Música & Badalo

“Esse espetáculo nasceu na igreja, na década de 70”, diz Flávio Bauraqui sobre a importância da música na sua vida

Ator mostra sua verve compositor e intérprete no Galpão Ladeira das Artes, no domingo, dia 6, com repertório que inclui, além de composições próprias, homenagens a Cartola, Ney Mattogrosso e Angela Ro Rô, entre outros grandes nomes e amigos. “Minha alegria vem da música popular brasileira. Fico muito irritado quando alguém diz que não está rolando nada de novo na MPB. Está sim, as pessoas é que estão com preguiça de procurar, de buscar os novos artistas”, frisa

Publicado em 03/10/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Olhando para Flavio Bauraqui é muito, muito difícil dizer que o ator, cantor e compositor tem 38 anos de carreira e 53 de idade. Pois é, ele deu os primeiros passos na carreira artística em sua Santa Maria natal, no interior do Rio Grande do Sul, aos 15 anos, cantando na banda do grupo jovem da igreja católica que frequentava. Só que, diferentemente de muitos adolescentes, o futuro ator e cantor não via os encontros, que visam a reforçar a fé católica, como apenas oportunidades para socializar e ter suas primeiras vivências românticas. Para quem associa a grife Flavio Bauraqui apenas à arte de atuar, seu primeiro show solo, “Itinerante”, em que se lança oficialmente como cantor e compositor no Galpão Ladeira das Artes, no domingo, dia 6, no bairro carioca do Cosme Velho, será uma ótima oportunidade de conhecer um outro lado desse artista múltiplo e livre que não aceita rótulos.

Gaúcho de Santa Maria, Bauraqui morou em Porto Alegre antes de vir para o Rio (Foto de Tom Rocha)

“Santa Maria era uma cidade muito religiosa. E eu sempre fui tímido. A igreja era o meu lugar de convivência. Era onde eu podia mostrar o meu talento. Por isso, quando você me pergunta quando e onde esse show começou a ser gestado eu respondo que foi em Santa Maria, quando eu tinha 15 anos. Esse espetáculo nasceu na igreja, na década de 70”, conta o artista. “Sempre tive fé, mas nunca atrelei a minha crença a uma religião. Ainda creio. Mas o nome de Deus vem sendo mal-usado. Deus é maravilhoso, é perdão, é amigo de todos, é amor… Deus não manda quebrar imagens de santos, não fomenta culpas. O deus que estão tentando nos impor não é Deus”.

Quando tinha 15 anos, o artista cantava em uma banda da igreja que frequentava em Santa Maria (Foto de Tom Rocha)

O show não se chama “Itinerante” à toa: “Saí de Santa Maria para Porto Alegre e de lá vim para o Rio de Janeiro. Cheguei no Rio às cinco e meia da tarde do dia 22 de fevereiro de 1993”, lembra Bauraqui, com precisão, acrescentando que, se depender dele, ainda vai morar em muitos outros lugares. “Moro no Recreio, como poderia morar em qualquer lugar. Com a internet não existe mais isso de morar longe ou perto, podemos trabalhar e nos comunicar de qualquer lugar do planeta”.

Segundo Bauraqui, sua estreia “de verdade” no canto foi ao lado da Soraya Ravenle, num show em homenagem a Elizeth Cardoso (1920-1990). “Também estive com a Fátima Guedes, no Rival, interpretando o Ismael Silva. Me apresentei com a Velha Guarda da Mangueira, dando canjas. Outro marco nessa minha relação com a música foi na peça ‘Obrigado, Cartola’, em 2004. E em 2014, fiz ‘Cartola, O Mundo É Um Moinho’. Recebi prêmios e elogios à minha performance. Pensando bem, tenho uma história longa e fértil como cantor. Mas o primeiro ‘show Bauraqui’ vai ser mesmo o ‘Itinerante’”, afirma.

O artista conta que só se animou a dar esse passo porque também tem habilidade como compositor: “Eu não faria um show apenas como intérprete. Não teria ímpeto para isso”. Esse talento ele descobriu há dois anos, por acaso. “Certo dia, peguei o metrô para ir ao teatro. Lá pelas tantas, entrou um rapaz vendendo fones de ouvido, daqueles bem baratos. Apesar de ser óbvio que não funcionavam direito, ele elogiava o produto como se acreditasse mesmo naquilo. Então me veio uma frase à cabeça: ‘Andróides enlatados transportados’. Assim, do nada. Depois disso, me veio a letra de uma música. Inteira, de uma vez só. Quando desci do trem, a música estava pronta”, conta.

