“Quero dedicar esse prêmio a todas as mulheres que fizeram e fazem o cinema brasileiro” frisa Carla Camurati


A diretora, roteirista, produtora e atriz recebeu o Troféu Eduardo Abelin por sua trajetória no cinema brasileiro.
Com a presença de nomes como Murilo Rosa e Thaila Ayala, o segundo dia do Festival de Cinema de Gramado deu o que falar pela militância presente não só nos filmes como também nos discursos da noite

Carla Camurati recebe o troféu Troféu Eduardo Abelin no 47º Festival de Cinema de Gramado (Foto: Edison Vara / Agência Pressphoto)

*Com Thaissa Barzellai

Carla Camurati, Murilo RosaThaila Ayala. Esses foram alguns dos nomes que desfilaram pelo tapete vermelho na segunda noite da 47ª edição do Festival de Cinema de Gramado. Desde a exibição dos primeiros longas estrangeiros da Mostra Competitiva até a entrega do Troféu Eduardo Abelin, para a multifacetada Carla Camurati, a resistência foi reiterada e incentivada em suas variadas formas pelos artistas que estiveram no Palácio dos Festivais e nos roteiros exibidos. A noite ainda contou com homenagens de convidados aos parceiros do Festival que faleceram recentemente, como a curadora Eva Piwowarski, o crítico Rubens Ewald Filho e o ator Leonardo Machado, e com exibições de mais três produções brasileiras inéditas, como os curtas-metragens “A Mulher que Sou” (Nathália Teixeira) e “Marie” (Leo Tabosa). Vem saber o que tudo o que rolou no sábado!

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A expectativa para a segunda noite de Festival já se fazia presente desde os primeiros minutos que o tapete vermelho foi aberto. Isso porque um dos maiores nomes da história do cinema brasileiro – e feminino -, Carla Camurati, iria subir ao palco do Palácio dos Festivais para receber uma das principais honras da festa: o Troféu Eduardo Abelin. “O Festival de Cinema de Gramado é muito importante para minha vida. Foi aqui a primeira vez que eu participei de um festival e ganhei menção honrosa do júri com “O olho mágico do amor”. Eu nunca imaginei quando eu entrei nesse teatro que eu iria passar por tanta emoção”, afirmou emocionada durante o discurso.

Carla Camurati recebe o Troféu Eduardo Abelin das mãos do curador Marcos Santuário durante o 47º Festival de Cinema de Gramado (Foto: Edison Vara / Agência Pressphoto

O curador do Festival, Mário Santuário, afirmou: “Quando pensamos em a homenagear não foi difícil chegar ao teu nome, porque ele tem história”. E como tem!  Nos seus 36 anos de trajetória, a cineasta é celebrada não só pelos papéis à frente da câmera, que inclusive renderam Kikitos, como “O olho mágico do amor” (José Antônio Gárcia e Ícaro Martins) e “Eternamente Pagu” (Norma Bengell), como também pela bravura em se impor e lançar um dos trabalhos que ficariam para a história como um daqueles que salvou o cinema brasileiro da sua iminente “morte” – anunciada após o desmantelamento por parte do Governo Collor nos anos 90: o longa-metragem “Carlota Joaquina – A Princesa do Brasil”.

“Quando as pessoas virem Bacurau, elas vão se unir de novo”, afirma Sonia Braga 

Carla Camurati em cena no longa-metragem “O Olho Mágico do Amor”, interpretação que lhe rendeu Menção Honrosa no Festival de Cinema de Gramado

Todo esse caminho percorrido pela artista – e pela cinematografia do Brasil – está lado a lado ao do Festival e, por essas e tantas outras, é uma festa que é tão celebrada por aqueles que a homenageiam quanto por ela. “Gramado é um festival muito único no Brasil. Ele conseguiu passar por todas as curvas que o cinema brasileiro. Ele nunca foi interrompido, teve os melhores filmes, os maiores debates. Tivemos praticamente tudo o que o cinema brasileiro passou. São 47 anos de arte e de emoção aqui nessa tela iluminando o nosso cinema”. Foi assim, ao lado de companheiros da arte e sempre valorizada por projetos como o Festival, que Carla, entre uma obra e outra, alimentou o universo cinematográfico brasileiro com inspirações e referências para futuras gerações, principalmente as jovens cineastas que sonham ou que já estão por trás das câmeras pilotando as produções.

