Dia da Visibilidade Trans: Assucena Assucena, Linn da Quebrada, Raquel Virginia e Urias soltam o verbo


O Brasil comemora no dia 29 de janeiro o fortalecimento dos discursos e medidas a favor da população LGBTQIA+. Ouvimos quatro representantes da música que alcançaram o Olimpo e elas revelaram que o caminho ainda é árduo

Dia Nacional da Visibilidade Trans: 29 de janeiro (Foto: Pixabay)

*Por Rafael Moura

Hoje, no Brasil (29 de janeiro) comemoramos o Dia Nacional da Visibilidade de Transexuais e Travestis, uma data que pretende chamar atenção ao discurso e medidas em prol à população LGBTQIA+. Em 2020, o país bateu recordes com relação à luta no que diz respeito a cargos políticos. Foram 294 candidaturas de trans, sendo 30 coletivas e apenas duas para prefeitura e uma para vice-prefeitura. Os números representam um aumento de 226% em relação a 2016, quando foram 89 candidaturas. Por outro lado, os novos dados do Trans Murder Monitoring (Observatório de Assassinatos Trans, em inglês) apontam que, apenas nos primeiros nove meses de 2020, 124 transexuais foram mortas no Brasil e, com isso, o país ocupa, infelizmente, o topo do ranking dos mais violentos para esse grupo pelo 12º ano consecutivo (México e Estados Unidos vêm em seguida, com 528 e 271 assassinatos reportados, respectivamente).

No cenário musical vemos cada vez mais artistas sendo respeitadas e ganhando visibilidade no mercado. E fomos conversar com quatros dessas musas: Assucena Assucena, Linn da Quebrada, Raquel Virgínia e Urias para entender como essas divas estão caminhando para conquistar espaço na indústria fonográfica brasileira, nas plataformas digitais e no coração dos fãs.

A dupla Assucena Assucena e Raquel Virginia integram o trio As Baías ao lado de Rafael Acerbi, são cantoras trans e fiéis às causas da comunidade LGBTQIA+ que representam questionando o preconceito e clamando pelo reconhecimento de que tal comunidade não pode ser apenas manchetes de noticiários sobre mortes e violência. No recente o álbum ‘Drama Latino’ sentimos a mistura de estilos musicais latinos, desde o pop ao brega funk com as participações de Linn da Quebrada, Xand Avião, Kell Smith, Mc Rebecca, Rincon Sapiência, Cleo, Kell Smith e Luísa Sonza.

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Raquel é paulista, de Jabaquara, em São Paulo. E como uma boa libriana está sempre em busca da harmonia entre trabalho x família, vida pessoal x relacionamento, razão x emoção, o que pode ser visto nas redes sociais da cantora. “O Dia da Visibilidade Trans é momento de reflexão sobre como a sociedade brasileira trata as pessoas trans. Lançar luz sobre o respeito à dignidade humana”, refletiu.

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Já a baiana de Vitória da Conquista, Assucena vem de uma família judia de origem marroquina e acredita que a arte é um grande alimento para a alma e apesar de celebrar o espaço conquistado por artistas transexuais, como ela, na mídia, se dizem preocupada em relação aos recentes relatos de violência contra pessoas LGBT em todo o Brasil. “Faltam investimentos em políticas públicas. Nós não nascemos no corpo errado e sim com uma missão linda de vibrar liberdade e amor e de conquistar espaços para transformar esse mundo num lugar efetivamente de respeito e paz”, desabafa.

Lembrando que em 2019 o trio lançou o single ‘Das Estrelas’ – música e clipe, uma composição de Assucena, que joga uma luz nas relações amorosas das pessoas trans. “A ideia do clipe era de denunciar até onde o amor pode ir quando se é trans. Renata Carvalho arrebentou na atuação. É uma canção acerca de algo essencial que humanidade perdeu”, diz orgulhosa a cantora que se inspirou no primeiro capítulo de ‘Teoria do Romance’, de Georg Lukács. Além do terceiro álbum da banda ‘Tarântula’ que surgiu a partir da Operação Tarântula, uma caça a travestis e pessoas LGBTs em 1987, na qual cerca de 300 pessoas foram mortas na capital paulista.

Ah, vale destacar ainda que uma pesquisa conduzida pelo site Redtube mostra dados reveladores sobre como muitos brasileiros acessam pornografia. De acordo com o estudo, o Brasil é o país que mais procura por conteúdo adulto transexual na plataforma de vídeos online. O Redtube afirma que “você tem 89% mais chances de pesquisar sobre transexuais [no site], se vier do Brasil”. O termo ‘shemale’ é o quarto tópico mais buscado pelos brasileiros, no ranking mundial, a expressão ocupa o nono lugar.

Leia Mais – As Baías lançam single com Linn da Quebrada e manifesto: “A quem interessa fingir que não vê talentos trans?”

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As passarelas da Casa de Criadores e da SPFW foram o start na carreira de Urias, que nasceu em Uberlândia (MG). Sua incursão pela cena fashion a fez ser escolhida como uma das embaixadoras latino-americanas da marca Adidas. No entanto, a verve cantora falou mais alto. Após gravar uma série de covers, ela investiu em carreira autoral com sonoridade ímpar e letra que expõe a vivência de um corpo trans na conservadora sociedade brasileira. Conclusão? Lançou o single ‘Diaba’, que alcançou mais de 9 milhões de views no Youtube. Ela costuma realçar que ser mulher transexual no país onde mais se mata pessoas transgêneras é necessário enfrentamento. “O Dia da Visibilidade Trans reforça que não queremos mais ter medo no nosso cotidiano”, enfatiza.

Já a atriz, apresentadora, cantora, compositora, performer e ativista social pelos direitos civis da comunidade LGBT e da população negra, Linn da Quebrada analisa a importância da data. “Que ações e trabalhos falem por todos e não pelo egocentrismo. Quero que meu trabalho seja um aliado ao meu corpo. E com liberdade”, defende a artista.

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No dia 29 de janeiro de 2004, foi lançada no Brasil a campanha Travesti e Respeito, primeira ação contra a transfobia idealizada por ativistas travestis e transgêneros. A campanha foi tão importante que, desde então, é comemorada nessa data o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A luta de travestis e transgêneros é a luta por direitos garantidos pela Constituição Federal. No artigo nº 5, lê-se: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à segurança e à prosperidade”. A falta de conhecimento por parte da sociedade sobre sexualidade e questões afetivas faz com que o preconceito impere. Há confusão sobre orientação sexual, que diz respeito à atração que se sente por outros indivíduos, e identidade de gênero, que é a forma com que o indivíduo se identifica, independente do órgão genital que possui.

A população trans teve conquistas: uso do nome social, a cirurgia de resignação sexual do SUS, o sistema de cotas que estabelece a obrigatoriedade mínima de 30% de candidaturas femininas por partido nas eleições. Também foram criadas cotas para que estudantes trans acessem as universidades públicas.