Música & Badalo

Com show espetacular de Grace Jones, festival Back2Black toma conta da Cidade das Artes tendo como tema o empoderamento do negro e de outras minorias

Cantora jamaicana pintou e bordou em sua apresentação! Com figurinos excêntricos e muita energia, a artista entoou sucessos de sua brilhante carreira, beijou na boca de fã, rodou bambolê e mostrou que, no auge dos seus 68 anos, está em plena forma física e vocal

Publicado em 21/11/2016 | Por Leonardo Rocha

Na véspera da data em que se comemora o dia da Consciência Negra no Brasil, o festival Back2Black desembarcou na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, no último sábado, para brindar com muita diversidade o melhor do que está acontecendo na cena contemporânea de música negra do país. E, de fato, tiveram atrações para todos os gostos. Tanto que nesta sétima edição, que foi reduzida para apenas um só dia, o evento levantou a bandeira do tombamento e do empoderamento dos negros, mulheres, gays e todas as minorias vitimas de preconceito de alguma forma em nossa sociedade. Agora, por entre shows, palestras e food trucks, gente de todo o tipo desfilava looks arrasadores para acompanhar as apresentações do Baiana System, Dream Team do Passinho, Rico Dalasam, MC Linn da Quebrada, Daúde e Deize Tigrona – tudo ao lado da festa Batekoo. Mas quem roubou todas as atenções da noite foi a diva do pop jamaicano Grace Jones. Ícone da moda e da música mundial, a cantora subiu ao palco da Grande Sala coberta por pinturas tribais, figurinos excêntricos e muita pop art, provando que no auge de seus 68 anos, está em plena forma física e vocal.

Grace Jones sacudiu o público do festival Back2Black (Foto: Stephane Munnier)

Grace Jones sacudiu o público do festival Back2Black (Foto: Stephane Munnier)

Insider que somos, nós do HT estivemos por lá e contamos tudinho o que rolou nessa festa que agitou ainda mais a urbe carioca. Vem! Para a diretora geral da festa, Coonie Lopes, mais do que exaltar a cultura black, o festival ainda pretende quebrar todo tipo de preconceito. “Nesta edição quero dar destaque aos movimentos do ‘tombamento’ e ‘empoderamento’ dos negros, mulheres, gays e todas as minorias; a favor da diversidade, contra o racismo e a homofobia. Esta será a nossa grande mensagem. Grace Jones já lacrava nos anos 80 e agora se juntará à nova geração lacradora no Brasil”, disse.

Cantora jamaicana chegou à Cidade das Artes coberta de tinta (Foto: AgNews)

Cantora jamaicana chegou à Cidade das Artes coberta de tinta (Foto: Cristina Granato)

Para dar início aos trabalhos, Rico Dalasam, MC Linn da Quebrada, Daúde e Lellêzinha, do Dream Team do Passinho, travaram um debate no no Teatro de Câmara para falar sobre a tentativa de quebrar o preconceitos contra os negros através da música e dos movimentos sociais, e de como os artistas abordam questões de gênero e identidade em seus trabalhos. Intitulada como não binária, a MC Linn da Quebrada ressaltou a importância do evento para a cultura negra. “É o momento de a gente se reunir, repensar nossos valores, ideais e mostrar resistência. Esse evento ajuda a gente a se olhar e entender nossas ações diante da conjuntura que estamos, politicamente, e para que a gente consiga se manter viva e observar de perto o que estamos dizendo. Esse festival vem em um lugar de sobrevivência. A gente precisa aproximar as pessoas afetivamente, sexualmente e dar um jeito de fazer o que a gente já está fazendo, que é nos proteger”, destacou.

Sem papas na língua, Daúde, que foi a primeira artista brasileira a ser contratada para o selo Real World, do cantor e músico britânico Peter Gabriel, acha injusto que o negro seja responsável por acabar com os preconceitos raciais. “É uma responsabilidade muito grande para gente. Porque o ideal seria que o branco também falasse sobre o assunto. A gente não pode ter esse movimento separatista. Agora, o racismo realmente existe e se pronuncia no momento em que o negro está de igual para igual. Enquanto o negro está guardando carro ou limpando casas, está tudo certo. Mas quando aparece a Taís Araújo e o Lázaro Ramos lindos na televisão, eles se tornam alvo. Porque ninguém quer ver o negro crescendo e evoluindo”, destacou ela, que foi apoiada por Lellêzinha. “Preconceito racial é uma questão de educação e criação. Enquanto o preto está servindo, está beleza. Ele só não pode se mostrar superior”, disse.

