Vandré Silveira mostra corpo sarado na web, assume cabelos brancos e defende envelhecimento sem pressão estética


Destaque da novela das nove no papel do golpista Edson, ele virou assunto nas redes sociais pela boa forma de sunga, na praia, e diz encarar a repercussão com naturalidade, defendendo o envelhecimento sem padrões estéticos. O ator, que afirma ainda aguardar a grande oportunidade na TV aberta após 25 anos de carreira, elogia a parceria com Deborah Evelyn e explica que a química entre os personagens foi construída em conjunto. Na entrevista, também analisa os golpes amorosos na internet, critica o etarismo e o machismo na forma como a sociedade encara a sexualidade de pessoas maduras. Batizado em homenagem a Geraldo Vandré, ele relembra a origem do nome, prepara o retorno aos palcos com “A Hora do Boi” e afirma que a ideia de impermanência guia sua vida e sua carreira

*por Vítor Antunes

“Eu cairia nesse golpe também, Carmita”, ou “A gente te entende, Carmita”. Essas foram as frases mais recorrentes no X (ex-Twitter) na última semana, quando surgiram as primeiras fotos de Vandré Silveira, intérprete de Edson na novela das nove. As publicações, claro, vinham acompanhadas de imagens do ator em momentos de relax na praia. Embora o personagem da novela seja um golpista e esteja enganando Carmita (Deborah Evelyn), a compreensão do público da plataforma tem uma explicação simples: a beleza do ator. Aos 45 anos, Vandré não apenas reconhece a própria boa forma como faz questão de valorizá-la e, claro, diverte-se com a repercussão nas redes sociais. “Sou um cara muito tranquilo com o meu corpo, muito bem resolvido e um pouco biscoiteiro, sim. Gosto de fazer fotos na praia porque isso também faz parte do meu cotidiano. Levo tudo de uma maneira muito natural. As pessoas falam o que querem, e vou entendendo quando um comentário ultrapassa o limite do respeito. Nesse caso, excluo, oculto e simplesmente não me relaciono com esse tipo de coisa.”

O ator prossegue: “Gosto de ter uma relação livre. Sou um cara livre, não sou moralista e tenho uma boa relação comigo mesmo. Gosto da minha imagem, me sinto bem como sou. Acredito que tenho uma relação tranquila com isso. Esse tipo de imagem também mobiliza as pessoas. É bacana mostrar que um homem de 45 anos pode estar bem, sem precisar ter vinte e poucos anos. A gente pode estar bem aos 40, aos 50”.

Vivemos, de fato, sob um olhar etarista. Nunca fiz nenhum tipo de intervenção estética. Não acho que estar bem signifique parecer mais jovem. Quero parecer um homem de 45 anos, que é exatamente a idade que tenho. Quanto aos cabelos brancos, há cerca de cinco anos eles começaram a aparecer de vez – Vandré Silveira

Vandré também destacou a sintonia construída com Deborah Evelyn em cena. Segundo o ator, os dois conversaram antes das gravações para encontrar o tom da relação entre Edson e Carmita. “A gente teve um jogo muito bom em cena. É muito bom contracenar com uma grande atriz. Antes de começarmos a gravar, a Deborah falou: ‘A Carmita não é uma mulher boba. Ela é experiente e não cairia facilmente na conversa de um golpista.’ Então, precisava haver química entre eles, desejo, paixão. Afinal, como esse homem conseguiria convencê-la se isso não existisse? A gente buscou essa verdade, e foi muito legal, muito gostoso gravar com ela.”

“Eu também cairia no golpe, Carmita” – Frase de seguidor brinca com Vandré Silveira, o golpista de “Quem Ama Cuida” (Foto: Reprodução/X)

Para Vandré, a liberdade de escolha deve prevalecer quando o assunto é aparência. “Acho que todas as pessoas deveriam aprender a respeitar a escolha de cada um. Se você quer fazer preenchimento, pintar o cabelo, ótimo. Se prefere deixar o cabelo grisalho e não fazer preenchimento, ótimo também. O importante é respeitar a maneira de cada um ser. Tenho levado esse processo de o cabelo ficar grisalho de forma muito natural.”

Embora tenha uma longa carreira no audiovisual e muitos anos de trabalho — incluindo uma participação por tempo determinado em Quem Ama Cuida —, Vandré afirma que ainda tem muito a conquistar na televisão. “Acabei de filmar Emmanuel, longa dirigido por Wagner de Assis. Também fiz algumas séries para o streaming e para a TV por assinatura, interpretando personagens de maior destaque. Agora, na TV aberta, estou muito feliz com a oportunidade de viver o Edson. Torço para que o personagem cresça ao longo da trama e conquiste o público.”

