*por Rodrigo Otávio
Boninho é, sem discussão, um dos maiores nomes da televisão brasileira. Reformulou programas, inventou formatos e foi o principal responsável por fazer do BBB o fenômeno que é — um dos reality shows de maior êxito da franquia mundialmente. O Big Brother Brasil não é só um programa bem-sucedido: é um caso de estudo, uma marca, uma instituição do calendário cultural do país. Por isso mesmo, o que está acontecendo com “A Casa do Patrão”, na Record, dói mais. Não como schadenfreude, ou seja, a diversão através da desgraça — mas como o registro inevitável de um equívoco de proporções raramente vistas na televisão brasileira.
O programa não repercute. Não gera corte. Não produz meme, não mobiliza as redes sociais, não move o Ibope de forma que faça sentido comentar. A estreia marcou cerca de 4 pontos; a média atual gira em torno de 3. Para piorar, a reta final da atração coincide com a Copa do Mundo — evento que monopoliza as atenções e do qual a Record sequer detém os direitos na TV aberta. Globo e SBT cobrem o mundial; a Record assiste de fora. Nem mesmo a Copa pode ser usada como trampolim.

Boninho é o nome à frente da “Casa do Patrão” (Foto: Divulgação/Record)
O site HT acompanhou o programa desde a primeira semana — que já era problemática em praticamente tudo. A música-tema, assinada por Zeca Pagodinho, tem qualidade, mas não dialoga com a atração; soaria bem como abertura de novela popular, jamais como trilha de reality. Houve erros técnicos, erros de escalação, problemas com a iluminação e um tom de apresentação de Leandro Hassum que nunca encontrou o seu registro. Nas semanas seguintes, Boninho tentou ajustar o que podia — flexibilizou regras, mexeu no tom, corrigiu até o filtro da imagem. Esforço visível, resultado invisível.
Na terceira semana, A Casa do Patrão já estava em ostracismo. Hoje, está simplesmente eclipsada — inclusive diante dos próprios realities da casa, como A Fazenda, onde é o formato mais rejeitado da emissora. O programa da Cariucha, na RedeTV!, têm audiência menor e ainda assim gera mais barulho. O silêncio em torno de “A Casa do Patrão” não é discreto: é ensurdecedor. Levanta-se, com alguma razoabilidade, a hipótese de que Boninho funcionaria especificamente dentro da Globo. Não se trata só da capilaridade da emissora — embora isso pese.
Até mesmo na Globo, programas como Estrela da Casa, Zig Zag Arena, Jogo Duro e PopStar não encontraram o público e saíram de cena. O BBB é o grande sucesso — e o carro-chefe de Boninho desde que passou a dirigir e criar formatos de reality. Há algo na sinergia entre o diretor e a emissora que, até agora, não se reproduziu em nenhum outro ambiente. O carnaval de 2024, também sob a tutela de Boninho, colheu críticas contundentes. The Voice, que ele assinou para o SBT, passou sem deixar rastro.

Leandro Hassum estava no tom errado no início do programa (Foto: Divulgação/Record)
A impressão que fica é a de que o público não rompeu com o formato — rompeu com o deslocamento. Boninho, longe da Globo, parece operar no vazio. E A Casa do Patrão é, até aqui, o símbolo mais eloquente desse descasamento. O que vem a seguir, só o tempo — e o Ibope — dirão.
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