*por Vítor Antunes
Na televisão de 2026, poucas certezas permanecem. Especialmente em julho, quando ainda há muitos capítulos a serem escritos na disputa pela audiência e novos acontecimentos podem alterar completamente o cenário. Mas, se existe algo que já pode ser apontado como um dos grandes fracassos do ano, é o reality show “A Casa do Patrão”, além de representar um dos maiores reveses da trajetória de Boninho fora da estrutura da Globo. A atração terminou na última quinta com um saldo difícil de administrar. Sheila, a grande vencedora, levou para casa mais de R$ 1 milhão, mas deixou o programa praticamente tão desconhecida quanto entrou. Outra participante virou meme justamente pelo contraste entre expectativa e repercussão: eliminada já na reta final, saiu com apenas 14 mil seguidores nas redes sociais, evidenciando a dificuldade da atração em transformar seus participantes em fenômenos populares.
Mas a história de tropeços de Boninho na televisão não começou agora. Mesmo na Globo, onde seus projetos costumavam receber maior atenção da imprensa e uma estrutura incomparável de produção, o diretor também acumulou fracassos. A diferença é que, dentro da maior emissora do país, uma atração malsucedida muitas vezes ainda conseguia gerar repercussão, permanecer no imaginário popular ou simplesmente ser absorvida pela máquina global. Fora dela, o fracasso ganha outra dimensão: perde espaço, perde barulho e pode significar uma disputa pelo terceiro ou quarto lugar da audiência.
Como analisou o repórter Rodrigo Otávio, do site HT, “o fracasso reacende o debate sobre a dependência da estrutura da Globo para os êxitos de Boninho”. Fora da emissora onde construiu sua imagem de grande comandante dos realities brasileiros, o diretor encontrou um cenário muito mais duro: uma atração sem a mesma força de marca, sem o mesmo impacto comercial e sem o poder de mobilização que projetos como o “Big Brother Brasil” alcançaram ao longo dos anos.
Antes de “A Casa do Patrão”, relembre cinco realities e formatos comandados por Boninho na Globo que acabaram esquecidos pelo público.

Boninho e o apresentador, Leandro Hassum, em ‘A casa do Patrão’ (Foto: Divulgação)
“O Jogo”
Muito antes da explosão dos realities de confinamento, Boninho tentou misturar televisão, ficção e suspense em “O Jogo”, atração exibida pela Globo entre maio e julho de 2003, nas noites de terça-feira. Com roteiro de Ronaldo Santos e do núcleo J.B. de Oliveira, o Boninho, o programa teve apresentação de Zeca Camargo e apostava em uma dinâmica inspirada no formato norte-americano “Murder in a Small Town X”, da Fox.
A proposta era ambiciosa: doze participantes precisavam desvendar um crime fictício a partir de pistas deixadas pelo próprio assassino. Os suspeitos eram interpretados por atores desconhecidos do grande público, enquanto, a cada semana, um investigador era eliminado da disputa. Na prática, porém, a fórmula não conquistou o público. A atração chegou a colocar a Globo em terceiro lugar no Ibope em determinados momentos, aproximando a emissora da RedeTV!, que exibia o “Superpop”, apresentado por Luciana Gimenez, na ocasião. Encerrado como um dos grandes tropeços da televisão brasileira em 2003, “O Jogo” ficou marcado como uma tentativa ousada de criar um novo gênero na TV aberta, mas que acabou não encontrando conexão com o público.

Zeca Camargo em “O Jogo” (Foto: Divulgação/Globo)
“Jogo Duro”
Se hoje grandes realities apostam em megaproduções, cenários grandiosos e provas espetaculares, “Jogo Duro” já seguia essa lógica em 2009. O problema foi transformar investimento em audiência. Exibido pela Globo aos domingos à noite, o game show estreou em junho daquele ano com apresentação de Paulo Vilhena e direção de Boninho. A atração acontecia em um enorme galpão construído especialmente nos estúdios da Central Globo de Produção, o Projac, com cerca de mil metros quadrados divididos em salas e ambientes para diferentes desafios.
O vencedor de cada episódio poderia levar até R$ 30 mil, valor considerado relativamente baixo para o padrão dos grandes realities da época. O primeiro programa conseguiu uma média de 20 pontos de audiência, melhorando o desempenho da faixa naquele domingo. A reação, porém, não se sustentou. No segundo episódio, a audiência caiu para 17 pontos, e a atração chegou a perder para “A Fazenda”, da RecordTV, que marcou 22 pontos contra 14 da Globo no confronto direto durante parte da exibição.
As semanas seguintes mantiveram o cenário de baixa repercussão. O campeão da estreia, Roberto Noronha, professor de futevôlei de 49 anos, levou R$ 11 mil, bem abaixo do prêmio máximo anunciado. Apesar da grande estrutura montada pela Globo, “Jogo Duro” acabou rapidamente esquecido, entrando na lista de formatos de Boninho que não conseguiram repetir o impacto de seus maiores sucessos.

