“Eles estão querendo controlar o povo através do neoliberalismo travestido de fascismo”, dispara João Fênix


O cantor está lançando o seu novo disco Minha Boca Não Tem Nome que fala sobre as dores e delícias da sociedade atual. Em papo exclusivo para o site HT, ele soltou o verbo sobre o novo CD que comemora os 25 anos de carreira do intérprete

“Quanto mais as pessoas tentarem nos calar, mais iremos lutar, porque somos uma flor que criou raízes. Eles (os governantes) matam uma Marielle, mas surgem 500 outras iguais a ela. Uma pessoa fazendo a diferença já é sensacional. Eles estão querendo controlar o povo através deste neoliberalismo travestido de fascismo. Mas estamos acordando. Estamos vivos”. Estas palavras cheias de significados são apenas o começo de um papo repleto de discussões políticas e empoderadas de João Fênix sobre os tempos atuais. Poético e revolucionário, o artista transformou a sua voz aguda em um campo de batalha, amor e religião em seu novo disco Minha Boca Não Tem Nome, que celebra os 25 anos de carreira do artista. Totalmente atual, o quinto CD do cantor escancara a doce e amarga realidade através da ótica da polarização sem apelar para um discurso imediatista. Com momentos de pausa e introspecção, ele abriu o seu coração nestas sete faixas ao trazer suas percepções sobre o mundo moderno.

Capa do disco Minha Boca Não Tem Nome, que celebra os 25 anos de carreira do artista (Foto: Foto: Leo Aversa)

O start para este projeto foi a regravação da música Cálice, de Chico Buarque, em seu último CD. No entanto, foi na metade de 2016 que o disco ganhou a sua primeira música, Roda Morta. “Resolvi falar sobre este tema a partir de um momento ácido da nossa história, que foi o impeachment da Dilma Rousseff”, comentou. Desde então, o intérprete foi somando ainda mais inspirações e vivencias derivadas de acontecimentos internos e externos.

João Fênix começou a idealizar o disco a partir da música Roda Morta (Foto: Foto: Leo Aversa)

Engana-se quem pensa que o disco é panfletário. Na verdade, João Fênix tomou muito cuidado para contrabalancear os momentos mais políticas com canções mais leves e introspectivas. “Afinal, ninguém vive somente de lutas. É preciso de pausas e momentos de relaxamento, caso contrário desmoronamos”, comentou. A partir disso, o CD conta com pausas espirituais, ideológicas e, até mesmo, sexuais. “O CD não é só manifesto, na verdade, é bastante equilibrado quando se trata das críticas. É claro que tem os seus momentos de questionamento e problematização. No entanto, não é apenas isto. O próprio Ney Matogrosso me garantiu que é um disco de fácil audição, bem leve”, garantiu. Seu amigo pessoal e fonte de inspiração Ney Matogrosso foi uma das poucas pessoas que escutou o resultado final antes do lançamento.

João Fênix se inspirou em Iansã para fazer a capa de seu disco (Foto: Foto: Leo Aversa)

O disco é composto por sete faixas inéditas e, no total, conta com 11 músicas. Em sua grande maioria, as composições foram escritas por novos nomes da música brasileira. “Os compositores são, na sua grande maioria, contemporâneos a mim. Isto fez com que eles tivessem uma visão de mundo muito similar a minha”, comentou. No time de letristas, temos canções de Juliano e Tibério, César Lacerda, Álvaro Lancellotti, Igor Carvalho, Alberto Continentino, Fernando Temporão, Pedro Luís, Moreno Veloso, Ivor Lancellotti e Joana Duah.

João Fênix contou com o apoio de vários cantores no disco (Foto: Foto: Leo Aversa)

Junto desta galera, também temos uma canção que foi escrita pelo próprio João em parceria com Joana Duah. “Escrevi Mar Profundo logo depois que terminei um relacionamento”, comentou. A letra seria um momento de introspecção extensa e triste, já que estamos falando de um mergulho dentro de uma dor. “A canção tem um toque sentimental muito forte que envolve tristeza e as dores das perdas. Foi uma composição muito profunda para mim naquele momento”, completou. Indo contra este festival de questionamentos e tristeza, o álbum tem momentos leves a partir das músicas Desterro de Reginaldo Rossi, Se Eu Merecer de Pedro Luís e Ivan Santos, Se Pá, Sou Mais de César Lacerda e muito mais.

