Música & Badalo

Ana Carolina entrega novo projeto para 2016 e lembra a polêmica capa da Revista Veja: “Vivenciamos reações odiosas. A luta continua”

Antes de se apresentar no Paraná e no Espírito Santo, Ana Carolina conversou com exclusividade com HT. Ela disse que quer focar no violão assim que a atual turnê "Sucessos" acabar. “Há 16 anos entrei nesta viagem, nessa carreira que teve início nos bares de Juiz de Fora (MG) e resolvi resgatar aquela cantora e seu violão que existia em mim”

Publicado em 26/09/2015 | Por Lucas Rezende

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Não adianta lembrar Ana Carolina de seus sucessos “É isso aí”, “Coração selvagem” e “Encostar na tua”. Muito menos mostrar os números de “Pra rua me levar” e “Quem de nós dois”. Ela não curte o rótulo de hitmaker. “O fato de ter canções que viraram hits é sempre satisfatório, mas não produzo pensando no resultado radiofônico. Isso é consequência”, conta ao HT em entrevista exclusiva. O motivo está em como Ana pensa a música. “Estou mais voltada à gênese de um acorde, de um verso, um arranjo, do que seu sucesso comercial. Me considero uma artista dedicada em explorar os inúmeros caminhos e possibilidades que essa arte é capaz de indicar”.

O mesmo entendimento leva Ana, aos 41 anos e 16 de carreira profissional, a também deixar à margem o conceito de mainstream. “Posso afirmar que é mais importante seguir produzindo do que trabalhar sobre os louros colhidos”, enfatiza. Talvez por isso não olha para trás a fim de avaliações. “Não vivo de passado e mantenho acesa a mesma chama que me fez criar ao longo desse processo”, entrega. Mas Ana é esperta e sabe que o mar não está sempre para peixe. “Não é nada fácil neste país, tudo é muito suado, sofrido e somente com muita dedicação e empenho que alcançamos os resultados”.

Lamento? Não na voz grave de Ana Carolina. “Continuo gostando do que faço, tenho prazer em fazer o que gosto e enquanto isso for latente em mim, continuarei produzindo sem pensar em resultados, prêmios ou estar dentro ou fora do mainstream”, garante. Atenta a novas parcerias e aos adventos hi-tech, ela já sabe o que quer para 2016. “O próximo projeto estará centrado no violão, nas composições que amo e me permitirei interpretar músicas que sempre gostei”, entrega. Um motivo especial pelo protagonismo do instrumento? “Há 16 anos entrei nesta viagem, nessa carreira que teve início nos bares de Juiz de Fora (MG) e resolvi resgatar aquela cantora e seu violão que existia em mim”.

Enquanto faz esse resgate mezzo histórico mezzo musical, Ana cultiva um hábito antigo: não escutar seu próprio material. “Quando não estou ensaiando ou gravando, prefiro justamente ouvir o que não é meu”. Não por falta de opção, lógico. Muito pelo contrário. “Tenho muitas composições e também um catálogo bastante executado em rádios e shows, o que me rende boa arrecadação”, admite. Mas nem sempre justa, certo? “Sempre pode ser melhor e, hoje, muita coisa foge dos padrões de quando, por exemplo, não existia internet. O controle é mais difícil. Minha posição é a de seguir fazendo, semeando, plantando, criando”, atesta.

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E vai além: “Tenho certeza de que sei fazer música, sou muito feliz em poder trabalhar com o que gosto e isso já é uma grande vitória”. Outra certeza ela também teve quando, há 10 anos, foi para a capa da Revista Veja assumir sua bissexualidade com a polêmica capa “Sou bi, e daí?”. O tempo passou, e, se, a mesma publicação tomasse as bancas nessa semana, talvez algo mudaria. A digestão pelo menos. “Estamos dando passos largos em relação a este tipo de discussão. Hoje, pessoas do mesmo sexo podem casar na maioria dos estados americanos e, no Brasil, a união civil é um fato”, lembra.

