*por Rodrigo Otávio
Lançado em 2024, o +SBT chegou com um objetivo aparentemente claro: posicionar a emissora no disputado mercado de streaming e dos canais FAST — transmissões totalmente online com grade programada e segmentada. Na largada, o aplicativo exibia um cardápio generoso: +Silvio Santos (com íntegras dos programas do fundador), +Novelas, +Humor, +Saudade, +Pop, +Criança. A aposta na nostalgia era evidente e, convenhamos, não sem fundamento — o acervo do SBT é rico e subexplorado. Havia também uma intenção mais ambiciosa: rivalizar com a Globo, que consolidava o Globoplay e avançava com seus próprios canais FAST, como o GE, o Viva 70 e 80, entre outros.
O problema é que intenção e execução raramente andam juntas por aqui. Muito rapidamente, a instabilidade técnica do aplicativo e a ausência de renovação de conteúdo inédito ou original revelaram o que a direção da emissora preferia não admitir: o +SBT não decolou. Enquanto o Globoplay consolidava base de usuários e investia em produções próprias, o app do SBT definha. A emissora, ironicamente, funciona melhor no YouTube — plataforma gratuita, onde quem capitaliza não é o SBT, mas o próprio Google. O impasse estratégico está escancarado: insistir numa plataforma proprietária que não rende ou alimentar uma vitrine onde o lucro escorre para o outro lado?

Trecho da abertura da novela “Amor e Ódio”, uma das mais antigas do SBT disponíveis na plataforma (Foto: Reprodução/+SBT)
A resposta da emissora, até agora, tem sido o silêncio disfarçado de rebranding. Na última semana, o +SBT voltou a dar o que falar — e não por boas razões. O canal +SBT Raiz, que deveria ser o coração nostálgico da plataforma, passou por uma lobotomia editorial: a partir de junho, exibirá exclusivamente edições do Show do Milhão. Fim de linha para “Casa da Angélica”, “Show Maravilha”, “Jô Onze e Meia” e “Programa Livre” — atrações que justificavam a própria existência do canal. A mudança não é só um erro de curadoria; é a confissão pública de que a premissa original foi abandonada. A variedade, que era a alma do Raiz, foi trocada por um único programa, por mais querido que ele seja.
E o encolhimento não para aí. A extensa grade de canais FAST foi reduzida a quatro: SBT News, SBT Novelas, SBT Kids e o já moribundo SBT Raiz. Quantidade não é qualidade, mas quatro canais para uma emissora do porte do SBT é pouco.

Programa apresentado por Sìlvio Santos vai ocupar a grade do +SBT (Foto: Reprodução/+SBT)
O SBT Novelas, por sua vez, merece atenção especial — pela lógica torta que o norteia. Quem quiser acompanhar “Amor e Ódio” no canal precisa montar uma planilha: um capítulo por dia durante a semana e uma maratona de cinco episódios aos domingos. É uma grade que evoca, para pior, os tempos do Viva — canal que oferecia reprises com horários fixos e previsíveis. Na estreia de Vale Tudo, por exemplo, o Viva exibia o inédito às 0h45 com reprise às 13h30. Havia método. No +SBT, há improviso.
O saldo é inequívoco: o +SBT chegou para disputar território com o Globoplay usando o arquivo histórico da emissora e a força da nostalgia — e tropeçou. Tentou ser uma alternativa de streaming com telenovelas — e tropeçou. Tentou ocupar um espaço relevante num mercado cada vez mais competitivo — e tropeçou de novo. Segundo dados de plataformas de download, o app do SBT figura na posição 52 entre os mais baixados, enquanto o Globoplay está no top 10. A distância não é apenas numérica: é estratégica, editorial e, sobretudo, de visão de negócio.
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