Música & Badalo

Barulhinho bom que vem da África: BEIJA-FLOR E IMPERATRIZ TÊM OS MELHORES SAMBAS DA SAFRA NO CARNAVAL 2015 DO RIO

O tema da cultura afro serve de trunfo para duas das maiores escolas cariocas, e HT analisa todos os outros enredos que farão a Sapucaí balançar em 2015

Publicado em 15/01/2015 | Por Heloisa Tolipan

*Por Pedro Willmersdorf

Apertem os cintos! Ou melhor, afrouxem os cintos, tirem o jeans, coloquem a tanga, o cocar e o colar, vistam a fantasia. Chegou a época em que a realidade ganha cores de ficção, em que o sorriso vira abre-alas no rosto de todos, o favelado vira rei e o rei se curva ao povo da favela. É Carnaval.

Enredos das Escolas de Samba do Rio de Janeiro para o Carnaval de 2015

E daqui a exatamente um mês, as escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro estarão entrando na Marquês de Sapucaí para mais uma maratona de desfiles. Nas caixas de som e nas vozes dos componentes estarão ecoando as letras de uma bela safra de sambas de enredo, bem superior à de 2014. Aliás, ano passado foi marcado por bons enredos que não tiveram composições à altura, enquanto 2015 conseguiu nivelar de forma muito interessante a qualidade das histórias a serem contadas com as canções criadas para representá-las. Vamos a elas?

(Foto: Reprodução)

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Abrindo os trabalhos no domingo, a Unidos do Viradouro retorna à elite do Carnaval com um dos sambas mais elogiados do ano, fruto da fusão de duas obras belíssimas do veterano Luiz Carlos da Vila. O enredo “Nas veias do Brasil, é a Viradouro em estado de graça” falará sobre a onipresença do negro na construção de identidade do nosso país. Melodias suaves e andamento mais cadenciado garantem um resultado que remete a outros tempos de folia. A letra, ainda que sem grandes arroubos de lirismo, cumpre bem a missão de transmitir a negritude do tema.

(Foto: Reprodução)

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Em seguida, a Estação Primeira de Mangueira entra na Avenida com um dos melhores sambas dos últimos tempos da escola. Mesclando uma métrica que já se tornou marca da verde-e-rosa (com primeira parte e refrão do meio extensos) com uma bela melodia e uma letra que fala ao coração do mangueirense, a escola fará uma homenagem à mulher brasileira, sem deixar de fora, claro, figuras femininas que fazem parte da história da escola, como Dona Zica e Dona Neuma. O trecho “Desperta, amor/Pra ver a Neuma na Avenida/O povo aplaude Dona Zica/Sagrado verde e rosa nessa história” resume bem o espírito do samba.

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Em clima de ressurreição, a Mocidade Independente de Padre Miguel chega ao Carnaval 2015 com a energia de Paulo Barros, seu novo carnavalesco, falando sobre o imaginário social diante do fim do mundo. Ao perguntar o que nós faríamos se só nos restasse um dia, a escola optou por um samba de letra simples, frases soltas e melodia leve. Se não prima pela poesia, o hino da Mocidade aposta na alegria, como no refrão que diz “Eu já tô louco, sou Vintém/Sou Padre Miguel/Cada segundo vou curtindo a vida”. Uma euforia que não se via há tempos por lá.

(Foto: Reprodução)

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Após a catástrofe de 2014, quando ficou à beira do rebaixamento um ano depois de ser campeã, a Unidos de Vila Isabel traz para seu desfile um samba com ‘s’ maiúsculo, com aquele que talvez seja o refrão mais intenso deste Carnaval. “No ar, a mais bela sinfonia/É de arrepiar/Comunidade unida a cantar/Renasce num sonho lindo/A Vila de novo sorrindo/E a música vem brindar”: versos que resumem o espírito do povo de Noel depois da tormenta enfrentada. Com a garra de sempre, a escola homenageia o maestro Isaac Karabtchevsky sem pinta de favorita, mas exibindo, antes mesmo de desfilar, a dignidade que é marca de seu ninho.

(Foto: Reprodução)

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Quinta escola a desfilar no domingo, o Acadêmicos do Salgueiro carrega, este ano, o incômodo título antecipado de “pior samba do ano”. Ainda que tenha potencial para emplacar na Avenida, a obra da escola tijucana peca pela pobreza melódica, ainda mal auxiliada com uma letra repleta de clichês ao falar sobre a culinária mineira e toda aura que a cerca. A ausência de Quinho ao microfone também é sentida, diga-se de passagem, cabendo, então, à força da vermelho-e-branco, sempre favorita, dar conta do recado mesmo com um hino fraco a seu serviço.

