Arte & Literatura

Nossa colunista de Literatura, Fabiane Pereira conta sobre o livro DESpedaços, do qual faz parte ao lado de nomes como Zelia Duncan, Tatiana Kauss e outros 20 nomes

"DESpedaços" (ed. Oito e Meio), idealizado por Márcio Araújo, é fruto da 1a. turma de Formação do Escritor da PUC-Rio, e apresenta 22 novos autores na praça falando sobre partes do corpo humano. Cada autor escolheu um ou dois pedaços - nossa colunista, por exemplo, fala sobre os olhos e a boca. Zélia Duncan narra sobre os pés e assim por diante

Publicado em 29/11/2016 | Por Junior de Paula

*Por Fabiane Pereira

Abro um parênteses na coluna de hoje pra uma autopromoção. Há pouco mais de dois anos, tomei uma decisão muito acertada. Matriculei-me na 1a. turma de pós graduação em “Formação do Escritor” da PUC-Rio e, além de mais um diploma, ganhei amigos incríveis e confiança na minha escrita. Mas por que estou falando disso? Porque esta mesma turma vai lançar, amanhã (quarta, 30) o livro “DESpedaços” no Olho da Rua (rua Bambina, 6 – Botafogo), a partir das 19h. Infelizmente não estarei presente – já anunciei por aqui que estou morando, temporariamente, em Lisboa por causa de um mestrado – mas convido todos a estarem.

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DESpedaços” (ed. Oito e Meio) foi idealizado pelo Márcio Araújo e proposto à turma no início do curso. Proposta aceita e 22 novos autores na praça (ou nas prateleiras, como preferirem) falando sobre partes do corpo humano. Cada autor escolheu um ou dois pedaços – eu, por exemplo, falo sobre os olhos e a boca. Zélia Duncan narra sobre os pés. O estômago e o nariz são protagonistas dos contos de Patrícia Capella. Já Andrea Gaspar joga luz no fígado e no umbigo. Tatiana Kauss (que acabou de lançar seu primeiro livro infantil, “Caderno de Tereza“) insere o cérebro e os joelhos em seus contos. Luiza Mussnich dá vida aos lábios. Marcela Speranto fala do cu e das axilas enquanto Márcio personifica a língua.

“DESpedaços” é fruto de uma série de encontros. Um encontro entre pessoas diferentes, mas com desejos em comum. Um encontro de alunos de um curso com a literatura. Um encontro entre autores iniciantes com a força de suas próprias vozes. Fred Coelho, coordenador do curso, professor da PUC-Rio e colunista d’“O Globo” assina o prefácio. A roteirista e escritora Adriana Falcão assina a orelha.

Por fim, neste espaço (que é limitado), faço apenas uma pergunta para sete dos 22 autores presentes no livro. Imprimo também aqui, um trechinho da apresentação do Fred que abre “DESpedaços”. O restante, só lendo o livro inteiro. Eu garanto: vale a pena!

“Muito se fala atualmente nos estudos literários sobre corpo e afeto e sobre como a escrita se desdobra a partir de suas presenças. A partir dos nossos sentidos – e do nosso desejo – o afeto não é só aquilo que prezamos, mas também aquilo que nos atinge e nos desloca do senso comum dos dias. Para estes autores, o afeto atua em sua dupla função – como prova de uma parceria e como vetor de transformação de suas vidas”. Fred Coelho.

FP: Quando a escrita entrou, profissionalmente, na sua vida? E o que veio primeiro, a música ou a literatura?
Zélia Duncan: Quando comecei a cantar, com 16 anos, precisava de releases e comecei, já com 17, 18, a escrever e assinar nomes fictícios, afinal, falar de si não é a coisa mais aceitável do mundo, especialmente, quando tem que falar bem! Depois , já assinando Zélia Duncan, fiz esse tipo de texto até pra disco de Rita Lee, uma delícia. E lembro do primeiro caderno onde eu, bem garotinha, colhia pensamentos, até que comecei a escrever os meus. Mas demorei a mostrar meus escritos. Christiaan Oyens e Lucina, bem depois, me tiraram realmente do armário. A canção, como diria Tatit, que sempre precisa de letra e música juntos e misturados, foi ela que me fisgou, desde sempre, desde as vozes lindas de meus pais.

