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Conheça Kendrick Lamar, o rapper que é idolatrado por Kanye West e Pharrell Williams, e quebrou recordes com seu mais recente álbum

"To Pimp a Butterfly" fala sobre depressão, lutas sociais e racismo nos EUA e foi lançado este mês. Já é o disco mais executado na história do Spotify, com 9,6 millhões de streams apenas no primeiro dia

Publicado em 24/03/2015 | Por João Ker

*Por João Ker e Lucas Rezende

Kendrick Lamar é um rapper americano de 27 anos, nascido na Califórnia. Se você nunca ouviu falar nesse nome, é aconselhável que leia este texto com o dobro de atenção. O cara rompeu os perímetros da cena do rap e ganhou (mais) notoriedade recentemente: o lançamento de seu terceiro álbum de estúdio, “To Pimp a Butterfly”, bateu recorde no serviço de streaming de músicas do Spotify. Lançado no dia 16, o disco foi reproduzido na íntegra 9,6 milhões de vezes, como você viu aqui . Não é pouca coisa.

Mas, antes de todo esse boom, Kendrick já havia se envolvido em outro episódio de quebra de barreiras. Seu primeiro álbum, “good kid, m.A.A.d city” (2012), foi tratado como uma das maiores injustiças da história do Grammy. Explicamos: a premiação, quando o assunto é hip hop, tem uma premissa bastante criticada de aclamar os artistas do mainstream, com luz comercial que, digamos, não se encaixa muito bem no perfil do rapper. Mas o jogo virou. Depois de ser indicado para sete Grammys e não levar nenhum, Kendrick acabou passando a mão nos gramofones de Melhor Composição e Melhor Performance de rap pela música “i”. Mostrou que um dia é da caça, outro do caçador.

Kendrick Lamar: um dos rappers mais importantes da atualidade (Foto: Reprodução)

Kendrick Lamar: um dos rappers mais importantes da atualidade (Foto: Reprodução)

O prodígio, que antes de estrear com disco próprio já deu canja com gente como Drake, Talib Kweli, Dr. Dre e Lil Wayne, ganhou um rasgo de elogios de Pharrell Williams – o bombado intérprete de “Happy” e atração principal do Lollapalooza 2015. O produtor comparou Kendrick ao cantor e compositor americano Bob Dylan, e disse ao The New York Times que vê a mente do rapper “como um caleidoscópio sobre uma batida”.

Ao ser lançado meio que de surpresa (entenda melhor aqui), “To Pimp a Butterfly” arrancou elogios não só dos fãs e da crítica, mas de outros artistas que se espantaram com a qualidade do trabalho. O grande vencedor do último Grammy, Sam Smith, foi um dos que postaram a capa do álbum no Instagram com a legenda: “Estou totalmente viciado”. E até Kanye West, a pessoa mais egocêntrica do meio musical, publicou no Twitter: “Kendrick é uma inspiração. Obrigado pelas vibrações e pelo espírito. Seu meio, mensagem e execução são presentes para o mundo”.

Avesso às redes sociais, até uma ironia, já que foi a própria internet que o bombou na última semana, Kendrick Lamar reúne 1,2 milhão de seguidores em seu Instagram, com apenas duas fotos postadas. Enquanto se afasta da atmosfera hi-tech, ele agarra com toda a força o cunho social. Na faixa “Compton”, em referência à cidade californiana em que passou boa parte de sua vida e presente em seu primeiro álbum, ele se refere ao cotidiano de lá como um “sacrifício humano”. Também pudera: a cidade registra altíssimos números de desemprego e criminalidade.

O disco todo, na verdade, é uma grande carta aos Estados Unidos da América, criticando o racismo nada velado do país e mandando mensagens positivas à comunidade negra, criticando até Oprah Winfrey no meio do jogo. Em “Hood Politics”, Kendrick versa sobre as dificuldades da periferia e da força necessária para sobreviver nas ruas. A própria “i”, que serviu como carro-chefe de divulgação do álbum, ganhou versão estendida no disco, na qual ele subverte a palavra “negro” e tira seu significado “pejorativo” para transformá-la em sinônimo de realeza.

“i”, por sinal, talvez seja a música mais emblemática do álbum e a que o resume melhor, principalmente em sua versão estendida. É uma ode ao amor próprio e à autoaceitação, na qual Kendrick afirma no refrão: “Eu me amo”. Mesmo que ele “esteja lidando com a depressão desde a adolescência”, que “a cidade tenha lhe feito promessas” e que tenha chegado a pensar em suicídio.

“To Pimp a Butterfly”é um trabalho que foi adiado por meses, tudo isso devido a essa depressão auto-declarada que o rapper enfrentou e que permeia todas as músicas do disco. Ao final de cada uma delas, as batidas param e dão lugar a versos de um poema recitado pelo artista. O texto completo aparece na última faixa, revelando todas as dúvidas internas sobre o cara ter ascendido das ruas à fama e ao estrelato, as lutas sociais, culminando em um diálogo entre Kendrick e 2Pac em “Mortal Man”, uma canção com mais de 12 minutos.

Nessa pegada, Kendrick já chegou a declarar que, para alguns fãs, é “a coisa mais próxima de um pregador que eles têm”. Mas mantém o pé no chão. “Minha palavra nunca vai ser tão forte como a palavra de Deus. Tudo o que eu sou é apenas um navio, fazendo o seu trabalho”. Portanto, pelo que vimos nos últimos sete dias, esse navio ainda tem muito mar para navegar. Ô, se tem…

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