Arte & Literatura

Depois de 10 anos fechado, o histórico Canecão pode voltar a abrir suas portas

Na última terça-feira (dia 4), os 60 parlamentares presentes na Alerj aprovaram o destombamento da casa de shows. Um projeto dos deputados estaduais André Ceciliano (PT) e Rodrigo Amorim (PSL), o espaço da Universidade Federal do Rio de Janeiro, espera por sanção do governador Wilson Witzel (PSC), abrindo caminho para uma futura privatização

Publicado em 05/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

O Canecão que está fechado há quase 10 anos e pode ser reaberto em breve (Foto: Reprodução Facebook)

*Por Rafael Moura

No dia 20 de junho de 1967, o empresário Mário Priolli (1936-2018) cortava a fita do que seria casa de shows mais cobiçada do Rio de Janeiro. O espaço, de 116 mil metros quadrados serviu de palco para shows de grande nomes nacionais como Maysa, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Antonio Carlos Jobim, Toquinho, Marisa Monte, Cazuza, Tim Maia, Martinhos da Vila, Simone, Los Hermanos, Chico Buarque, Roberto Carlos, Zizi Possi, Maria Bethânia, Elymar Santos e muitos outros, fechou suas cortinas em 2010 e desde então, passa por um processo de degradação.

Inaugurada, inicialmente, como uma cervejaria, o Canecão (dai vem o nome do local), teve dois eventos de inauguração: um coquetel e, dois dias depois, a Feira da Providência, apresentada por Bibi Ferreira, com a presença de autoridades e artistas, como Pixinguinha. Na ocasião, o cartunista Ziraldo pintou o maior painel humorístico, com 23 metros de extensão representando a Santa Ceia. Além da Banda do Canecão que fez tanto sucesso, que a gravadora PolyGram, em menos de dois anos, lançou nada menos que 18 discos. A casa de espetáculos ‘surgiu’ dois anos depois com um show da cantora Maysa, dirigido por Bibi Ferreira, que também fechou definitivamente as cortinas da histórica casa. Os dias de glória ficaram no passado, pois quem passa pela calçada entre a Avenida Venceslau Braz e a Rua Lauro Muller pouco lembra dos 43 anos de sucesso.

O encerramento das atividades ocorreu após uma briga judicial de quase 40 anos entre a Universidade Federal do Rio (UFRJ) e o antigo inquilino, o empresário Mário Priolli. Na noite da última terça-feira (4) uma nova pagina dessa história começa a ser contada. Foi votada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) o processo de destombamento da casa de shows. A proposta abre caminho para que o espaço seja privatizado. Para se tornar lei, ainda é necessária a sanção do governador Wilson Witzel (PSC). Uma votação no mínimo inusitada, afinal, nunca vimos tantos partidos se unirem por um bem comum, ainda mais no Rio de Janeiro: uma aliança inusitada entre PT, PSL e PSOL. Os autores do projeto, André Ceciliano (PT), presidente da Casa, e Rodrigo Amorim (PSL), deputado estadual mais bem votado no estado, são de partidos com ideologias contrárias. A votação foi altamente simbólica, visto que nenhum dos 60 parlamentares, presentes, votou contra. O projeto chegou à Alerj com o aval do reitor da UFRJ, Roberto Leher, ligado ao PSOL – partido que, assim como o PT, é tradicionalmente contrário às privatizações.

O edital que só deve ser publicado no segundo semestre, após um estudo feito em parceria com o Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), considera a privatização um ato inevitável. Em nota, a UFRJ confirmou que pediu o projeto de lei do destombamento para levar adiante o processo de concessão. “A requisição para destombamento do imóvel onde funcionou o Canecão partiu da UFRJ. Uma consultoria contratada divulgará os modelos de uso econômico dos imóveis no segundo semestre deste ano. O destombamento é essencial para que a UFRJ prossiga com o projeto junto ao BNDES e possa regularizar o uso da área onde funcionava a casa de shows”. O comunicado aponta, ainda, uma concessão do espaço por 50 anos como solução. Para realizar a obra e mudar o gabarito, é necessário realizar o destombamento.

Nesse mesmo documento, a UFRJ argumenta que nos últimos quatro anos, perdeu R$ 50 milhões em investimento, o que inviabilizou a administração de alguns locais. Representantes da UFRJ e do BNDES procuram uma solução para a elaboração do plano de uso econômico de espaços da universidade. A ideia é que a área da antiga casa de shows vire um ‘equipamento cultural’. A previsão é que a primeira etapa dos estudos seja concluída ainda neste mês. No entanto, o Governo do Rio já demonstrou interesse na gestão do espaço, que seria feita através de uma parceria público-privada. Segundo Leher, haverá uma licitação até o primeiro semestre de 2020 para que a iniciativa privada faça obras no terreno e reabra o espaço para o público.

Em 27 de julho de 2016, o Canecão foi ‘reaberto’ a partir de um projeto de ocupação cultural. Militantes do movimento Ocupa MinC (Ministério da Cultura), que haviam sido expulsos pelo Governo Federal do Palácio Capanema, onde ficaram por 70 dias lutando pela não extinção do Ministério da Cultura, decidiram ocupar a casa de shows em Botafogo. Por mais de um mês, o Ocupa Canecão abrigou shows e atos contra o processo de impeachment de Dilma Rousseff, com atividades diárias e ocupantes fixos que tornaram o salão principal da casa de shows em um grande acampamento com o enorme palco no centro. Na ocasião, a diretora teatral Bia Lessa e militantes apresentaram um espetáculo que contou a presença de Chico Buarque, que cantou “Apesar de você” causando um verdadeiro êxtase coletivo (esse repórter estava presente e nunca mais irá esquecer daquele momento).

O cantor Chico Buarque no Ocupa Minc RJ (Foto: Reprodução Facebook)

Os artistas João Bosco, Simone Mazzer, Thaís Gulin, Doralyce, DJ Olomu, Enrique Diaz e muitos outros, também estiveram presentes nesse movimento de ocupação, que também contou com rodas de conversa, poesia, performances, grafite, bandas de fanfarra e blocos de carnaval. Após forte pressão do Ministério da Educação (MEC), a reitoria da UFRJ negociou a saída dos invasores com os artistas militantes, que foi finalizada na madrugada do dia 5 de setembro de 2016. Encerrando de vez a trajetória artística da mais importante casa de shows do Rio de Janeiro.

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