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‘Veneza’ é exibido em Gramado e diretor Miguel Falabella diz: “Bati de porta em porta para conseguir rodar o filme”

“É o filme da minha maturidade. Ele mostra a angústia de uma mulher que, na velhice e na cegueira, percebe que foi cruel com o único homem que a amou. É um filme intenso e desejo que seja visto, também, fora do Brasil”, afirma Falabella

Publicado em 23/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Com Thaissa Barzellai

O amor estava no ar durante a sétima noite da maior festa cinematográfica do Brasil. O Festival de Cinema de Gramado recebeu o diretor Miguel Falabella e todo elenco do longa-metragem “Veneza”, um dos concorrentes ao Kikito de Melhor Filme. O longa, que tem roteiro e direção de Falabella, faz uma ode às mulheres latino-americanas a partir da trajetória de Gringa, interpretada pela atriz Carmen Maura, conhecida pelas atuações nos filmes do cineasta Pedro Almodóvar. Ela vive uma prostituta de uma certa idade que vai atrás de um amor do passado quando fica doente e cega. Em Gramado, ainda acompanhamos a cerimônia de condecoração dos atores Thiago Lacerda, Murilo Rosa e Fernando Alves Pinto como embaixadores do cinema gaúcho. Vem conferir o que rolou! 

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Uma odisséia ao amor e pelo amor. É essa a viagem que o diretor Miguel Falabella propõe ao espectador desde a primeira cena de “Veneza”, quando já apresenta um universo envolvido pela fábula circense e poesia. Ali, as vidas das prostitutas Rita (Dira Paes), Madalena (Carol Castro), Gringa e Jerusa (Danielle Winits) ganham um toque singelo do que se tem de mais lindo nas trocas humanas. Para realizar o desejo da cafetina, as prostitutas que trabalham no bordel se unem a uma trupe circense e idealizam um plano que atravessa a realidade para levá-la de encontro do grande amor. “É um filme fabulesco que, transversalmente, nós tocamos em assuntos que precisam ser falados, mas sempre com essa pegada do Miguel de humor e direção certa. Tem tudo para agradar ao público”, diz Dira Paes, que interpreta Rita, a provável herdeira do bordel.

No filme, o público se depara com assuntos como prostituição, intolerância, violência e tantos outras questões que estão cada vez mais em pauta e que são apresentados na obra de forma sutil, ampliando ainda mais a abertura para reflexão e conexão do público geral. Durante a apresentação do filme no Festival de Gramado, o elenco fez questão de expor e celebrar a importância e a necessidade de trazer uma chancela social e política como essa não só para o cinema como também para um dos maiores festivais da sétima arte. “Está na hora de nós colocarmos a nossa cara não só na tela como também na nossa história de vida, que é a nossa profissão. O futuro do nosso país e da educação é tudo o que nós temos”, afirma Danielle Winits, amiga e parceria de longa data do diretor. Quem esteve presente na primeira exibição do filme no Brasil também teve a chance de presenciar Miguel Falabella resistir do único jeito que ele poderia saber: com elegância e palavras.

Com “Veneza”, filme que levou mais de 10 anos para ser lançado e cuja primeira exibição nacional foi aplaudida pelos convidados presentes na sétima noite do Festival de Cinema de Gramado, Falabella expande a sua aura criativa. “É um Falabella que as pessoas não conhecem muito e para mim foi muito difícil realizar esse filme, porque as pessoas têm uma tendência em nos colocar em prateleiras e sair de uma é muito difícil”, conta o diretor. Inspirado pelo argumento do professor de grego Jorge Acamme, com quem teve contato pela primeira vez na Argentina, Miguel viu a chance de finalmente levar a sua bagagem cultural para além das fronteiras – literalmente – criando uma história única que conversa não só com o cinema brasileira como também o latino-americano. “O senhor Miguel Falabella é repleto de facetas e uma delas é ser contador de histórias. É incrível a capacidade dele de carregar textos, poesias e referências. Foi uma experiência incrível poder beber dessa fonte maravilhosa”, conta Dira Paes. 

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A ligação com as culturas hermanas foi muito comentada e celebrada durante a passagem do elenco pelo tapete vermelho como também durante a nossa conversa. Presença singular e interpretação potente, Carmen Maura, conhecida como musa do cineasta Pedro Almodóvar, foi uma das figuras mais importantes dessa referência cultural no filme assim como também o ponto de partida desse realismo mágico, que se coloca como uma porta de entrada para a troca cultural entre os povos, ao contracenar ao lado desse time feminino brasileiro. “O mais bonito desse filme foi essa junção no elenco que eu consegui. Tenho atrizes uruguaias, espanholas, argentinas e as minhas amigas brasileiras. É uma verdadeira festa de latinidade com um olhar muito poético”, afirma Miguel. 

A celebração de uma relação cultural e artística mais estreita entre as fronteiras não ficou apenas na telonas do Palácio dos Festivais. No mesmo dia, os atores Fernando Alves Pinto, Murilo Rosa e Thiago Lacerda foram condecorados Embaixadores do Cinema Gaúcho pela importância de trabalhos como “Anahy de las Misiones” (1997), “A Cabeça de Gumercindo Saraiva” (2018) e “O Tempo e o Vento” (2013), respectivamente, no incentivo à cultura da região. A ideia é que, considerando toda a proximidade dos atores com a região sulista não só profissional como pessoal, o cinema gaúcho se transforme em uma potência cinematográfica que carregue a representatividade de todo o Brasil. “É mais uma necessidade de a gente fazer o movimento para estar mais próximo do cinema latino-americano e considerar que podemos formar um bloco de intersecção de culturas, técnicas, maneiras de enxergar o cinema ao contar histórias. Então, cá estamos nós. Só posso dizer que meu nome e minha carreira estão à disposição do cinema gaúcho”, afirmou Thiago Lacerda que, assim como Murilo Rosa, fez história no Sul e no Brasil inteiro na série “A Casa das Sete Mulheres”. exibida em 2003 pela Globo. 

Para Murilo, além de poder utilizar toda a trajetória de relação afetiva com a região e a carreira construída com personagens do local, os três escolhidos podem ter uma oportunidade de apoiar financeiramente o cinema. “Eu posso contribuir e capitalizar para que o cinema continue e aumente a sua produção no Sul. Nós estamos aqui e juntos com esse poder de criação no Sul e para bater à porta de empresários e falar: ‘Vamos juntos, porque o cinema gaúcho é maravilhoso”, afirma o ator, que já está com novo projeto ao lado do parceiro Fernando Alves Pinto inspirado em obra do escritor gaúcho Tabajara Ruas

Com festa de premiação marcada para sábado, na qual obras nacionais e internacionais serão premiadas com os esperados Kikitos, o Festival de Cinema de Gramado ainda homenageia o ator argentino Leonardo Sbaraglia com o Kikito de Cristal e apresenta o longa-metragem “30 Anos Blues”, o último filme a ser exibido na Mostra Competitiva desta edição. 

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