Paulo Vilhena à frente de “O Jogo” (Foto: Reprodução/Globo)
“PopStar”
Entre as apostas de Boninho para ampliar o universo dos realities musicais da Globo esteve “PopStar”, exibido entre 2017 e 2019, que tentava explorar uma premissa curiosa: revelar talentos musicais escondidos entre personalidades já conhecidas do público por outras áreas.
O formato tinha uma proposta interessante. Em vez de anônimos disputando uma oportunidade no mercado musical, a atração colocava famosos diante do desafio de cantar, revelando facetas desconhecidas de suas trajetórias. Entre os participantes estiveram jornalistas como Danilo Vieira e Renata Capucci, atores como Fafy Siqueira, Eduardo Sterblitch e Eri Johnson, além do ex-jogador de futebol Jakson Follmann.
A primeira temporada teve apresentação de Fernanda Lima, enquanto Taís Araújo assumiu o comando da atração nas temporadas seguintes. Apesar de uma ideia original e de nomes conhecidos no elenco, “PopStar” nunca conseguiu criar uma conexão forte com o público, mesmo tendo chegado a três temporadas. O desgaste ficou evidente nos números da última edição. Em dezembro de 2019, a final registrou média de apenas 9,5 pontos de audiência na Grande São Paulo. Embora tenha liderado o horário, o desempenho ficou abaixo de atrações exibidas em faixas consideradas menos nobres, como o “Globo Rural”, que alcançou 10,8 pontos no mesmo período. O programa também ficou próximo do “Auto Esporte”, com 9 pontos, e superou por pouco o “Esporte Espetacular”, que marcou apenas 8,3 pontos.
No universo dos realities musicais da Globo, “PopStar” acabou sendo uma experiência interessante do ponto de vista conceitual, mas sem força suficiente para se transformar em um fenômeno de audiência ou em uma marca duradoura da emissora.

Fafy Siqueira no Popstar, programa que participou como cantora (Foto: Divulgação/Globo)
“Estrela da Casa”
O caso de “Estrela da Casa” representa um dos projetos mais recentes associados ao universo de realities da Globo e também um dos mais desafiadores. Mesmo às vésperas de uma nova temporada, agora com o nome levemente alterado para “Estrelas da Casa”, no plural, e sob nova direção, a atração ainda busca encontrar sua identidade diante do público. Criado como uma mistura de confinamento e competição musical, o programa não conseguiu alcançar o impacto esperado em nenhuma das temporadas exibidas até agora.
A primeira edição, em 2024, enfrentou dificuldades principalmente nos índices de audiência. Apresentado por Ana Clara, o reality chegou a registrar apenas 8,2 pontos de média na Grande São Paulo, enquanto o “Fantástico”, exibido anteriormente na grade, havia alcançado 15,4 pontos. Na prática, a atração derrubou praticamente metade da audiência recebida da faixa anterior.
A segunda temporada, já comandada por Rodrigo Dourado, apresentou uma reação nos números e um desempenho considerado melhor pela emissora. O diretor, responsável por grandes sucessos como o “Big Brother Brasil”, permaneceu à frente do projeto, que tem previsão de nova edição em 2026. Ainda assim, “Estrela da Casa” permanece distante do status de fenômeno que a Globo esperava ao lançar um novo reality musical em sua programação. O desafio agora é transformar um formato que nasceu com a promessa de renovação em uma atração capaz de criar identificação e legado.

Ana Clara apresenta o “Estrela da Casa” (foto: Divulgação/Globo)
“Hipertensão”
Antes de grandes provas de resistência se tornarem uma marca dos realities contemporâneos, Boninho já apostava em desafios extremos com “Hipertensão”, formato baseado em provas físicas e psicológicas que testavam os limites dos participantes. A atração teve duas fases distintas na Globo. A primeira edição foi exibida em 2002, com apresentação de Zeca Camargo. O programa retornou em 2010 e teve uma terceira temporada em 2011, desta vez comandada por Glenda Kozlowski.
Inspirado em um formato internacional da Endemol, o reality tinha como proposta colocar participantes diante de situações de tensão, medo e superação. A direção ficou a cargo de Boninho, que já comandava o “Big Brother Brasil” e buscava ampliar a presença dos realities na programação da emissora. O contraste entre as temporadas, porém, revelou a perda de força do formato. A edição de 2002 alcançou expressivos 27,7 pontos de audiência na Grande São Paulo. O retorno em 2010 estreou com apenas 12,6 pontos, uma queda de aproximadamente 55% em relação à primeira edição. Na terceira temporada, em 2011, o desempenho continuou abaixo das expectativas. O programa marcou 12,6 pontos, contra 15,1 pontos registrados pela edição anterior, representando uma queda de 17%. Em 2010, a atração chegou a perder para o último episódio da série “A Vida Alheia”, de Miguel Falabella, que ocupava anteriormente o horário na programação da Globo e havia registrado 17 pontos de audiência em sua despedida.
Apesar de ser um formato de ação, com provas visualmente impactantes e uma proposta próxima ao espírito dos realities de sobrevivência, “Hipertensão” não conseguiu recuperar o fôlego inicial e terminou sua trajetória como mais uma aposta de Boninho que não deixou grande marca na memória do público.

Hipertensão foi exibido em 2011 (Foto: Divulgação)
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