Caetano Veloso resgata magia do Natal em live, incluindo música inédita para neto, e ganha os trending topics


Em quase duas horas de apresentação, um dos ícones da música brasileira brindou o público com sucessos como “Sampa”, “Reconvexo”, “O leãozinho”, “Terra”, “Trem das cores” e “A luz de Tieta”, entre outros. Caetano ainda falou de sua relação com a data. “Natal, para mim, eram os presépios, com areia branca de praia no chão de cerâmica das casas e folhas de pitanga por cima. Quando jovem, passei a detestar Natal, começou a ficar muito americanizado. Depois, voltei a gostar”, contou ele.

Caetano Veloso

Aos poucos, as luzes revelaram a figura de Caetano (Foto: Reprodução internet)

*Por Simone Gondim

Pontualíssimo, Caetano Veloso começou a live batizada de “Vai ter Natal” no horário anunciado, às 21h deste sábado (19). Fazendo referência a Roberto Carlos, conhecido também como o rei dos especiais de fim de ano, o baiano abriu a noite com “Muito romântico”, canção feita por ele para Roberto, que a gravou em 1977. Na sequência, a tradicional “Boas festas” serviu de mote para Caetano falar de sua relação com a data. “Essa música tem o clima do que era o Natal para mim quando criança. É de Assis Valente, que nasceu no Recôncavo da Bahia”, contou. “Quando jovem, detestava Natal, começou a ficar muito americanizado, não era o meu mundo. Meu mundo eram os presépios, que, às vezes, tomavam a sala toda da casa de uma pessoa em Santo Amaro, com areia branca de praia no chão de cerâmica e folhas de pitanga por cima”, lembrou. “Amava o Natal, passei a odiar e depois voltei a gostar”, resumiu.

Mostrando que a reconciliação com o clima natalino não era da boca para fora, Caetano emendou com “White Christmas”, sucesso nas vozes de Bing Crosby e Frank Sinatra, cuja letra representa tudo que ele detestava na juventude. No meio da música, entrou em cena o falsete de Zeca Veloso, para deleite do pai (e da audiência). “Com a voz de Zeca, tudo fica purificado”, derreteu-se o artista, antes de o filho deixar o palco, sorrindo timidamente.

“Amava o Natal, passei a odiar e depois voltei a gostar”, contou Caetano (Foto: Reprodução internet)

Mas fazer as pazes com o Natal não significou deixar de lado o senso crítico. “Os dois países mais desiguais nos seus grupos são os Estados Unidos e o Brasil. Nos Estados Unidos, há a maior desigualdade entre os países ricos. Entre os países emergentes, o Brasil é o mais desigual”, afirmou Caetano. “O Brasil é um dos mais desiguais do mundo. A canção de Assis Valente, que era a canção de Natal no Brasil antes de as americanas passarem a dominar, diz claramente sobre essa desigualdade. Diz duas coisas incríveis: ‘eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel’ e que Papai Noel, com certeza, já morreu. Isso é algo impensável para uma mente americana”, acrescentou. “Meu Natal era areia da praia, folha de pitanga, cheiro de pitangueira. Mais da terra”, concluiu.

Em “Terra”, foi a primeira vez que Caetano se dirigiu aos espectadores da live e pediu que cantassem, mesmo de casa. No cenário, todas as luminárias quadradas que pendiam do teto se apagaram na primeira parte da música, restando acesa apenas a redonda, instalada atrás do artista, que trocou pelo azul os tons de laranja e vermelho adotados até então. Aos poucos, as demais luzes acompanharam a mudança, em um casamento perfeito com a suavidade da música. Quase no fim da canção, uma homenagem a Dorival Caymmi, com versos de “Você já foi à Bahia?”.

Caetano convidou o filho Zeca para cantar “White Christmas” (Foto: Reprodução internet)

Entre as músicas, Caetano demonstrou um certo incômodo por estar se apresentando para um teatro vazio, com a plateia assistindo ao show de casa. “Poxa vida, fiquei tocando várias vezes essa semana para poder tocar direito, mas na hora, aqui, fico nervoso, não sai a execução límpida. Mas a beleza da canção consegue se impor. Por isso, nem peço perdão”, disse.

Antes de apresentar “Você não me ensinou a te esquecer”, o artista revelou que, embora não houvesse um pedido específico para essa live, ele decidiu incluí-la no repertório por ser citada ao longo dos anos pelo público, que acabava frustrado ao não ouvir nos shows o tema do filme “Lisbela e o prisioneiro”. “Vou cantar como um presente de Natal”, justificou.