Todos os nossos aplausos a Carla Camurati (Foto: Cleiton Thiele / Agência Pressphoto)

A simbologia de ter um nome como ela em um ano que a ausência de presença feminina na direção dos longas-metragens da Mostra Competitiva – sabe-se que, de acordo com pesquisas divulgadas ao longo dos anos pela ANCINE, as mulheres conseguem ocupar, por questões financeiras, em maioria as produções de curtas -, não passou despercebida por ela e não à toa suas irmãs de profissão tiveram a menção que tanto merecem. “Queria dedicar esse prêmio a todas as mulheres que fizeram e fazem o cinema brasileiro”, afirmou. Durante o discurso, a diretora também homenageou figuras importantes que fizeram parte da sua vida, como o crítico Rubens Ewald Filho, curador do Festival que faleceu este ano. “Queria dedicar também ao Rubinho por ter devotado tanto amor ao cinema. Ele foi um nome muito importante para o cinema brasileiro”, completou.

De produções com Bruna Sonia Braga a Bruna Marquezine – Foi dado o start para o Festival de Cinema de Gramado

A representatividade feminina também esteve ressaltada já no primeiro filme da noite, o curta-metragem dirigido por Nathália Teixeira, “A Mulher que Sou”. Poética e estética, a obra acompanha a vida de Marta, uma mulher negra que, cansada do que vive, vai em busca de novos caminhos em uma nova cidade ao lado da filha. É assim, na simplicidade das cenas da personagem interpretada por Cássia Damasceno, que o público se depara com a libertação de uma mulher que, finalmente, se encontra em um novo momento e que se permite fazer o que parece simples somente na teoria: o afeto para si e para outros. “A sensação de cada momento fazendo esse trabalho é de que a Marta está abrindo um espaço até para a filha, abrindo um espaço de questionamento, de empoderamento. Abrir um espaço para entender o que estamos fazendo aqui, que mulher eu sou e o que eu quero é uma coisa muito difícil de se conquistar, principalmente esse olhar para si mesmo para saber se eu sou uma mulher inventada, que segue um padrão, ou se eu sou uma mulher que realmente olha para aquilo que me afeta e gera movimentos”, reflete.

Equipe do curta-metragem brasileiro “A Mulher que Sou” (Foto: Cleiton Thiele / Agência Pressphoto)

Pela primeira vez no Festival, a atriz entende qual o seu papel em trazer essa história para um evento como esse em um contexto social no qual as questões raciais e de gênero estão cada vez mais ganhando espaço e alterando o status quo. Para ela, embora emocionada pela oportunidade de trazer Marta para o público de Gramado, a noção de que a presença dela é uma ação política esteve em sua mente o tempo todo. “Falar sobre ser uma mulher negra que ocupa um espaço é generoso no sentido de obrigar as pessoas a olharem com afeto e empatia para aquilo que é diferente, porque nós somos diferentes e isso é importante e é bonito. Eu espero que a gente consiga olhar de verdade para as diferenças e ver que as pessoas têm direito e privilégios de fazer suas escolhas de ser quem eles são”, afirma.

Assim como Cássia, a equipe do segundo curta-metragem da noite, “Marie”, dirigido por Leo Tabosa, também fez do tapete vermelho um lugar para reflexão e resistência de minorias. No caso dessa história, que traz em cena a atriz Divina Valéria e Walley Rui, o universo LGBTQ ganha espaço na trajetória de Mário, que vai embora do sertão e, anos depois, retorna como uma mulher transgênero para o enterro do pai. Inspirado pelo primeiro curta que produziu, que também trazia luz a esse movimento só que pelo olhar de seis travestis em profissões desvinculadas a prostituição, o diretor sentiu necessidade de fazer mais um cinema político. “No momento que estamos vivendo, eu vi que era hora de me manifestar e trazer o meu cinema e tratar de dar voz e lugar de fala para essas personagens”, conta.

