Maria Bethânia, Tulipa Ruiz e Tim Bernardes cantam para a posteridade no show multiplataforma ‘Vozes do Amanhã’


Em um formato inédito e moderno, “Vozes do Amanhã” reuniu, no Museu do Amanhã, grandes nomes da música popular brasileira para, num encontro arrojado, fazerem suas músicas. Promovendo uma experiência singular para o público, o Vozes foi abraçado e um sucesso. Tanto que já há duas novas edições previstas para o ano que vem. Conversamos com o curador do espetáculo, Ignacio Salvati, que compartilhou um pouco da experiência de montar o projeto, e com Tulipa Ruiz, cantora que fez o show de abertura do “Vozes”. Tulipa também falou sobre a importância de haver sido indicada para o Grammy 2023: “Reconhecerem a mim como compositora é importante, já que é um espaço muito ocupado por homens”

* por Vítor Antunes

O Festival Vozes do Amanhã marcou o último fim de semana na capital carioca. Fenda no espaço tempo, o Vozes se põe a promover encontros especiais e únicos entre gerações diferentes de músicos e dali promover algo, definido com exatidão por Tulipa Ruiz, como uma “pororoca musical”. A cantora, inclusive, concedeu-nos uma entrevista exclusiva – do camarim – onde contou, não apenas sobre a sua experiência em cantar junto com o ídolo Marcos Valle, mas em fazer parte de algo desta magnitude. “Adorei estar no projeto em razão de eu já gostar muito dos encontros. Tanto que sempre os celebro com vivas. Acho que o meu com Marcos foi muito poderoso e um mashup de repertório maravilhosos.” Em 2010, Tulipa gravou um “Som Brasil” em homenagem a Marcos Valle, na TV Globo, porém, ambos não chegaram a se encontrar. A apresentação do último dia 08/10, foi, portanto, inédita.

Ignacio Salvati foi o responsável pela curadoria e direção artística do “Vozes”. O profissional revelou-nos, também com exclusividade, que a ideia do espetáculo é “partir do pressuposto que a música brasileira é atemporal. Acho que precisamos reverenciar quem veio antes. Tem gente nesse line up que nunca tocou num lugar assim. O Russo Passapusso  disse que só em ter visto a dupla Antonio Carlos & Jocafi tocar para um público tão grande valeu a pena todo o esforço. Isso para mim é a  síntese do que estamos fazendo. De reverenciar em vida os que vieram antes,  promover encontros e fazer casamentos bem pensados”. Ignacio revelou-nos que já há a intenção de ao menos duas novas edições do Vozes para o ano que vem.

Vozes do Amanhã: Evento multiplataforma que objetiva romper o lapso temporal da música (Foto: Divulgação/Vozes)

VOZ QUE ECOA

Inicialmente divulgado como um festival – e revelado assim – o Vozes do Amanhã pretende ir para além das celebrações do encontro. “Não somos exatamente um festival. Temos a ideia de nos desenvolver para além do físico de shows-apresentação. Afinal, somos jovens e de uma geração fortemente influenciada pela Internet”, diz Ignacio Salvati. A proposta é ir também para outras plataformas e possibilidades no lidar com a música. Porém, o ponto de partida dos criadores segue a mesma “promover encontros e trânsito de gerações e respeito por todos envolvidos com música”. Daí, a razão de haver encontros com gerações diferentes de artistas do segmento. “Mas procuramos por pessoas que tenham algum tipo de ligação. Tulipa Ruiz, por exemplo, cantou no Som Brasil, da TV Globo, músicas do Marcos Valle. Maria Bethania gravou um bolero de Tim Bernardes.  A ideia é comunicar com um público plural e a curadoria desse espetáculo possibilitou isso”. O “Vozes” é um projeto idealizado e realizado pela Syntese, Coala Music e Fábrica.

O fim de semana que marcou o início do Vozes deu-se com o show “Alto da Maravilha”, performado com Russo Passapusso e a dupla Antonio Carlos & Jocafi. Na sequência, a inédita junção do versátil Criolo com Leci Brandão, e o cantor Silva. Já a segunda data, 08/10, abriu as portas com Marcos Valle e Tulipa Ruiz. Além da apresentação de Maria Bethânia com Tim Bernardes.

Maria Bethânia e Tim Bernardes no “Vozes”. Show de encerramento da programação emocionou fãs (Foto: Divulgação)

HABILIDADES EXTRAORDINÁRIAS 

O show de abertura do Vozes na noite de domingo foi o da parceria entre Tulipa Ruiz e Marcos Valle. Tulipa exaltou a parceria com o ícone da MPB: “Eu sou muito fã. A música de Marcos é arejada, atemporal e diolaga com todas as cenas em todo tempo”. A cantora celebra também mais uma indicação ao Grammy. Na pimeira, saiu vitoriosa com o álbum “Dancê”, agora foi nominée por “Habilidades Extraordinárias“, na categoria rock. “O nome do álbum se dá, justamente por conta de eu ter vencido o primeiro, em 2015. Eu sera barrada para tirar o visto americano quando me perguntaram se eu tinha alguma habilidade extraordinária. Eu não soube exatamente o que dizer e meu irmão falou do Grammy. Realmente, vencer este prêmio bem como o Nobel, conta como uma habilidade extraordinária [para a imigração americana]”

Eu só sou cantora em razão de compor. Reconhecerem a mim como compositora é importante – já que é um espaço muito ocupado por homens. Ano passado fui nomeada – e de alguma forma fui vencedora por haver escrito “Baby 95” com Mahmundi e Tássia Reis para a Liniker. Decidimos ir todas nós, compositoras. Essa nomeação tem valor, pois como composiora, a canção é a minha maior arma – Tulipa Ruiz

Tulipa Ruiz e Marcos Vale (Foto: Divulgação/Vozes)