, ele costumava publicar frases libertárias como seu próprio espírito. No último post do tipo rebelde, de 30 de março, decretou: “Chega de ditadura. Já passei 35 anos com elas. Quinze com Getúlio Vargas e 20 com a Redentora. As duas mataram muita gente”.

José Ruy cursou a Faculdade de Propaganda e Marketing e a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (criada em 17 de abril de 1939, foi a primeira escola de educação física de nível superior do país). Entre os vários colégios que frequentou, estão o Colégio Ateneu São Luís, no Catete; o Imaculada Conceição; o Santa Rosa de Lima; e o Franco-Brasileiro.

Foi neste último que estabeleceu a forte amizade com Nelson Tolipan (1936-2018), meu pai, radialista considerado a maior autoridade em jazz do Brasil. Ainda adolescentes, na faixa dos 16, 17 anos, os jovens amigos perceberam que a música os uniria pela vida toda. Nelson se apaixonou pelo jazz quando ganhou uma bolsa para estudar no Allegheny, em Meadville, na Pensilvânia, Estados Unidos, em 1958. José Ruy aprofundou seu gosto pela MPB e pelo samba. Os amigos, porém, jamais deixaram de trocar ideias até a morte de Nelson, em janeiro do ano passado, aos 81 anos.

Em 2009, José Ruy Dutra deu seu depoimento em “Fumando Espero”, documentário que acompanha a tentativa de sua filha, a diretora e produtora Adriana Dutra, de tentar abandonar o cigarro. O documentário rodou o mundo. No ano passado, a cineasta dedicou o docQuero Botar Meu Bloco na Rua”, que conta a história dos blocos de rua e seu papel libertador no Rio, ao pai. E mais: no belíssimo filme “Quanto tempo o tempo tem“, direção de Adriana Dutra e Walter Carvalho, a gente vê José Ruy Dutra em uma das cenas finais. Emocionante.

José Ruy foi uma das figuras mais destacadas na cena cultural carioca. Sua morte deixa um vazio na cidade, pois era homem de muitos amigos. O velório foi realizado no teatro Gláucio Gill, em Copacabana, um ambiente de cultura no qual J. Ruy sempre viveu. A Banda de Ipanema estava lá e foi tocante ouvir “Carinhoso” com todos os amigos cantando em homenagem ao lorde J. Ruy. Sua paixão pelo Flamengo foi lembrada pelas filhas, Adriana, Cláudia e Paula Dutra. E lá estava a bandeira do time. Quando a Banda de Ipanema tocou o hino, salvas de palmas. O enterro foi realizado hoje no cemitério São João Batista.

Segue na luz, meu amigo José Ruy Dutra.

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