Tom Veloso tocou “Trem das cores” ao violão para o pai cantar (Foto: Reprodução internet)

Ao longo da noite, vários desejos de fãs foram atendidos. Em alguns casos, Caetano dedicou a música a alguém específico. “Muito”, por exemplo, foi para Regina Casé, a musa inspiradora da letra. Já “O leãozinho” era homenagem a todas as crianças que pediram, enquanto “Tigresa” foi destinada a Lilica Rocha, menina de 6 anos que encantou o baiano ao gravar um vídeo tocando a canção ao piano. Já “Alguém cantando” foi encaminhada a Flor, neta de Gilberto Gil, enquanto em “Um índio” o menino Otto, filho da escritora Raquel Iantas, representou todas as pessoas que queriam ouvir a canção.

Os outros dois filhos de Caetano também fizeram participações na live. Enquanto Moreno tocou prato e faca, além de cantar, na animada “Reconvexo”, Tom foi o responsável pelo violão de “Trem das cores”. “Hoje em dia, só gosto de ficar com meus filhos, saber deles. Quando vou tocar, se estiver com eles… Por mim, a temporada que fizemos juntos (do show “Ofertório”) não acabava nunca”, comentou o baiano. “Dos três, Moreno é o mais ligado ao Recôncavo. Por isso, tinha que ser ele tocando prato, coisa que ele faz desde menino”, observou.

Moreno toca prato ao lado do pai, em “Reconvexo” (Foto: Reprodução internet)

A inédita “Alto acalanto” foi escrita para Benjamin, neto mais novo de Caetano Veloso e Paula Lavigne. “Tenho três netos. A mais velha se chama Rosa, eu a chamo de minha rosa, não resisto. Depois, vem José, o senhor José, que eu nem sei o que vai ser. As perguntas que ele faz… E tem o mais novinho, Benjamin, filho do meu filho mais novo. Ele canta para se ninar, foi por isso que fiz a canção”, explicou o baiano.

Paula foi citada explicitamente em “Branquinha”, uma vez que a canção foi feita para ela, mas pode-se dizer que também marcou presença em “Não me arrependo”, composta por Caetano e incluída no disco “Cê”, de 2006, período em que os dois estavam separados após duas décadas de casamento. Embora eles só tenham reatado o relacionamento em 2016, Paula nunca deixou de ser empresária do artista.

Em “Terra”, a iluminação do palco mudou para a cor azul (Foto: Reprodução internet)

Uma raridade da noite foi a inclusão de “Noite de cristal”, música que Caetano fez para Maria Bethânia e ela gravou em 1988. “Bethânia me pediu para cantar, mas achava que eu não me lembraria da letra”, confessou. A irmã também foi lembrada com a música que leva o nome dela, composta em inglês durante o exílio e gravada em Londres.

Quase no fim da apresentação, Caetano voltou a dizer que passou um período da vida odiando o Natal e que, para uma propaganda da live, produziram uma montagem na qual colocavam um gorro de Papai Noel em uma de suas fotos. “Pensei: poxa vida, mal sabe a pessoa que fez isso que eu odiava esse negócio quando era novo”, admitiu, rindo da ironia. Ele deu pistas de como havia conferido novo significado à data. “Não podia deixar de me referir a Roberto Carlos, nem a Simone. Ela, aliás, está ainda mais linda do que quando a conheci, adolescente, jogadora de basquete em São Paulo. O Natal se metaboliza comigo com a beleza de Simone, a segurança vocal dela, e o carisma secular de Roberto Carlos”, assegurou.

(Foto: Reprodução internet)

Antes de se despedir com “Gente”, Caetano convidou quem assistia a se levantar e cantar a animada “A luz de Tieta”. “Quero ouvir vocês em casa. Estou só imaginando isso, vocês na janela, puxando ‘A luz de Tieta’ no prédio, depois no bairro todo. Tomara”, comentou.

A memória de Caetano traiu o artista algumas vezes ao longo da noite. “Tem acontecido muito ultimamente, esquecer músicas”, confessou. Trocar o nome dos filhos também é comum. “Erro o nome deles, toda hora troco, como minha mãe fazia comigo e meus irmãos”, divertiu-se. Na despedida, mais uma confusão: ele desejou feliz 2001 a todos. E a gente aceita, afinal 2020 é um ano para se esquecer mesmo.

Confira a lista completa das músicas da live de Natal de Caetano Veloso:

1 . Muito romântico

2. Boas festas

3. White Christmas

4. Terra

5. Você não me ensinou a te esquecer

6. Sampa

7. Muito

8. Não identificado

9. O leãozinho

10. Tigresa

11. Aquele frevo-axé

12. Não me arrependo

13. Avarandado

14. Alto acalanto

15. Trem das cores

16. Oração ao tempo

17. Reconvexo

18. Um índio

19. Cajuína

20. Branquinha

21. Alguém cantando

22. Luz do sol

23. Lua, lua, lua, lua

24. Noite de cristal

25. A luz de Tieta

26. Maria Bethânia

27. Gente