Arte & Literatura

Fabiane Pereira entrevista Tatiana Salem Levy: “a literatura como espaço de liberdade”

A autora afirma, ainda, que "uma política mais justa passa também por uma política da leitura. Quanto mais leitura houver, mais aberto estaremos para o outro, para a diferença". No papo com nossa colunista de literatura - ambas moram em Lisboa - Tatiana falou de feminismo, política, arte e outras questões. Vem ler!

Publicado em 08/06/2017 | Por Junior de Paula

*Por Fabiane Pereira

Tatiana Salem Levy é carioca, mas atualmente mora em Lisboa. Escritora e doutora em Letras, publicou os romances A Chave de Casa (Prêmio São Paulo de Literatura 2008, na categoria Melhor Livro de Autor Estreante), Dois Rios, Paraíso e, recentemente, o O Mundo Não Vai Acabar (editora José Olympio). Seu quarto livro reúne uma seleção de (bons) ensaios publicados em sua coluna do jornal “Valor Econômico”, revistos e modificados, além de outros inéditos. Logo na primeira frase da apresentação, Tatiana afirma: “o apocalipse é aqui e agora”. E disso eu não tenho dúvidas, basta olharmos à nossa volta.

(Foto: Tomás Rangel)

Quando me mudei pra Lisboa, em setembro passado, trouxe na bagagem apenas dois livros (do gênero romance) e um deles é o premiado A Chave de Casa, lançado em 2007. Desde então sou leitora voraz dos textos da autora e, assim como ela, também acredito que “a literatura é o espaço da liberdade” e que “uma política mais justa passa também por uma política da leitura. Quanto mais leitura houver, mais aberto estaremos para o outro, para a diferença.”

Ainda na apresentação de O Mundo Não Vai Acabar, Tatiana pontua que “ter um espaço grande num jornal para falar de literatura é um luxo nos dias de hoje”. Faço coro e tento, mensalmente, através desta coluna, entrevistar autoras contemporâneas que reflitam sobre a importância da literatura nos dias de hoje e nos ajudem a entender como ela, a literatura, pode nos ajudar a interpretar o mundo.

Tatiana Salem Levy também é autora de dois livros infantis, Curupira Pirapora (Prêmio FNLIJ) e Tanto Mar (Prêmio ABL), e do ensaio “A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze”, além de colunista do jornal Valor Econômico desde 2014.
Que a entrevista deste mês nos ajude a sermos menos provincianos e mais abertos ao Outro.


Fabiane Pereira: Quando a literatura entrou, profissionalmente, na sua vida?

Tatiana Salem Levy: Desde sempre. Fiz Letras e sempre soube que queria escrever. Nos primeiros anos, vivi como leitora crítica, fiz mestrado e doutorado. Depois, passei a viver como escritora. Hoje em dia, faço as duas coisas, vivo de ler e de escrever. É o melhor dos mundos.

FP: O que faz você acreditar na literatura como mola propulsora da vida?
TS: A minha própria experiência de leitora. Não tenho a menor dúvida de que a literatura me transforma a cada bom livro que leio. São pequenas revoluções íntimas que mudam meu olhar sobre o mundo. Que me fazem experimentá-lo de uma forma singular, como se o mundo de repente se tornasse o avesso do mundo. São experiências físicas, sensoriais, sensíveis, que me arrancam da aspereza de uma realidade cada vez mais dura que nos engole . Hoje, só de parar o tempo para ler já estamos revolucionando, você não acha? E essa revolução – parar o tempo – nos dá uma enorme vontade de viver, é uma das inúmeras forças da literatura.

FP: Seu livro, “O mundo não vai acabar” é uma reunião de textos publicados em sua coluna no jornal Valor e outros inéditos. Nela você fala de literatura e, entre outras coisas, indica livros. O que você busca nos livros e o que faz você revisitá-los?
TS: Quando organizei esse livro, resolvi selecionar e escrever textos que refletissem sobre o mundo atual, textos sobre o passado e nossa péssima relação com a memória e textos mais utópicos, que nos despertassem alegria, apesar de tudo. É isso o que busco na coluna: livros que me façam refletir sobre determinadas questões, como a guerra, a violência, o feminismo, entre outras. Falo bastante da Hannah Arendt, porque é uma filósofa que aborda o pensamento como antídoto ao mal. Minha utopia diz respeito a isso, à capacidade de pensar que a literatura e a filosofia promovem. Só com o pensamento o mundo pode se tornar melhor.

