Gente & Comportamento

De José Mayer a Kevin Tsujihara: assédio, a porta de saída do showbiz

Acusados de assédio não estão passando pela guilhotina popular. O machado não necessariamente está cortando mais para o lado fraco da corda - as mulheres e crianças

Publicado em 19/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

Por Karina Kuperman

Um novo escândalo de assédio sexual na indústria cinematográfica tomou os tabloides nas últimas semanas. Trata-se de Kevin Tsujihara, ninguém menos que o CEO da Warner Bros. A história estourou depois que o site “The Hollywood Repórter” publicou uma matéria sobre um caso entre Tsuhihara e a atriz Charlotte Kirk, estrela de filmes como “Oito mulheres e um segredo” e “Como ser solteira”. Segundo a investigação do site, a atriz teria sido escalada por conta da influência de Kevin, que, vale lembrar, é um dos executivos mais bem-sucedidos de Hollywood.

Kevin Tsujihara, CEO da Warner, renuncia após escândalo de romance com atriz (Foto: Reprodução)

Pois bem, como se sabe, nessa segunda-feira, 18, a WarnerMedia soltou um comunicado oficial, assinado pelo diretor-geral John Stankey, que informou o desligamento do colega da empresa. “É do interesse da WarnerMedia, da Warner Bros., de nossos funcionários e parceiros, Kevin renunciar ao cargo de presidente e CEO da empresa. Kevin reconhece que seus erros são incompatíveis com as expectativas sobre a liderança da empresa e que poderiam impactar com o futuro desenvolvimento”, dizia o comunicado, sem mencionar diretamente o escândalo envolvendo a relação com Charlotte Kirk.

Esse não é o primeiro caso de assédio em Hollywood, mas foi em outubro de 2017, com o escândalo envolvendo o magnata cinematográfico Harvey Weinstein, que foi acusado por, pelo menos, 93 mulheres de ter cometido assédios sexuais entre os anos de 1980 e 2015, que a “caça às bruxas” se intensificou. Diversas atrizes como Gwyneth Paltrow, Jennifer Lawrence, Uma Thurman, Salma Hayek, Reese Witherspoon e muitas outras resolveram compartilhar suas histórias de assédio na indústria usando a hashtag #MeToo, que virou nome de um enorme movimento feminista em Hollywood.

Tudo começou com um tweet da atriz Alyssa Milano, e a ideia era simples: incentivar as mulheres a mostrarem solidariedade umas com as outras, especialmente quando se tratava de casos de assédio sexual. Na época, caíram nomes importantes não só de Hollywood, mas também da política e dos esportes. O peso do movimento foi tal que, poucos meses depois, a revista Time elegeu as mulheres que denunciaram casos de assédio como “Personalidade do ano” e chamou-as de “quebradoras do silêncio”.

Bem diferente do cenário de antigamente, em que assédio sexual por parte de grandes estrelas eram histórias escondidas debaixo dos tapetes. Há dois dias, a HBO colocou no ar o polêmico documentário “Leaving Neverland”, com acusações de pedofilia à Michael Jackson, morto em 2009, aos 51 anos. O diretor Dan Reed passou cerca de três anos trabalhando no filme, entrevistando duas possíveis vítimas do astro da música, antes de mergulhar nas investigações. “O fator celebridade provocou um ofuscamento. Tampouco se falava de pedofilia e assédio, aquela era uma época mais ingênua”, afirmou o diretor. De fato.

Daí, foi ladeira abaixo: estações de rádio ao redor do mundo estão deixando de tocar suas músicas e as tirando de suas programações. Em um comunicado, a rádio neozelandesa MediaWorks informou que “Michael Jackson não está mais em nenhuma das nossas playlists. Isso é reflexo de pedidos dos nossos ouvintes, e é nosso trabalho garantir que, ao ligar na nossa estação, eles ouçam o que querem ouvir”. E mais: o musical da Broadway “Don’t stop ‘till you get enough”, que acompanha a trajetória do artista, cancelou a turnê-teste que faria em Chicago neste semestre. Já o produtor de “Os Simpsons”Al Jean, baniu o episódio da série que trazia Michael Jackson como um convidado especial. A decisão foi tomada após ele ter assistido ao documentário, que resgata polêmicas acusações de pedofilia contra Michael.

Reprodução do documentário: Michael com a família de Wade Robson (Foto: Divulgação)

Em terras tupiniquins, o movimento contra o assédio não deixa a desejar. Em abril de 2017, José Mayer, um dos principais atores da Rede Globo, foi acusado pela figurinista Su Tonani de assédio sexual. A comoção foi tamanha que, além do afastamento de Mayer da emissora – o ator estaria no ar em “O sétimo guardião”, atual trama das 21h, de Aguinaldo Silva -, diversas atrizes começaram uma campanha nas redes sociais, “Mexeu com uma, mexeu com todas”. Taís Araújo, Bruna Marquezine, Gloria Pires, Adriana Esteves, Alinne Moraes, Cleo Pires, Camila Pitanga, Leandra Leal, Alice Wegmann, Sophie Charlotte, Debora Falabella, Maria Casadevall e muitas outras atrizes, além de maquiadoras, figurinistas e funcionárias da casa, levantaram um enorme movimento de solidariedade à vítimas de assédio.

Mais recentemente, José Mayer teria sido cogitado para o elenco de uma novela do canal aberto português TVI – uma trama escrita pelo moçambicano Rui Vilhena, que assinou no Brasil “Boogie Oogie” pela TV Globo. Mas…. até Mayer nega essa possibilidade. Seu último trabalho na Globo foi na novela “A Lei do Amor”, em 2017.

O ator está afastado da Rede Globo desde a denúncia de assédio em 2017 (Foto: Reprodução)

Um novo capítulo está sendo escrito, que prova que, de fato, o mundo mudou. Acusados de assédio não estão passando pela guilhotina popular. O machado não necessariamente está cortando mais para o lado fraco da corda – as mulheres e crianças

Pesquisas relacionadas