dsc_7190-palestra-cultura-e-empoderamento-back2black-novembro-2016-foto-cristina-granato

Já o cantor Rico Dalasam avaliou de que forma a sociedade pode conseguir exterminar os preconceitos raciais que existem em nosso país. Para ele, é como se o mundo tivesse uma dívida a ser paga. “Talvez se a palavra reparação fosse mais usada do que preconceito, essa discriminação fosse menor também. Porque uma pessoa de 15 anos, não deveria estar preocupada sobre questões de sua pele. Mas ela está. Porque desde os seus quatro que ela sente na vida. E o que podemos fazer? Eu não posso reparar uma coisa que eu mesmo sofri”, completou.

Depois do bate-papo, o Baiana System abriu a noite musical do evento com a excelência e os graves de costume, levantando o público que aguardava ansiosamente pela apresentação. A banda mostrou seu “dubaiano” (dub+Bahia) em músicas como “Panela” e o clássico “Depois que o Ilê passar”. Misturando dub, rap e rock a banda criada em 2009 mostrou elementos tradicionais da música baiana, música urbana e hip hop, no estilo sound system, linguagem trazida pelo letrista e vocalista Russo Passapusso. Desde o primeiro disco, o grupo tem ousado em experimentações sonoras, em que entram também muitos elementos da música jamaicana, tornando seu som único e diferenciado. “Depois de um festival, nosso som nunca mais fica igual. Aprendemos outros sotaques. Queríamos fazer algo diferente. Na banda, a guitarra baiana é uma voz e eu sou a outra voz”, constatou o cantor, que logo abriu espaço para a entrada triunfal de Grace Jones.

dsc_7540-grace-jones-back2black-novembro-2016-foto-cristina-granato

Com alguns minutos de atraso, a diva do pop jamaicano mostrou que no auge de seus 68 anos ainda tem muito combustível para queimar no melhor estilo sexo, drogas e muita música boa. Já nos primeiros acordes, Grace reafirma sua força de imagem brindando o público – que compareceu em peso à Cidade das Artes – com acessórios e figurinos extravagantes. A cantora chegou ao palco coberta por uma pintura no melhor estilo Timbalada que, na verdade, faz referência à pintura que Keith Haring fez no corpo da artista, transformando-a numa divindade africana nascida no olho da exuberância da pop art. Isso explica as diversas máscaras de carrancas tipicamente africanas, a crina e cauda, remetendo a uma leitura bem humorada de um unicórnio e indumentária tribal feita de palha.

dsc_7609-grace-jones-back2black-novembro-2016-foto-cristina-granato-1

Em sua performance, a diva não só entoou clássicos de sua brilhante carreira como “Nightclubbing”, “Private Life” e “Slave to the Rhythm”, como também provocou a plateia a tirar a roupa, fumou um cigarro suspeito no palco e ainda beijos diversos fãs na boca. Sorte de quem estava na primeira fila e pode aproveitar Grace Jones de corpo e alma bem de pertinho. Os clássicos da dance music estavam todos lá. Não houve momento das baladas com isqueiros para o alto – só na hora de acender o tabaco. Além da performance visceral, a artista ainda apostou em um pole dance, utilizado por dançarinos igualmente pintados, um chapéu coco com brilho que, sob o canhão laser, simula um globo espelhado, transformando o salão em um iluminado baile dos anos 80s. Irreverente, e despida de qualquer pudor, Grace Jones ainda provoca a plateia sobre atos sexuais no palco. Mas quando os fãs reagiram com empolgação, ela disparou: “Minha vagina não é tão grande assim”. E para fechar o espetáculo com chave de ouro,  a cantora rodou bambolê durante os cinco últimos minutos finais do show.

Logo na sequência, o movimento Nós por Nós reuniu um supertime com alguns dos maiores destaques da nova cena musical negra brasileira — Daúde, Deize Tigrona, Dream Team do Passinho, MC Linn da Quebrada, Rico Dalasam, e Tássia Reis, além da participação do DJ Machintal. No show, que apresentou uma viagem ao movimento dos anos 90s, composição que flertam diretamente com a cultura negra e o empoderamento das novas gerações. Quem marcou presença na plateia ainda foram as atrizes Cris Vianna, Samantha Schmütz, Christiane Torloni, a apresentadora Fernanda Lima e o cantor Frejat.

Pesquisas relacionadas