Mas nem tudo são flores e Ana reconhece: “No entanto, ainda vivenciamos o preconceito, reações odiosas e descabíveis”. Dizendo que “a luta continua”, ela é conhecida por não se envolver na militância LGBTT, ao contrário da amiga Daniela Mercury – que assumiu sua bissexualidade em 2013 -, mais inflamada. Ana justifica que há de se militar “no dia a dia, no trato com o próximo independente de cor, religião, sexo”, no mesmo passo que divide a fatura. “Nem a Daniela e nem eu inventamos a pólvora. Ângela Rô Rô fez isso há muito tempo”, faz questão de esclarecer.

Ana não inventou a pólvora e não faz questão nenhuma de acendê-la. E explica. “É importante ser consciente e pensar no bem coletivo, mas realmente dividir o mundo em partes, em guetos, em iguais e diferentes não nos trará maiores benefícios”, opina. Para ela, o ideal é “entendermos que o mundo é de todos, que os direitos devem ser iguais, que é preciso haver um equilíbrio” e que “somos um só”. Para justificar, recorre à música, of course. “A letra de ‘Imagine’, de John Lennon, fala sobre isso: “Um mundo só, sem fronteiras, sem religiões, sem divisões ou motivos para matar ou morrer. Ao final do dia, todos teremos o mesmo destino e por isso deve-se mirar a união”.

Por outro lado, quem parece nunca ter ouvido o hit do ex-Beatle são os parlamentares Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha, integrantes de uma bancada evangélica, que, calçada em preceitos religiosos, tenta tolher os direitos das ditas minorias. Quando o assunto é essa trinca, Ana é contundente, com motivo. “Não tem chance de conversa com quem opta por um radicalismo quase caricato e absolutamente questionável. Ao final todos morrem igual, todos querem a mesma coisa: felicidade, amor e paz. Como representantes do povo, estes homens deveriam usar o tempo precioso para construir e não para destruir”, afirma.

Opinião de quem sabe o que quer e o que pensa. Resultado de sessões de analista. Essas aliás, uma evolução à parte. Os aprendizados de lá, no entanto, ela não revela. “O que acontece em Vegas, fica em Vegas. O mesmo se aplica na sala de um analista. Adoro fazer terapia, é algo saudável e acho que qualquer um deveria ter a oportunidade de se conhecer melhor através da psicanálise. Somos todos um conjunto infinito de sensações, pensamentos, desejos”, raciocina. Na visão dela, o importante mesmo é ter a consciência desperta e não deixar que as armadilhas do ego te conduzam e confundam. “Não sou diferente de ninguém. Diariamente tento entender o que estou fazendo por aqui e qual o sentido das coisas”, revela.

Abaixo, a agenda de Ana Carolina, que está com a turnê “Sucessos”, onde enfileira os principais hits de seus mais de 15 anos de carreira:

Espaço de Eventos do Shopping Vila Velha (ES), no dia 26 de setembro

Castelli Hall Uberlândia, em Uberlândia (MG), no dia 16 de outubro

Barra Music, no Rio de Janeiro (RJ), no dia 23 de outubro

Red Eventos, em Campinas (SP), no dia 13 de novembro

Espaço das Américas, em São Paulo (SP), no dia 14 de novembro

Para compra de ingressos, conferir horários e disponibilidade é só clicar aqui.

HT entrega o setlist do show “Sucessos”:

Pole dance
Bang bang 2
Esperta / Você não sabe / Cantinho
Libido / Eu comi a Madona
Nua / Para rua me levar / Uma louca tempestade
Combustível
Sinais de fogo
Dez minutos
Coração selvagem
Eu sei que vou te amar
Problemas / Quem de nós dois
Pandeiros
Piriguete / Você não vale nada
Cabide
Rosas
Garganta
É isso ai
Bis – Elevador (fuga)

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