Tenho 25 anos de carreira, e eu ainda não não acho que eu não tive uma oportunidade bacana de verdade na televisão – Vandré Silveira

Vandré acredita que ainda não teve a sua “grande chance” na TV (Foto: Divulgação)

Em tempos em que golpes amorosos se multiplicam na internet — como o caso recente de um argentino que se passava por um egípcio para enganar mulheres —, Vandré acredita que a tecnologia apenas modernizou um problema antigo. “Esse tipo de atitude sempre existiu. Agora, as pessoas usam ferramentas novas, mas tudo continua se baseando em uma carência humana: a necessidade de encontrar o outro, de estabelecer relações, de viver o afeto. Esses golpistas se aproveitam justamente dessa fragilidade. O ambiente digital apenas facilitou esse tipo de crime e mudou a forma como ele acontece. No fundo, porém, é sempre a mesma lógica: explorar uma vulnerabilidade que faz parte da condição humana. Nós precisamos de afeto e de vínculos, e essas pessoas se aproveitam disso.”

O ator também comentou a diferença de tratamento entre homens e mulheres quando o assunto é envelhecimento e defendeu uma representação mais diversa dos relacionamentos na televisão. “A gente vive em uma sociedade etarista e machista. O homem envelhece, fica grisalho e passa a ser considerado charmoso. Já a mulher costuma ser vista como alguém que se descuidou. Acho importante perceber que a sexualidade não tem idade. É bonito mostrar isso de forma natural, porque é assim que a vida acontece. Precisamos enxergar a possibilidade de viver a sexualidade de maneira plena, independentemente da idade. Também é importante fugir desse padrão de romances sempre centrados em pessoas muito jovens. A teledramaturgia pode mostrar que casais mais maduros também têm desejo, libido, paixão e uma vida afetiva intensa.”

Vandré Silveira: O amor independe de idade (Foto: Divulgação)

CAMINHANDO, CANTANDO, SEGUINDO

Vocacionado desde cedo para a carreira artística, Vandré Silveira carrega no próprio nome uma homenagem à música brasileira. O ator foi batizado em referência ao cantor Geraldo Vandré, eternizado por interpretar Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, canção que se tornou um dos maiores símbolos da resistência à ditadura militar e da luta pela redemocratização do país. “Meu pai era fã do Geraldo Vandré e, por isso, me deu esse nome. Na verdade, ele teve dificuldade para me registrar. Sou mineiro, de Belo Horizonte, e, segundo ele, fui o primeiro Vandré registrado no estado de Minas Gerais. Quando foi ao cartório, a funcionária não queria fazer o registro porque dizia que Vandré não era nome próprio, mas sobrenome. Meu pai precisou provar que era, de fato, um nome, e conseguiu”. O relato faz sentido. Dados do IBGE mostram que, desde a década de 1960, apenas 55 pessoas receberam o nome Vandré em Minas Gerais. O estado ocupa a quinta posição no ranking nacional, enquanto São Paulo concentra o maior número de registros.

Para o segundo semestre, o ator também se prepara para voltar aos palcos com o espetáculo A Hora do Boi, que fará temporada de um mês no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte, a partir de agosto. A sensualidade, tema recorrente em seu personagem, também não é novidade na trajetória de Vandré. Durante a pandemia de Covid-19, ele criou a “Sexta Sexy”, uma série de transmissões ao vivo para discutir sexo, comportamento e relacionamentos. “Era uma brincadeira que eu fazia, mas foi maravilhosa. Essas lives me ajudaram muito durante a pandemia, um período muito difícil para todo mundo. Fiquei um ano sem trabalhar e foi uma forma de exercitar a criatividade, mesmo dentro de casa. As pessoas adoravam a ‘Sexta Sexy’. A gente fala pouco sobre sexo, mas, ao mesmo tempo, ele é amplamente consumido. Existe uma contradição: há muito moralismo em torno do tema, enquanto o consumo de imagens, pornografia e conteúdos ligados à sexualidade é enorme. Sexo vende. Isso acontece desde que o mundo é mundo, porque faz parte da condição humana.”

Vandré é um dos poucos mineiros a ter este nome (Foto: Divulgação)

Ao falar sobre a própria filosofia de vida, Vandré revela que encontra inspiração na ideia da impermanência, resumida em uma frase atribuída a Chico Xavier. “‘Isso também passará.’ Essa frase sempre vem à minha cabeça, tanto nos bons momentos quanto nos mais difíceis. Os momentos ruins passam, mas os bons também. Levo isso para tudo, inclusive para essa ideia de sucesso. O sucesso é uma construção, uma fantasia, assim como o fracasso. Não acredito nessas categorias tão rígidas. Você pode viver um momento muito bom ou um momento difícil, mas isso não define quem você é. Quando se acredita demais na ideia de sucesso, também se passa a acreditar na de fracasso. Acho que a vida é muito mais flexível. Existe uma enorme gama de tons entre o preto e o branco. As coisas são mais misturadas, menos definitivas. No fim das contas, nada permanece para sempre.”