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Estreando no Festival de Cinema de Gramado, Thaila Ayala conta como foi participar do primeiro filme nacional produzido pela Netflix

No processo de preparação para o longa que fala sobre o sertão, Thaila morou com uma família local, matou galinha e cozinhou no fogão de lenha

Publicado em 20/08/2017 | Por Ana Clara Xavier

Em uma época em que pedaço de terra era coisa série e a justiça era decidida com a ponta de um revólver, os homens não conseguiam ter o controle de sua vida e as mulheres levavam uma vida sofrida de quem cresceu sem dizer o que pensa. É dentro dessa secura que a atriz Thaila Ayla se destaca dentro do filme ‘O Matador’, de Marcelo Galvão. Em cena, a profissional que costuma ter papéis de protagonistas ricas e glamorosas exibe todo o seu talento atrás de uma maquiagem que exibe mais olheiras do que a realidade. “É uma personagem diferente do que estou acostumada a fazer, sempre fiz mulheres ricas. Acho bacana o público poder ver outra parte de mim e conseguir perceber que sou uma artista em todos os sentidos”, comemora a artista. Contracenando com Diogo Morgado, Deto Montenegro e Etienne Chicot, ela vive a esposa de um dos protagonistas e traz consigo a realidade da mulher nos anos de 1910.

Para fazer uma personagem como esta, Thaila passou uma semana na casa de uma família local para aprender o linguajar e o costume do sertão nordestino. Durante a hospedagem, cozinhou em fogão a lenha e matou uma galinha para poder comer. “Eu já fazia isto com a minha avó, porque como nasci no interior já tinha o costume de pegar o animal no quintal e matar para comer. Para completar cozinhei em um fogão a lenha, coisa que nunca tinha usado antes. Foi um laboratório muito rico”, afirma a atriz. O tempo que passou no local foi tão proveitoso que queria ficar mais e as pessoas que conheceu ali, ela conta que quer levar para a vida dela. “Como atriz, é muito rico ter um contato com pessoas simples até hoje. Construí um poço artesanal para os moradores porque eles estavam sofrendo com uma seca de oito anos. Foi uma experiência maravilhosa como atriz e uma lição de vida. Mudou muita coisa para mim”, relembra.

A experiência já foi proveitosa e desafiadora desde o início. Antes mesmo de se preparar para o papel, precisou criar uma cena de sua cabeça para o diretor saber se ela seria mesmo a personagem. “O Marcelo me ligou quando estava em Vancouver e me avisou deste papel que, mesmo não sendo de protagonista, queria minha participação. Li o roteiro e decidi que iria participar na hora, no entanto, ele me pediu para mandar um vídeo do que imaginava para aquela personagem e tive que inventar um texto. Isto foi muito difícil porque naquele momento estava fazendo uma animação chamada Pica-Pau, na qual faço uma mulher completamente histérica e caricata, e estava falando inglês no meu dia-a-dia. Para atender este pedido, precisei ir ao linguajar brasileiro de 1910. Ao mesmo tempo, minha preparação começou neste momento já que precisei estudar, na internet, a história do sertão e do cangaço. Foi o meu primeiro contato com o filme”, explica.

Thaila Ayala precisou matar uma galinha durante o laboratório do filme (Foto: AgNews)

‘O Matador’ não recebeu este nome por um acaso. No filme e trailer, diversas cenas de mortes são reproduzidas o que chegou a chamar a atenção de algumas pessoas que passaram pelo Festival de Cinema de Gramado, onde o filme foi exibido.Acho engraçado as pessoas continuarem batendo na tecla da violência, porque cinema é entretenimento. Temos filmes de terror, drama e outros. Esta trama conta a história de um cangaço. Nós convivemos com aquelas pessoas durante o laboratório que fizemos e escutamos histórias da violência de hoje e ela não é muito diferente do que o filme exibiu. Eu achava que eram contadores de história, não acreditava ser possível que aquilo fosse real. Filhos e pais se matando por causa de terras há alguns poucos anos. Não sei porque bater tanto nesta tecla se não é uma realidade tão distante. Óbvio que existem elementos imaginários por ser cinema, mas não é só isso, é uma época”, rebate a atriz durante a coletiva de imprensa que aconteceu hoje. Para ela, a mensagem que deve ficar do longa é o afeto ente o pai e filho que pode, inclusive, mudar as coisas.

A produção de Marcelo Galvão está entre os sete longas nacionais que serão avaliados pelo júri para ganhar o título de melhor filme do Festival. Estar em Gramado concorrendo nesta categoria foi algo que nunca tinha ocorrido com Thaila que visita o local pela primeira vez como convidada que está sujeita a ganhar um título. “É uma honra poder participar deste evento que é o maior do Brasil e um dos mais importantes da América Latina”, celebra.

As novidades não param por aí. ‘O Matador’ foi exibido pela primeira vez em Gramado e acumulou um grande número de público que estava ansioso para ver a primeira produção nacional da Netflix. Para a atriz, não foi nenhuma novidade trabalhar com a plataforma on-line. “Não foi diferente trabalhar com a empresa, mas é impressionante a quantidade de assinaturas que a plataforma tem no mundo inteiro. É um prazer enorme fazer um filme que pode ser assistido por muita gente ao contrário de produções independentes que nem minha mãe conseguiu ter acesso”, comemora. O longa ainda não tem data de estreia, mas deve entrar na grade ainda este ano.

Thaila Ayala no tapete vermelho de seu filme O Matador (Foto: AgNews)

Na grade da empresa, só existe apenas outra produção com elenco nacional que está na série 3% cuja segunda temporada já está sendo gravada. A atriz acredita que o interesse da plataforma demonstra uma visibilidade que está se repetindo no cenário internacional. “A presença do mercado estrangeiro mostra como o meio está procurando se reinventar, como a própria Netflix. Mas acho isto muito válido porque mudanças acontecem a todo o momento e isto é positivo. Acredito que os olhos do mundo estão se voltando para as nossas produções. A minha experiência lá fora me mostra como esta relação mudou, nós não nos englobamos no patamar América Latina, somos brasileiros. Acredito que a Copa, as Olimpíadas e, até mesmo, o Impeachment contribuiu para este movimento”, comenta.

Atualmente, Thaila está morando fora do Brasil. Para este ano, ela prevê a estreia de cerca de dois filmes nacionais. “Volto para Los Angeles onde estou dublando Pica-Pau e tenho três longas estreando até o fevereiro aqui no Brasil. Tenho dois filmes internacionais que lançarão no ano que vem onde contracenei com Megan Fox e grandes atores de Hollywood”, conta. Garota poderosa!

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