Elza in Jazz: em live para celebrar seus 90 anos, Elza Soares confessa que a música é seu alimento


Em apresentação na sala de seu apartamento, no Rio de Janeiro, transmitida via internet, Elza Soares cantou sucessos da carreira. Ela ainda criticou o racismo e a violência contra a mulher, além de receber os parabéns da banda e de Chico Buarque e Caetano Veloso. “Estou emocionada em meio a essa pandemia horrível. A música não pode parar”, disse a cantora

*Por Simone Gondim

Os 90 anos de Elza Soares foram celebrados do jeito que ela mais gosta: cantando. A live Elza in jazz, transmitida diretamente do apartamento da artista, no Rio de Janeiro, presenteou o público com 1h44 de música. Não faltaram sucessos como “A carne (nova versão)” e “Maria da Vila Matilde”, enfatizando a postura combativa da estrela em relação ao racismo e à violência contra a mulher. Ao se dirigir ao público que acompanhava o show pela internet, a aniversariante era pura alegria. “É um dia especial para mim, espero que também seja para vocês. Já digo logo que estou emocionada, em meio a essa pandemia horrível. A música não pode parar. Eu me alimento de música”, afirmou.

A data escolhida para a live, 25 de julho, não coincide com o nascimento da cantora, mas é igualmente emblemática, por ser Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e da Diáspora. Nada melhor do que ter a figura de Elza Soares para lembrar a história de luta e conquistas dessas mulheres, bem como jogar luz sobre os desafios enfrentados todos os dias, por conta de séculos de opressão, discriminação e desigualdade.

Elza Soares fez a live direto da sala de sua casa, no Rio de Janeiro (Foto: Reprodução YouTube)

Chamada carinhosamente de Elzinha, a cantora, como a diva que é, passou a noite com um vestido cheio de brilho, bem maquiada e ostentando um farto black power, sentada à frente da excelente banda formada por Netão (backing vocal), Gabriel de Aquino (violão e guitarra), Jorge Helder (baixo acústico) e Cassius Theperson (bateria). Originalmente, o baterista do grupo seria Márcio Bahia, mas ele teve um problema cardíaco e precisou ser substituído de última hora. Por conta dos riscos relacionados à Covid-19, todos os músicos se apresentaram usando máscaras de proteção.

As surpresas da noite ficaram por conta da participação de Flávio Renegado e de dois vídeos em homenagem à aniversariante, gravados por Chico Buarque e Caetano Veloso. Chico, aliás, teve seu vídeo exibido duas vezes e errou a idade de Elza, dando a ela dez anos a menos. Gentil, a diva deixou passar, apesar de Flávio ter tentado chamar a atenção para o engano. Tanto Chico quanto Caetano declararam seu amor à artista. “Elza é a coluna da MPB e da vida dos brasileiros”, derreteu-se Caetano, fazendo alusão ao verso “do cóccix ao pescoço”, que está na música “Dor de cotovelo” e é nome de um dos discos da estrela.

(Imagem: Reprodução YouTube)

Para abrir a live foi exibido um vídeo narrado por Elza, cujas imagens partem da figura dela, com uma coroa de rainha, e seguem mostrando o Rio de Janeiro do alto. No texto, a artista faz uma espécie de resumo poético de sua vida, lembrando de momentos marcantes e falando da passagem dos anos. “Idade já deixei de ter faz tempo. Tenho curvas no corpo e marcas na mente, que me fizeram enlouquecer a ponto de renascer”, diz um trecho. “Quando quis, amei. Quando amei, sofri. Quando sofri, cantei. Cantei até o fim e, no fim, recomecei. Aliás, recomeçar é algo que faço bem”, confessa ela, em outra parte da narração.

A parte musical reuniu canções fortes como “Mulher do fim do mundo”, “Pranto livre”, “Menino” e uma versão de “O tempo não para”, de Cazuza, além das poéticas “Lírio rosa”, “Juízo final” e uma bela releitura de “Carinhoso”, que ganhou pegada jazzística. Ao apresentar “Maria da Vila Matilde”, Elza e Netão criticaram a violência contra a mulher, lamentaram o aumento dos casos de femincídio e reforçaram a importância de denunciar os agressores ligando para 180.

Flávio Renegado e Elza Soares cantaram “Negão negra” ao vivo, pela primeira vez (Foto: Reprodução YouTube)

Perto do fim da live, subiu ao pequeno palco Flávio Renegado, chamado de “meu afilhado” pela dona da festa. Juntos, os dois cantaram ao vivo, pela primeira vez, “Negão negra”, cujo clipe oficial será lançado esta semana. A letra é uma crítica ao racismo estrutural, tão presente em nossa sociedade. “Não basta não ser racista, é preciso ter atitudes antirracistas. O racismo é uma doença que mata pessoas, não podemos permitir mais que ele continue proliferando”, observou Flávio. “Nosso grito é a vacina contra isso”, acrescentou Elza.

Antes de se despedir, Elza cantou de novo três músicas: “A carne (nova versão)” e “Negão negra”, ambas com participação de Flávio Renegado, e “Mulher do fim do mundo”, sozinha com a banda. A live também teve um lado solidário: além de arrecadar fundos para a equipe da artista, receberam doações o programa Apolônias do Bem, da ONG Turma do Bem, presidida pelo cirurgião-dentista Fábio Bibancos e que proporciona tratamento odontológico gratuito para mulheres vítimas de violência, e o movimento All Out, que luta pelos direitos LGBTQI+. A diva, educadíssima, fez questão de agradecer a todos os envolvidos na produção, execução e transmissão da live, não apenas aos patrocinadores. “Que noite incrível. O projeto deu trabalho, mas estou orgulhosa”, comemorou.

(Foto: Reprodução YouTube)

Lista das músicas:

Mulher do fim do mundo;

Juízo final;

O tempo não para;

Espumas ao vento;

Malandro;

Meu guri;

Menino;

A carne (nova versão);

Libertação;

Dor de cotovelo;

Carinhoso;

Lírio rosa;

Pranto livre;

Volta por cima;

Maria da Vila Matilde;

Banho;

Negão negra;

Bis: A carne (nova versão), Mulher do fim do mundo e Negão negra.

Elza Soares dividiu os vocais com Netão (Foto: Reprodução YouTube)