Jamelão Netto e a importância de alinhavar junto à Mangueira homenagem ao legado de baluartes, como o avô, Jamelão


Netto, que também é músico, cresceu tendo os sambas canções, choros, MPB, soul music (influência da mãe, cantora de jazz) como elementos que compõem o “molho” de sua arte. Ele, que viria como um dos intérpretes do samba deste ano, acabou abdicando desse lugar para fazer parte do projeto do carnavalesco e amigo Leandro Vieira ao assumir o compromisso de representar o avô em um dos carros da escola. Netto projeta realizar um documentário, batizado “O Mestre”, e está em fase de captação. O argumento será de Paulo Lins (Cidade de Deus)

*Com Vitor Antunes

A Mangueira riscou a Marquês de Sapucaí. E três de seus baluartes foram homenageados: Delegado, o famosos mestre-sala; Cartola, grande compositor e Jamelão um dos mais afamados cantores de samba-enredo do carnaval carioca. Para Jamelão Netto, a emoção é grande em ver o legado do avô sendo enredo da escola que o projetou. Embora também seja cantor, Netto abdicou de estar no carro de som da verde-e-rosa para fazer parte da equipe criativa do carnavalesco Leandro Vieira e, não apenas isto, mas para representar o ícone mangueirense em um dos carros da escola. E ontem, a escola contemplou no enredo a representação do próprio jequitibá que Mangueira se reconhece. Trata-se de um encontro às raízes. Uma exaltação ao legado desses três homens pretos do morro “de” Mangueira.

Ter um ícone da música brasileira como familiar é algo do qual Netto muito se orgulha. Recebeu como herança do Seu José Clementino – nome de batismo de Jamelão – o cantar e o timbre encorpado dos cantores do início do século, além da influência afro-carioca oriunda dos sambas de partido alto e de enredo que havia nas reuniões musicais na casa de sua avó, Dona Didi, frequentada por grandes nomes da música popular brasileira. Em um lar genuinamente matriarcal e musical, sempre contou com a proteção do avô, que foi sua referência paterna, enquanto ia sendo preparado para dar continuidade ao legado familiar. O músico, carioca de Vila Isabel, cresceu também tendo os sambas canções, choros, MPB, soul music (influência da mãe, cantora de jazz) como elementos que compõem o “molho” de sua arte.

Nascido em Vila Isabel, cresceu embalado por muitos sambas canções, choros, MPB, soul music (influência da mãe, cantora de jazz) e é claro, pelos sambas de partido alto e de enredo (Foto: Aramis Freitas)

Local muito identificado ao seu avô, a Avenida mostra-se como um espaço desafiador para Jamelão Netto. O indisfarçável orgulho, porém, se faz presente quando o jovem nota que o nome que batiza o primeiro recuo da bateria é o mesmo que o seu. O Recuo Jamelão foi inaugurado em 2009, quase um ano após o falecimento do cantor, que sempre presava pela elegância. A fim de refletir essa característica, Netto teve um figurino desenvolvido com exclusividade pela Osklen, sob medida, contando com detalhes de alfaiataria e acabamentos internos em tons de verde que contrastam com o rosa do terno de linho e ajudam a compor a identidade cromática de Mangueira. O sapato do artista trata-se de uma releitura dos sapatos bicolores dos “sambistas das antigas”, porém com a sofisticação do couro de pirarucu, e nas cores preta e branca. Um luxo que revisita um clássico!

No campo do posicionamento social, Jamelão Netto, o multifacetado artista – pois que é cantor, ator e compositor – se coloca como um fruto de resistência. Defende suas opiniões, e pauta sua História pessoal diante do pensamento na coletividade, colocando seus posicionamentos onde enxerga que sua representatividade é legítima. E se reconhece como “Artista Preto Contemporâneo”.

Jamelão Netto herdou do avô o brilho no cantar e o timbre fenomenal (Foto: Aramis Freitas)

Netto estreou em Mangueira, no ano de 2009, como cantor de apoio de Luizito (1954-2015) no carro de som. Ainda naquele ano faz sua estreia como ator trabalhando ao lado de Amir Haddad no famoso grupo de teatro “Tá Na Rua”, onde permaneceu até 2011. Esta não foi sua única experiência na dramaturgia, pois que ficou um ano fazendo laboratórios teatrais com a atriz Camilla Amado (1938-2021), preparando-se para estrear, no cinema, o papel do Maestro Pixinguinha, a convite da diretora Denise Saraceni. O projeto seria lançado no ano de 2013, porém acabou sendo relançado, com outro elenco, no ano de 2021.

Quem o vê assim muito ativo nas artes não seria capaz de imaginar que o seu sonho inicial era de ser jogador de futebol. No entanto, uma lesão acabou frustrando sua vontade em ser atleta e permitiu uma volta às origens artísticas e musicais. Atualmente pratica, como princípio de lifestyle, o jiu-jitsu.

Ávido por mostrar a pluralidade da música brasileira, “Jamelinha” (seu apelido) elaborou e colocou na estrada três shows com formatos distintos. Um deles é o “O Baile do Jamelão”, de gênero mais eclético e festivo; “O Legado do Samba”, voltado àqueles que valorizam os sambistas de raiz; além de canções interpretadas por seu avô e de compositores da Mangueira que fizeram sucesso nas vozes de Alcione, Arlindo Cruz, Bethânia, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Luiz Melodia, Mariza Monte, Teresa Cristina, Toquinho e Zeca Pagodinho. O terceiro formato de shows chama-se “Sambas Futuristas” e trata-se de uma produção feita remotamente e gravada em São Paulo. Nesta o artista une o saber tecnológico com o saber ancestral, onde visa desconstruir o estereótipo ao qual sambistas passam, quando não conseguem enxergar neles algo além do próprio samba e do carnaval.

Jamelão Netto flertou com todas as artes possíveis e imaginárias para compor sua história de “Artista Preto Contemporâneo” (Foto: Aramis Freitas)

Pensador que transcende o seu tempo, Netto transita entre o popular e o erudito. Para 2023 estima celebrar os 100 anos de Jamelão num projeto intitulado “Mestre Jamelão 100 anos”, gerido por ele e sua equipe tanto no Rio como em São Paulo. O projeto terá, como base uma espécie de “Museu Virtual”, que irá embasar ferramentas de pesquisa e de resgate do acervo pessoal do seu avô. Diante deste material, “Jamelinha” ambiciona produzir a primeira biografia do Mestre Jamelão, onde figurará como um dos autores. Outro braço do projeto é o de realizar uma exposição itinerante pelas principais capitais do país com todos os objetos, letras, partituras e matérias de jornais que tratam sobre o baluarte mangueirense. Netto também projeta realizar um documentário, que já tem nome e chama-se “O Mestre”, e está em fase de captação. O argumento será de Paulo Lins (Cidade de Deus).

Jamelão Netto desenhou e colocou na estrada três shows com formatos distintos para agradar a todos os gostos (Foto: Aramis Freitas)

Jamelão Netto, fará show no Bar dos Descasados, no Hotel Santa Teresa no dia 23, ainda se apresentará no Terreirão do Samba dia 30 (sábado), às 19h ao lado de bambas como Didi Nogueira, Pedrinho da Flor, Amanda Amado e o grupo Terreirão de Crioulo. Além de estar certo de que retornará para o Desfile das Campeãs junto com o povo “de” Mangueira, com o caneco na mão!