FP: Como ser otimista num país que não assegura a sua população educação e saúde públicas de qualidade?
TS: Não sei se otimismo é a palavra certa. Prefiro utopia. Otimismo me faz pensar em alguém que acha que tudo vai dar certo sempre. Eu não sou assim. Não acho que vá dar tudo certo. A realidade e a história estão aí para nos mostrar isso. Já o utopista é aquele capaz de imaginar um mundo melhor. E a imaginação é o que pode fazer do mundo o melhor dos mundos. Daí, inclusive, a importância da educação, fundamental para nos dar a possibilidade de sermos imaginativos. É justamente isso que falta na nossa política. Nossos políticos têm uma imaginação muito pobre, não conseguem pensar para além do dinheiro.

FP: O que levou você a trocar o Rio por Lisboa?
TS: Meu marido. Sou movida mais pelas pessoas do que pelos lugares.

(Foto: Tomás Rangel)

FP: De onde surgiu o nome do seu livro: “O mundo não vai acabar”?
TS: Do acaso. Eu queria alguma coisa que falasse do fim do mundo, mas que não fosse derrotista. Estava em busca de um título, sem sucesso. Aí, durante um jantar, ouvi uma amiga dizer a um amigo: “Calma, João, o mundo não vai acabar”. “O mundo não vai acabar”, repeti em voz alta, encontrei o título!

FP: Um bom escritor é, necessariamente, um bom leitor ou estas “funções” são independentes?
TS: Com certeza sim.

FP: No texto “A culpa tem dono” publicado em julho de 2014, você confessa que não gostava muito do termo feminista porque, de certa forma, ele aprisiona. Ô que fez você mudar de opinião?
TS: Resumindo, eu diria que cresci achando que as mulheres já tinham conseguido os seus direitos com o feminismo da década de 60, e depois me dei conta da necessidade de continuar lutando por um direito básico que, em realidade, ainda está longe de ter sido alcançado. Enquanto homens e mulheres não tiverem os mesmos direitos, o mesmo espaço, o mesmo reconhecimento, temos que ser feministas.

FP: Se posicionar no mundo de hoje é imprescindível? Por quê?
TS: Imprescindível, não. A liberdade é meu maior valor. Ninguém é obrigado a se posicionar, mas, claro, um mundo que acaba todos os dias em algum canto tem mais urgência de vozes que se expressem abertamente.

FP: Em um dos textos presentes no livro, você lembra que Oswald afirma: “só o escritor interessado interessa”. Quais escritores da sua geração interessados interessam a você?
TS: Agora já não lembro do contexto dessa afirmação. Eu concordei com ela no livro? Essa afirmação pode ser bastante questionada, dependendo do contexto, até porque “interesse” é uma palavra com muitas conotações. Eu a princípio também gosto muito da ideia de desinteresse, de pensar que a arte não tem interesse no sentido de finalidade, de objetivo. Num mundo em que tudo funciona pelo interesse, não interessar pode ser uma alegria. Nesse sentido, o artista é desinteressado. Mas ele é sempre interessado pelo mundo, no sentido de curioso. Sobre o interesse político, o que mostro no livro é que a literatura tem uma política própria, que não é a política do engajamento, mas nem por isso deixa de ser política. Agora, quais escritores contemporâneos me fazem pensar, eu diria: Carola Saavedra, Paloma Vidal, Michel Laub, Paulo Scott e muitos outros. Isso de citar autores contemporâneos é uma missão da qual não gosto muito.

*Fabiane Pereira é jornalista, pós graduada em “Jornalismo Cultural” e “Formação do Escritor”, mestranda em “Comunicação, Cultura e Tecnologia da Informação” no Instituto Universitário de Lisboa. Curadora do projeto literário “Som & Pausa” e ainda toca vários outros projetos pela sua empresa, a Valentina Comunicação, especializada em projetos musicais e literários. Foi apresentadora do programa Faro MPB na MPB FM por quatro anos e, depois, comandou o boletim “Faro Pelo Mundo” na emissora de rádio carioca. 

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