João Fênix tem como suas grandes inspirações Caetano Veloso e Ney Matogrosso (Foto: Foto: Leo Aversa)

Uma das canções mais marcantes neste álbum, para João, está justamente neste momento de respiro do cantor. Meu Elemento (É de Balé) de Moreno Veloso e Igor Carvalho fala sobre uma questão muito delicada e pessoal para o artista, pois conta a história de sua vida. João é umbandista. Dentro da religião, ele descobriu que é filho de Iansã e que seu talento vocal foi dado por ela. A revelação o surpreendeu já que perdeu os pais com apenas 5 anos e, quando era adolescente, pediu ao universo uma arma para poder lutar e sobreviver ao mundo. Isto acabou sendo o seu talento. “Foi um tema muito importante para mim. Queria muito poder homenagear a minha mãe, quem me deu a voz, neste plano”, contou João, emocionado. A canção foi encomendada e escrita por Moreno Veloso e Igor Carvalho. “Eles tiveram o maior carinho e cuidado do mundo. É uma canção muito sensível que acabou se tornando fio condutor deste disco ao ponto de trazer para a capa um Iansã masculino”, comentou. A saia esvoaçante de cor vermelha é uma referência, inclusive, desta ligação religiosa.

João Fênix pediu para dois amigos compositores escreverem a música em homenagem a Iansã (Foto: Foto: Leo Aversa)

Além de todo o sucesso entranhado em suas veias, João Fênix também possui vários mentores em vida. Caetano Veloso e Ney Matogrosso são dois deles. Inclusive, o cantor é constantemente comparado ao Ney por conta do seu visual andrógino e a coragem de transpor os limites de gênero. “É uma honra ser comparado a ele. É um ser humano lindo, caridoso e meu amigo pessoal. É uma escola vocal que muita gente bebeu, porque ele foi o primeiro que, na década de 70, trouxe esta questão da transposição de gênero. Foi uma onda que começou lá atrás, sem ele não estaria aqui. Muita gente de hoje surgiu a partir dele”, comentou.

Totalmente livre de preconceito, João Fênix é contra a ideologia de gênero (Foto: Foto: Leo Aversa)

E a onda iniciada por Ney, de acordo com João, foi da liberdade de gênero. Mesmo com toda a perseguição que ainda existe atualmente contra os LGTB+, João garantiu que já consegue enxergar uma evolução. “Quando eu era criança, então, era muito pior. No entanto, com a internet, nós passamos a ser mais conscientes e lutar ainda mais, mesmo com todos os problemas das redes sociais”, analisou. Apesar de acreditar em uma possível evolução, o cantor garantiu estar receoso sobre o que pode acontecer pelos próximos anos. “Estou na torcida para que o governo não tenha tempo de ficar perseguindo as minorias religiosas e sexuais, por estarem preocupados em fatiar o país. E esta é a verdade: eles estão lá pelo dinheiro. Então que fiquem lá. Sabemos que os negros da favela e os índios, a partir deste sistema, serão os primeiros a sofrer”, lamentou. João Fênix foi completamente contra o resultado da última eleição na qual Jair Bolsonaro acabou vencendo a eleição. “A pacificação está cada vez mais difícil neste cenário. Sou completamente contra por conta da postura e a forma como o presidente eleito manipulou as ideias da população. Agora, temos que deixar ele governar, como democratas que somos, até porque assim o tiramos do campo mitológico. As pessoas precisam se deparar com a realidade”, criticou.

João Fênix está comemorando 25 anos de carreira neste disco (Foto: Foto: Leo Aversa)

Poético, ácido e leve, Minha Boca Não Tem Nome é o quinto disco de João Fênix e carrega grandes parcerias ao longo de 25 anos de carreira. “Estou muito feliz com o resultado final deste disco. A banda base é maravilhosa. Consegui passar cada mensagem que gostaria para o público, homenageando quem eu queria e levantando bandeiras sem ficar chato ou pesado. Só tenho a celebrar”, comemorou.