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De volta ao Rio com Mercado Mundo Mix, Beto Lago, criador do evento, aposta em mais que moda e comportamento. “será um evento multicultural

Há 21 anos, quando foi criada pelo paulista, um dos principais desafios era mostrar que os "loucos da feira doida" eram muito mais do que o visual dos piercings, tatuagens e cabelos coloridos. "Tinha muita rotulação em cima da nossa aparência e do jeito que nos vestíamos, que era muito diferente"

Publicado em 24/06/2016 | Por Julia Pimentel

Reformatado, o Mercado Mundo Mix, que foi sucesso nos anos 90 e 2000, volta ao Rio de Janeiro cheio de novidades nos dias 25 e 26 de junho, na Fundição Progresso. Em entrevista ao HT, o criador do evento, o paulista Beto Lago, contou que esta edição carioca, com curadoria de Evangelina Seiler, ex-diretora artística da Casa França-Brasil, além de moda e comportamento, terá também música, gastronomia, manifestações culturais, oficinas, feira de publicações independentes e galerias de arte. “Estamos voltando tipo Tieta. Tivemos uma experiência na Europa em que aprendemos que o que fazíamos não era coisa de um bando de loucos. E, sim, economia criativa. O Mundo Mix vai ser muito mais do que ele era, será um evento multicultural. Agora, a gente retoma o Mercado com outro olhar. As expectativas para o evento do Rio estão se concretizando de forma positiva, tanto pela receptividade das pessoas como pelo lado emotivo”, disse o fundador, que brincou ao contar que o Mercado chega como rock star nas cidades por onde passa.

Beto Lago, criador do Mercado,

Beto Lago, criador do Mercado (Foto: Renatto de Sousa)

Fundado em 1991, o Mundo Mix possui, ainda hoje, os mesmos motivos para continuar na estrada, segundo Beto. Como nos contou, há 21 anos ele queria mostrar que “profissões não-convencionais” também eram uma forma de sustento. “Eu nunca confiei muito no caminho dos advogados, médicos, engenheiros e as demais ocupações mais pragmáticas. Sempre acreditei nas profissões mais alternativas, em que você trabalha fazendo o que gosta. O que, hoje em dia, é a chamada economia criativa. Só que lá atrás, não tinha esse nome. Éramos chamados de ‘os loucos da feira doida’. No entanto, hoje, somos reconhecidos em um novo segmento de profissão, que são os estilistas, DJs e artista plástico, por exemplo.

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Engana-se quem pensa que essa era a única dificuldade do grupo de “loucos da feira doida”. O que hoje em dia pode parecer normal e ser chamado de estilo pela nossa sociedade, nos anos 90 não era bem assim. Piercings, tatuagens, cabelos coloridos e roupas alternativas, comuns entre os artistas do Mercado, eram vistos com estranheza pelos mais tradicionais e conservadores. “Por incrível que pareça, no começo, a dificuldade era em mostrar quem eram aquelas pessoas. Tinha muita rotulação em cima da nossa aparência e do jeito que nos vestíamos, que era muito diferente. Mas aquilo era uma profissão, um jeito de trabalhar. Hoje em dia, falar que alguém é da moda é associar a uma pessoa super fashion. Porém, naquela época, ser fashion não era tão democrático”, relembrou. No entanto, os criadores do início do Mundo Mix mostraram como transformar um limão em uma limonada, como diz o ditado.  “A partir do momento em que se conseguiu mostrar quem a gente era, nós invertemos os papéis. Hoje, qualquer novela tem o personagem do cabelo colorido, piercing e tatuagem. Foi uma batalha que tivemos que enfrentar no começo para fazer com que as pessoas entendessem que nós éramos mais que imagem”, explicou.

De lá pra cá, além da aceitação do estilo dos criadores, a moda em si também passou por mudanças. Segundo Beto, hoje em dia, ela não atrai e seduz tanto as pessoas como a 20 anos atrás. “A moda, de uma certa forma, saiu de moda. Naquela época, todo mundo queria ser estilista. Já hoje em dia, ela passa por uma outra fase, um momento agonizante no Brasil. Eu acho que a moda regrediu, estamos falando de 20 anos atrás de novo, em que não há oportunidades. Muita gente que investiu nos últimos anos em uma loja própria não está conseguindo se manter. E quem optou pelo comércio online, também não está sobrevivendo, já que foi sobretaxado por esse país retrógrado. Então, todos que estavam fazendo estratégias para crescer a marca online dançaram com as novas normas”, disse Beto sobre a realidade do mercado “bellow the line”.

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Em função disso, o criador do Mundo Mix acredita que a feira esteja tendo ainda mais importância e significado nesta volta. Para ele, é uma chance desses artistas exporem e venderem os seus trabalhos de forma direta ao cliente final, sem precisar pagar tantas taxas e impostos como se fosse em lojas físicas e online. “Não é à toa que muitas outras feiras voltaram. Mas, eu acho que isso não é só pela nossa retomada. As pessoas começaram a ver nessas oportunidades um jeito de manter a sua moda e o trabalho na economia criativa. Até porque, está difícil a crise no Brasil. Esses eventos aglutinam várias iniciativas que, juntos, ganham força para mostrar o trabalho comercial. É legal esse momento, mas, realmente, temos que prestar atenção à criação brasileira, caso contrário vai acabar. As semanas de moda já estão sentindo isso. Não existem mais criadores, vamos ser sinceros”, declarou.

E por falar em crise, outra missão importante que Beto destacou nesse retorno, é fazer com que as pessoas sintam, novamente, prazer em consumir. Segundo ele, a “Geração Y” de hoje, dos jovens antenados no mundo da moda, é contra o capitalismo, o que dificulta o mercado fashion. “Nós queremos aproximar esse público, que tem interesse real em tendência de moda, dos criadores. O Mundo Mix tem essa ambição de conquistar o prazer de consumir direto do artista, do cara que faz o seu trabalho e vende ao cliente final com um preço melhor. E esse resgate é necessário, senão esses criadores vão acabar. Até porque, se o produtor médio está com problema, imagina o pequeno?”, disse Beto.

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Para a tão esperada volta do mercado que já funcionou como incubadora de marcas como Chilli Beans, Walério Araújo – que vai marcar presença como personalidade do evento –, João Pimenta, Complexo B e Carlos Tufvesson, Beto Lago apresenta novos expositores como Lucas Menezes da D-Aura, Vicente Perrotta, Rafaell Cavaglhyery, Gui Amorim, Sophos Rio, Klatsch, 13Rée, entre outros. Estamos confirmados para conferir isso e muito mais, leitores?

 

 

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