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Fechando o primeiro dia de apresentações, a Acadêmicos do Grande Rio traz um dos sambas mais divertidos do ano ao falar sobre a história do baralho. Sem enredo patrocinado depois de quase 10 anos, a escola de Caxias parece mais livre para mostrar sua alma carnavalesca, também ofuscada pela presença de celebridades e afins em seus desfiles. Mas, em 2015, além do enredo autoral, a tricolor da Baixada também exibirá um número reduzido de famosos entre seus componentes. Menos mídia e mais folia. “Canta, Caxias/O meu coringa é você”, diz o samba da escola, exaltando a apaixonada comunidade da cidade que representa.

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Na segunda-feira, a São Clemente inicia a festa com uma homenagem a Fernando Pamplona pelas mãos de sua pupila Rosa Magalhães. Uma prévia já empolgante e que ganha o reforço de um samba delicioso, interpretado por Igor Sorriso, um dos melhores nomes da nova geração. “É o mestre/Que segue o astro-rei lá no infinito/O céu ficou ainda mais bonito/Todos querem aplaudir”, canta a obra escolhida pela agremiação de Botafogo. Emoção e lirismo na medida, assim como em todo o corpo do samba.

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Na sequência, a Portela prepara uma homenagem surrealista aos 450 anos da Cidade Maravilhosa pelas mãos de Alexandre Louzada. O samba, ainda que repetindo certas fórmulas que a escola de Madureira vem apresentando recentemente (frases curtas e cadência de samba de roda), cumpre de forma louvável a missão de contar o enredo. “E eu daqui/Feito Dalí/Em traços te retrato surreal”, canta Wantuir, em plena forma novamente, agora com o reforço de luxo de Wander Pires.

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Após um chocante sétimo lugar em 2014, a Beija-Flor de Nilópolis decidiu resgatar sua alma africana ao falar sobre Guiné Equatorial. E, de quebra, nos brinda com um dos dois melhores sambas do ano. “Sinfonia das marés”; “Eu vi a escravidão erguer nações”; “Quem beija essa flor não chora”: alguns dos versos repletos de lirismo que permeiam a delicada obra escolhida pela escola. No refrão principal, como não poderia deixar de ser, a convocação à comunidade, um traço marcante na maioria das obras cantadas pela Deusa Soberana em sua história.

Ilha

(Foto: Reprodução)

Objeto de discórdia entre os especialistas, o samba da União da Ilha do Governador tem a seu favor dois trunfos: a letra extremamente sagaz e debochada e, claro, Ito Melodia, melhor intérprete em atividade no Carnaval. Ao falar sobre vaidade e a gama de abordagens que o tema permite, a Escola aposta em uma obra que não preza pela sutileza, mas compensa com o escárnio, como no trecho “Meu charme é passaporte para ser superstar/Eu tô na tela da TV sou a cara da riqueza/Tiro foto de mim mesmo, eu só quero aparecer”. Atualíssimo, o samba, provavelmente, conquistará por sua ausência de papas na língua.

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Um contraste interessante com a densidade apresentada pelo samba da Imperatriz Leopoldinense, melhor obra da safra, ao lado da Beija-Flor. Ao pregar o amor, a liberdade e a igualdade, a obra da escola de Ramos nos remete a Nelson Mandela logo em seu refrão principal, posteriormente apresentando uma melodia primorosa aliada a uma letra redonda, que dá conta da ideia de mostrar uma África solar, sem grilhões. “Vamos à luta pelos direitos/Uma banana para o preconceito”, diz o samba a certa altura, sem abrir concessões à ignorância. Sem tradição de apresentar enredos afro, a Imperatriz se mostra muito à vontade nesta empreitada, muito por conta de seu hino vigoroso.

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Fechando os desfiles de 2015, a Unidos da Tijuca defende seu título mergulhando na história da Suíça, país culturalmente tão distante do Brasil, mas que é aposta da escola do Borel para manter a faixa no peito. A julgar pelo samba, parece ter sido tarefa árdua carnavalizar a gélida nação europeia. Sem exibir qualquer vestígio de originalidade, a obra da escola cumpre de forma eficiente a missão de contar o enredo, com citações em propulsão a elementos que se referem à história e aos costumes suíços. Com a eletrizante voz de Tinga e um refrão principal daqueles de encher o peito da comunidade, a Tijuca deve conseguir, provavelmente, compensar a pasmaceira melódica de seu samba.

* O sagitariano Pedro Willmersdorf é um jornalista carioca apaixonado pelo carnaval, obsessão que ele concilia com outros amores, como a música pop, o cinema, o voleibol e a vida noturna ao lado dos amigos.

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