O diretor Leo Tabosa e a atriz Divina Valéria do curta-metragem brasileiro “Marie” (Foto: Matheus Zanchet / Agência Pressphoto)

Com uma pegada muito simples e clara, sem drama e questionamento, mais ou menos como o primeiro curta da noite citado acima, “Marie” vem para quebrar os estereótipos e tentar, de uma vez por todas, naturalizar o que sempre foi normal. No filme, os personagens Estevão (Rômulo Braga) e Alcina, interpretada por Divina Valéria, são responsáveis por levantar esta bandeira. Considerada uma das pioneiras do movimento transformistas no Brasil, a atriz, que percorreu o país com o projeto “Divinas Divas”, direção de Leandra Leal, ficou emocionada em levar essa vivência para um dos maiores eventos de cinema. Eu interpreto uma personagem que não tem nada a ver com a Divina Valéria. Eu dou vida a uma mulher muito sofrida, mãe de um homem de 40 anos, com cabelo branco. Tudo filmado no sertão da Paraíba. Muito feliz que depois de “Divinas Divas” eu pude percorrer vários festivais. Hoje, finalmente, estou no maior festival do Brasil”, comemora.

Atriz Divina Valéria do curta-metragem brasileiro “Marie” (Foto: Matheus Zanchet / Agência Pressphoto)

Na presença de convidados como o ator Murilo Rosa, fã assíduo do Festival, e das juradas Thaila Ayala e Viviane Pasmanter, a noite ainda contou com exibição do longa-metragem estrangeiro “A Son of a Man” (Jamaicanoproblem), uma obra equatoriana que acompanha a odisseia do jovem Pipe que, convidado pelo seu pai eremita, vai em busca do tesouro perdido do Inca Atahualpa. Já o escolhido para encerrar o segundo dia foi o longa brasileiro “Raia 4” (Emiliano Cunha), uma história sobre Amanda, uma jovem nadadora que, silenciosa e reservada, acaba se aproximando de Priscila, a colega de treino que torna-se sua adversária. Para Thaila, essa versatilidade de temas em uma mesma noite é o que torna a experiência, seja como jurada ou espectador, tão satisfatória para quem está presente em Gramado. “É o meu segundo ano aqui. No primeiro ano, eu vim com um filme (“O Matador”, de Marcelo Galvão), uma experiência totalmente diferente. Eu estou muito feliz de estar aqui como jurada. É uma responsabilidade enorme. Esse festival é muito lindo, com uma curadoria incrível, e é uma honra estar aqui”, conta a atriz que assume um dos lugares na banca de jurados dos curtas-metragens nacionais da Mostra Competitiva.

Estreando no Festival de Cinema de Gramado, Thaila Ayala conta como foi participar do primeiro filme nacional produzido pela Netflix

Com mais uma semana de evento pela frente, o Festival de Gramado continua recebendo muitos nomes importantes do cinema brasileiro. Hoje, a a equipe do filme “Legalidade” (Zeca Brito) sobe ao palco. A película acompanha a história emblemática de Leonel Brizola e terá uma sessão especial do longa como uma homenagem ao ator e apresentador do Festival Leonardo Machado, falecido ano passado após lutar contra o câncer no fígado.

Alguns amigos do artista já estão na Serra Gaúcha para prestar homenagens, como a apresentadora Renata Boldrini e o ator Murilo Rosa, presente na noite de ontem. “Leo era um cara realmente muito bacana e fomos ficando amigos no processo todo de filmagem de “A Cabeça de Gumercino Saraiva”, de Tabajara Ruas. Conheci os pais dele em um momento muito delicado, quando ele já tinha falecido, e eu aprendi a amar a família dele também. Então, estou aqui para homenagear o Leo e seus pais. A vida é assim, um dia eu e todos nós iremos embora, mas o importante é demonstrar o nosso carinho para pessoas que a gente gosta”, disse.