Marco Pigossi: “Cultura é independência de pensamento. Ter seu ponto de vista e não virar uma massa de manobra”


O ator vive o policial ambiental, Eric, na nova série da Netflix, ‘Cidade Invisível’, o primeiro projeto live-action do premiado Carlos Saldanha, que aborda preservação ambiental, o resgate da cultura popular brasileira, além de explorar as relações humanas por meio do místico e do suspense . A trama que revive o folclore brasileiro está no Top 10 da plataforma. Marco fala sobre arte, cultura, políticas ambientais e o mercado audiovisual brasileiro. “A arte ela traz muita empatia para o ser humano então eu, sinceramente, acho que uma sociedade sem formação cultural é inexistente”, frisa

Marco Pigossi: "Cultura é independência de pensamento. Ter seu ponto de vista e não virar uma massa de manobra"

Áurea Maranhão, a detetive Marcia, e Marco Pigossi, o Eric, em Cidade Invisível  (Foto – Alisson Louback / Netflix)

*Por Rafael Moura

Um roteiro misterioso. Este é um dos pontos que fizeram da série ‘Cidade Invisível’ grande sucesso no Netflix. Logo no primeiro episódio, Gabriela, personagem de Julia Konrad, está com sua filha Luna, vivida por Manuela Dieguez, em uma festa junina na Vila Toré. A criança é atraída até a floresta e, de repente, um incêndio toma conta do local. Ao tentar proteger a pequena, Gabriela morre e seu marido, o detetive Eric, interpretado por Marco Pigossi, começa a investigar sua morte. O clima de suspense e segredos só crescem quando o policial ambiental encontra um boto rosa na areia da praia. Então, ele se envolve com outros personagens misteriosos, como o Saci, Curupira, Tutu Marambá, uma espécie de bicho-papão, Iara e a Cuca.

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Enquanto se aprofunda na investigação da morte de sua mulher, Eric conhece um universo folclórico que era protegido por sua esposa, mas no qual ele nunca acreditou. “Eu acho que série fala – acima de tudo – sobre a jornada humana, de se reconectar com as nossas essências e com a natureza. O folclore é nossa identidade, cultura e DNA. O que falta muito nas pessoas é a empatia com o outro. E poder trazer esse tema é muito importante e necessário para gente conseguir mudar o cenário que estamos hoje. Pode até demorar, mas é importante desde já começar a reverter essa situação”, explica, o protagonista Marco Pigossi.

Os detetives Marcia e Eric, de Cidade Invisível, encontram um Boto Rosa em uma praia no Rio de Janeiro  (Foto - Alisson Louback/ Netflix)

Os detetives Marcia e Eric, de Cidade Invisível, encontram um Boto Rosa em uma praia no Rio de Janeiro  (Foto – Alisson Louback/ Netflix)

Eric é o segundo policial da carreira de Pigossi, que na novela ‘A Regra do Jogo’, de João Emanuel Carneiro, 2o15, que viveu Dante. “São personagens muito diferentes, mas os dois têm uma certa obsessão em descobrir o que aconteceu: a verdade. A diferença é que em Cidade Invisível, o Eric tem uma questão muito pessoal que é a verdade por trás da perda da esposa. Vai além da profissão. Com o Eric eu tive que trazer uma bagagem emocional muito maior e mais intensa”, revela. E acrescenta: “Este personagem foi um presente! Ele tem um arco dramático muito interessante, humano e relevante. Eu como ator sempre começo a minha pesquisa pela profissão de quem vou interpretar. Então, eu fui entender como ele trabalha, sua função dentro da sociedade e mergulhar nesse universo. O segundo passo foi trabalhar essa relação que o Eric tem com a perda – o drama familiar, esse luto que sente com a perda repentina da esposa. E também como ele lida com a filha nesse momento tão delicado. É uma jornada muito bonita e muito humana a dele. Eu acho que a série representa bem essa jornada que muitos de nós passamos ao se deparar com o novo, o desconhecido, o diferente… E a importância de entender o outro”.

Marco Pigossi, o Eric e Alessandra Negrini, Inês em Cidade Invisível (Foto – Alisson Louback/ Netflix)

Vale destacar a fotografia da série, que foi gravada no Rio de Janeiro e mimetiza o mundo folclórico ao mundo real de maneira leve e sutil. Além disso, a caracterização dos personagens chama a atenção por não se prender aos elementos clássicos do folclore. Logo, é difícil fazer uma crítica sem elogiar o toque moderno que as histórias ganham enquanto as criaturas acompanham a evolução de nossa sociedade contemporânea.

Embora seja uma série fantástica, Cidade Invisível deixa um pouco os efeitos visuais de lado. Isso pode parecer um ponto negativo, mas a verdade é que a ausência de efeitos muito elaborados torna a série ainda mais próxima do nosso mundo. Por último, vale ressaltar ainda o desenvolvimento dos personagens, todos humanizados e abandonando o conceito de inteiramente bons ou maus. “Essa mistura é muito interessante e foi uma das grandes sacadas do Carlos nesse projeto: colocar esses personagens do folclore em um mundo contemporâneo e urbano. Fica tudo muito interessante de assistir. Eu sempre gostei de histórias de fantasia e poder trabalhar com isso é muito gratificante – temos tantas histórias para contar”, frisa o ator.

Marcos Pigossi e Carlos Saldanha durante as gravações de Cidade Invisível (Foto – Alisson Louback/ Netflix)

A série, com sete episódios, é uma criação do diretor e produtor Carlos Saldanha, com direção geral de Luís Carone. “Trabalhar com ele foi um presente. O Carlos é uma pessoa incrível. Foi lindo ver a paixão dele pela história que ele estava contando. A presença no set foi fundamental para nós (como time) e isso se reflete no sucesso que a série vem fazendo. Ele contagiava a todo mundo com essa alegria e amor pelo projeto. Além disso, ele é uma voz muito importante para o mundo e – assim como em projetos anteriores – está mais uma vez levando o Brasil e nossa história para todos. Eu tenho muito orgulho dessa parceria que construímos”, elogia. A saga ainda conta com Alessandra Negrini, Jessica Córes, Fábio Lago, Wesley Guimarães, Jimmy London, José Dumont, Victor Sparapane, Áurea Maranhão, Samuel Assis, entre outros.

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Manuela Dieguez, a Luna e Marco Pigossi, o Eric, de Cidade Invisível (Foto – Alisson Louback/ Netflix)

Cidade Invisível traz temas relevantes e atuais como a preservação ambiental, o resgate da cultura popular brasileira, além de explorar as relações humanas por meio do místico e do suspense. “A formação cultural é a base da sociedade. Eu acho que hoje no Brasil, infelizmente, ainda confundimos muito formação cultural com educação: são duas coisas que caminham paralelamente, mas que são ambas fundamentais. A educação é aquela que vai te dar a possibilidade de ter acesso a oportunidades dentro da sociedade e a cultura vai lhe dar uma independência de pensamento, para que você consiga pensar por si só e não vire uma massa de manobra… Ter o seu ponto de vista das coisas. A arte ela traz muita empatia para o ser humano então eu, sinceramente, acho que uma sociedade sem formação cultural é inexistente”, finaliza.

Marco Pigossi vive o protagonista o Eric, da nova serie do Netflix, Cidade Invisível (Foto – Alisson Louback/ Netflix)