FP: Por que a literatura infantil lhe encanta tanto? E quais são suas inspirações na escrita voltada pra criança?
Tatiana Kauss: Sou encantada com o poder do imaginário. Desde pequena as histórias fantásticas me interessam mais, o mundo da lua, o pensamento livre, acreditar que tudo é possível… Meu desejo é inventar histórias que deem ao leitor ouvinte ou em desenvolvimento a possibilidade de voar também. Plantar uma sementinha desse encantamento pode ser o começo de uma relação prazerosa e duradoura  com a leitura.  Sou inspirada pelas falas e acontecimentos dos meus filhos, na essência das obras de autores renomados que leio, na minha própria infância, no jeito único das crianças que conheço, na natureza, no folclore, num sonho… enfim, inspiração é o que não me falta!

FP: Você é ligada a vários segmentos artísticos. Além da literatura, a música faz parte do seu cotidiano. Como os atravessamentos artísticos inspiram você e sua criação?
Marcela Sperandio: Minha forma de pensar e de criar é meio caótica. Trabalha por parênteses. Cada pensamento contém milhões de parênteses que contém outros parênteses. Dessa forma eu caminho na reflexão e tiro desse processo minhas criações. Se eu tivesse que escolher apenas um caminho artístico, seria muito complicado pra mim. Não é uma questão de dúvida, me encontro na multiplicidade de gestos e meios. Música, escrita, traços, audiovisual, isso tudo evoca o movimento. Esse atravessamento de linguagens é imanente ao ser humano, uma vez que experimentamos o mundo sempre com os cinco. Nossa cultura tem mania de classificar as coisas e isso nos dá uma falsa impressão de separação. Perdemos a noção holística do todo. A expressão é polivalente e a vida, um grande fazer artístico.

FP: Em que momento da sua vida você decidiu profissionalizar sua escrita e como o dia a dia numa grande metrópole influencia seu processo criativo?
Andrea Gaspar: Bem, não sei se houve um momento específico, mas a soma de muitos momentos. Acho que a escrita se concretizou como uma possibilidade profissional a partir de duas peças de teatro que escrevi e que foram encenadas: “Devil´s bar: uma sátira religiosa” e “Entre princesas e monstros: uma releitura de fábulas infantis”. A publicação de dois poemas, escolhidos em concursos literários nacionais, também serviram como uma espécie de aval profissional. Ainda hoje é muito difícil me auto declarar escritora. Suponho que por conta de uma modéstia incômoda que insiste em aparecer toda vez que preciso me manifestar a esse respeito. Cursar uma especialização em escrita literária contribuiu em parte para a consolidação profissional porque me colocou num universo de iguais no qual todos estavam – mais ou menos- no mesmo barco em busca de realizações (reconhecimento, publicação, visibilidade como escritor, etc) semelhantes.

A vida numa metrópole, particularmente, a vida no Rio de Janeiro, é essencial para a minha realização como escritora (não que a minha escrita se limite a isso), mas o Rio é uma espécie de personagem principal. Gosto de poder escrever sobre a cidade que se – por um lado – de fato – é uma capital metropolitana; por outro, guarda características muito suburbanas que me encantam em particular. É uma cidade de uma complexidade humana ímpar e que – apesar de todos os problemas que a integram – consegue sobreviver com humor e algum delírio artístico.  O meu próximo romance acontece nas ruas e quebradas cariocas e poder voltar a todos os autores que já “cantaram” a cidade em prosa e verso está sendo muito gratificante para o processo da minha escrita.

