Música & Badalo

Dura e cruel realidade! Poucas são as rádios no Brasil que abrem espaços para a chamada nova MPB

Um papo exclusivo com Fabiane Pereira, apresentadora do Faro MPB, programa da MPB FM, que tem o objetivo de divulgar pelas ondas do rádio todas as novidades da nossa música

Publicado em 28/01/2014 | Por Heloisa Tolipan

* Por Junior de Paula

Se você, assim como a gente, morre de preguiça de quem insiste naquele saudosismo musical preguiçoso, naquele discurso amargurado de que não se faz mais música brasileira como antigamente, e gosta de descobrir novas vozes, sonoridades e uma geração inteira fazendo coisas incríveis, você precisa conhecer Fabiane Pereira.

Ligada sempre no 220volts, Fabi dorme pouco, ouve muito e adora falar sobre o que mais a movimenta: MPB. Uma das apresentadoras do Faro MPB, programa da MPB FM que tem o objetivo de divulgar pelas ondas do rádio todas as novidades da nossa música, ela ainda tem tempo de comandar a Valentina Comunicação e cuidar do seu xodó, o projeto PatuÁ, que volta a ocupar o palco da Miranda a partir desta terça-feira, com o show de Luis Carlinhos nesta reestreia.

“A intenção é fomentar a nova cena musical carioca (só participam do projeto artistas cariocas) e possibilitar que o público, jornalistas e os formadores de opinião possam assistir ao show deste artista com total qualidade técnica. Vamos iniciar com Luis Carlinhos nesta terça, dia 28. Dia 25 de fevereiro, o multi instrumentista Lucas Vasconcellos (do duo Letuce) fará o show de lançamento do seu primeiro disco solo e receberá para uma canja a super Sandra de Sá. Já em março, a cantora Mariana Volker, nova aposta do produtor Liminha, é a atração”, enumera a moça. Entre uma reunião de produção e outra, um disco novo para ouvir e outro, e uma tuitada frenética e outra, conseguimos fazer com que ela parasse um pouquinho para um papo bem gostoso. Vem ler:

– Qual sua primeira lembrança musical? Quando foi que a música passou a fazer parte da sua vida de forma efetiva?

– Nasci e fui criada em Volta Redonda, cidade do interior do Rio. Minha mãe é completamente apaixonada por rádio. E lá, eu ouvia muito as rádios de notícias e as AM’s e as primeiras lembranças musicais que me vêm à mente são sempre as canções do Balão Mágico. Minha mãe adora Roberto Carlos e João Bosco. Então, desde pequena sei cantar todas as músicas dos dois. A música sempre esteve presente na minha vida, mas, profissionalmente, ela entrou no primeiro período da faculdade quando fui estagiar na Sony Music. E, no segundo período, passei a estagiar na MPB FM… Isso há 11 anos.

– Qual o top 5 de MPB que tem rolado no seu Ipod?

– Escolher só cinco músicas num universo enorme como é o da música brasileira é complicado. Eu sou daquelas que ficam viciadas numa música e a colocam no ‘repeat’ exaustivamente. Eu ouço pouca coisa em Ipod. Eu gosto mesmo é de CD, encarte, cheiro de disco. Mas nestes últimos dias tenho ouvido muito o novo disco do Marcelo Jeneci, que é um escândalo de lindo, uma obra prima. Daqueles álbuns que em 20 anos será lembrado e revisitado. O Lucas Vasconcellos também é bastante assíduo nas minhas audições. Tem uma cantora nova chamada Mariana Volker que tem um vozeirão e vai lançar um EP nas próximas semanas… Ela já me mandou algumas músicas e tô ‘in love’. Eu adoro o disco novo do Tono, ‘Aquário’; gosto muito do álbum do Cícero (os dois discos são lindos) e do Alvinho Lancellotti (O tempo faz a gente ter esses encantos)… Neste momento, é isso que tem estado no meu carro, no meu escritório e na minha casa.

– Acredita que vai ser possível um dia a MPB voltar a ser uma galinha de ouro, como nos 70 e 80, em detrimento dos sertanejos universitários, pagode universitários, gospel e outras vertentes mais popularescas que cresceram a partir dos anos 90? Onde foi que erramos?

– Eu ouço de tudo, inclusive sertanejo universitário (adoro o Luan Santanna!) e pagodes (SPC, Raça Negra, Thiaguinho…). Acho que música boa é música que toca a gente e não tenho mesmo nenhum preconceito musical. O Brasil é muito grande e é normal que tenhamos esta diversidade musical. Não acho que exista um ‘erro’ e sim adaptações. O mundo mudou dos anos 70 para cá e a música acompanhou esta mudança. Mas o Brasil continua produzindo a melhor música do mundo e isso se dá pela nossa diversidade. Tem espaço para todos os gêneros, porém alguns têm mais espaços que outros. O ideal seria dar uma equilibrada. As rádios, por exemplo, poderiam ter mais espaços para a nova geração. Poucas são as rádios no Brasil que abrem espaços para a chamada nova MPB e com pouco espaço na mídia fica difícil popularizar qualquer coisa.

– Você reconhece alguma linha que liga todos estes novos talentos que surgiram na MPB na nossa geração? Ou ele são, assim como os nossos tempos, de vertentes fragmentadas?

– Se você está se referindo a movimento musical, acho que só o tempo vai dizer. Mas a nova geração tem uma característica bastante intrínseca: todos usam as redes sociais como ferramenta de divulgação de seus trabalhos e 95% colocam a mão na massa e participam de todo processo (desde a composição, passando pela escolha do repertório, produção e comunicação) e isso a coloca como protagonista da cena.

– Como é ser a única mulher entre os homens do Faro? O universo masculino a fascina de alguma forma?

– É ótimo. Adoro meu ‘Clube do Bolinha’. Os quatro comentaristas musicais (Léo Feijó, Leonardo Lichote, Miguel Jost e Pedrinho Salomão) são muito diferentes entre si. A ideia do novo formato do programa surgiu entre mim e o Miguel. Depois chamamos o Lichote. Pedrinho e Léo Feijó vieram na sequência. Todos já eram meus amigos (com exceção do Pedrinho que acabou sendo um presente e se tornando um grande amigo e incentivador) e temos muitas afinidades musicais, então é super fácil. O universo masculino fascina qualquer mulher (eu acredito!), porque, ao contrário de nós, eles são muito objetivos, mais cartesianos. E para uma ariana prolixa como eu, é uma escola.

copiafaro2

Fabiane e seu mergulho diário no que há de mais novo na MPB

* Junior de Paula é jornalista, trabalhou com alguns dos maiores nomes do jornalismo de moda e cultura do Brasil, como Joyce Pascowitch e Erika Palomino, e foi editor da coluna de Heloisa Tolipan, no Jornal do Brasil. Apaixonado por viagens, é dono do site Viajante Aleatório, e, mais recentemente, vem se dedicando à dramaturgia teatral e à literatura.

Pesquisas relacionadas