Antes disso, porém, Bauraqui teve um incentivo que parece caído do céu: “Quando homenageei os 100 anos do Cartola no extinto Canecão, li uma carta fictícia da filha dele. Logo depois, emendei com uma canção em que já não imitava o compositor, cantava com a minha voz mesmo. No fim, alguém me puxou num canto e avisou que o Emílio Santiago (1946-2013) queria falar comigo. Conversamos e ele disse que a minha voz era bonita e que eu tinha que me apresentar num show. Considero o Emílio meu padrinho musical. Quando o universo te dá um presente como esse, você tem a obrigação de usar”. No show, que terá abertura de Babu Santana, ele também vai homenagear artistas como Cartola (1908-1980), Ney Matogrosso, Angela RoRô, Elis Regina (1945-1982), Gonzaguinha (1945-1991) e Cássia Eller (1962-2001), entre outros.

Babu Santana e os Cabeça de Água-Viva vão abrir para Flavio Bauraqui (Foto: Divulgação)

Bauraqui não apenas está usando seu dom como confessa estar muito feliz por poder se apresentar como cantor – e, principalmente, como compositor – nessa altura de sua carreira. Ele define o estilo de suas canções autorais como um misto de Cazuza (1958-1990) com Criolo. “Minhas músicas têm a ver com o meu momento. Falo do que me cerca, do que vejo. Comento a relação das pessoas com celulares e tablets, esse distanciamento que faz com que nos relacionemos sem falar uns com os outros diretamente”, observa. “Minha alegria vem da música popular brasileira. Fico muito irritado quando alguém diz que não está rolando nada de novo na MPB. Está sim, as pessoas é que estão com preguiça de procurar, de buscar os novos artistas”.

No momento, ele está totalmente concentrado no show, em que faz questão de ser chamado apenas pelo sobrenome: “Itinerante” é um show de Bauraqui, não de Flavio Bauraqui. Mas nem por isso está longe do público – muito pelo contrário. O artista está na comédia de João FonsecaNão Vamos Pagar Nada”, ao lado de Samantha Schmütz, Edmilson Filho, Fernando Caruso e de seu ídolo Criolo, ainda sem data para estrear nos cinemas. Também está no elenco do longa “A Vida Invisível”, dirigido por Karim Aïnouz e vencedor da mostra Um Certain Regard no Festival de Cannes deste ano e escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para tentar uma vaga no Oscar 2020. O filme, baseado no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, da pernambucana Martha Batalha, é o terceiro trabalho de Flávio Bauraqui com o diretor e amigo Karim Aïnouz e teve première nacional 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, no mês passado. Ele volta à telinha em fevereiro na segunda temporada da série “Arcanjo Renegado”, da Globoplay, no papel do vilão, o carismático assessor do governador, e na série “Impuros”, do canal Fox Premium.

A carreira de Bauraqui é das mais interessantes. Quando chegou no Rio, em 1993, depois de estudar teatro em Porto Alegre, o ator passou dificuldades e chegou a se empregar como porteiro para se bancar. Em 1995, fez sua estreia no teatro profissional. O reconhecimento na TV veio com a novela “Duas Caras”, exibida pela Globo em 2007. No cinema, participou de produções importantes como “Meu nome não é Johnny”, “Madame Satã”, “Quase dois irmãos” e “Faroeste caboclo”, entre outras. Ao todo, participou de mais de 30 filmes.

Bauraqui faz única apresentação do show ‘Itinerante’ no domingo, dia 6 (Foto de Tom Rocha)

SERVIÇO

“Itinerante“

Show de Bauraqui

Galpão Ladeira das Artes: Rua Conselheiro Lampreia 225, Cosme Velho

Abertura: Babu Santana e Os Cabeças de Água Viva.

Discotecagem: DJ Eppinghaus.

Domingo, 6, a partir das 17h. Os shows começam às 19h20

R$ 15 (lista amiga), R$ 20 (antecipado) e R$ 30 (na hora)

Lista amiga: www.facebook.com/events/509274623259337

Ingressos antecipados: https://www.sympla.com.br/bauraqui–itinerante—o-show__653592

 

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