FP: Advogada por formação e escritora por paixão. Qual foi o momento e os motivos que fizeram você deixar de lado uma profissão que financiava sua vida para focar naquilo que lhe dava tesão?
Patrícia Capela: Sua pergunta fez lembrar o que meu pai, que era advogado, disse quando passei no vestibular pra Direito: “Agora você vai estudar as leis. Mas nunca deixe de olhar para as pessoas dos dois lados da mesa e, principalmente, nunca deixe de ler literatura, porque o direito embrutece o homem.” Foi a partir daí que comecei a ler mais e a me apaixonar pela escrita, o que ajudava inclusive, no convencimento do processo. Advogar no Brasil é um desafio diário, a estrutura toda é cara e funciona muito mal, os servidores estão assoberbados, o cliente não entende a demora e a burocracia e juízes acham que o advogado atrapalha o trabalho deles. E, pior, a advocacia nem sempre financia a vida, não. Por isso, numa época de transição do escritório em que trabalhava decidi dar um tempo e me dedicar mais a minha família.

Nesse período, pude contar com dois grandes facilitadores para eu mergulhar de vez na escrita. Primeiro, meu marido, Arthur, sempre me incentivando a fazer o que me deixa feliz e o fato da Estação das Letras ser em frente a minha casa: ela me convidava para entrar, há anos. Comecei lá fazendo uma oficina de literatura infanto-juvenil, depois poesia, então, abriram a primeira turma de pós – graduação da PUC em Formação do Escritor e aqui estamos nós, de corpo inteiro, com nossos Despedaços, não é? Já valeu a pena!

FP: Você se assumiu como escritor recentemente. Por que demorou tanto para profissionalizar algo tão intrínseco a você?
Márcio Araujo: Pra mim foi uma surpresa como tudo aconteceu meio junto: o término da pós em Formação do Escritor, o lançamento de “DESpedaços”, que idealizei, e o convite para escrever a peça “Ela é o cara!”, estrelado por Vera Fischer e dirigida por Ary Coslov, em cartaz desde julho deste ano, seguindo em turnê pelo Brasil em 2017 e com previsão de montagem também em Portugal. Escrevo desde que era adolescente, mas a partir de 1998, depois de escrever minha primeira peça teatral, me dedico à escrita de forma mais profissional, mas totalmente sem foco, de forma desorganizada, produzindo textos literários, para teatro e para TV. Acredito que a pós tenha me dado, além de técnicas e teorias, o foco para fazer de 2016 o ano para “sair da gaveta” e me apresentar como escritor. Que venham mais projetos!

FP: Você já lançou um livro mas é a primeira vez que participa de uma coletânea. Sua escrita, quando direcionada (em DESpedaços houve uma proposta inicial), se difere da sua escrita livre? Como se dá este processo criativo para você?
Luiza Mussnich: Para escrever, algo precisa me provocar e virar uma obsessão para ser convertido em texto. Não escrevo sobre minhas próprias histórias e neuroses, como diria Deleuze, mas elas são essenciais para transformar um fait divers, acontecimento cotidiano ou observação em crônica, poema, conto. Foi uma experiência nova escrever em “DESpedaços” porque partiu de um compromisso: escolher uma parte do corpo e criar um poema e, depois, escrever um conto em que o poema estivesse inserido. Ao escrever “Lábios”, poema que assino no livro, me preocupei com a unidade do projeto porque queria que houvesse uma semelhança quanto à forma e linguagem entre meu poema e os dos demais. Gostei tanto do exercício que estou reunindo alguns poemas para lançar em livro ano que vem. Tendo lançado um livro de contos, “Um dia o amor vai encontrar você, em março deste ano, já escrevia contos com mais intimidade. Por isso, “Um amor inerte”, meu conto no livro, foi escrito como outro conto qualquer até o momento de colocar a poesia dentro da prosa. Essa última etapa, apesar de desafiadora, foi muito divertida. Esse foi o meu processo, mas há 21 outros autores no livro, com métodos de criar e estilos muito diversos, o que enriquece nosso projeto.

*Fabiane Pereira é jornalista, pós graduada em “Jornalismo Cultural” e “Formação do Escritor”, mestranda em “Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação” no Instituto Universitário de Lisboa. Curadora do projeto literário “Som & Pausa” e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação, especializada em projetos musicais e literários. Foi apresentadora do programa Faro MPB na MPB FM por quatro anos e atualmente comanda o boletim “Faro Pelo Mundo” na emissora de rádio carioca. 

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