Carol Castro será perita forense com surto psiquiátrico em ‘Insânia’ e revela: ‘Tive crises de ansiedade na pandemia’


A atriz está em quatro filmes – incluindo ‘Insânia’, série da Star+ – serviço de streaming da The Walt Disney Company -, na qual dará vida à Paula, uma perita forense que sofre um surto após receber a notícia da morte da filha e acaba internada em uma clínica psiquiátrica. Em um papo franco, ela fala sobre saúde mental na pandemia: “Confesso que tinha a sensação de me sentir meio inútil de certa forma. De não conseguir ficar tão bem quanto os outros. Muitas vezes, no meio disso tudo, quando tinha que sair, o coração ficava acelerado, as mãos suavam frio e a terapia foi me ajudando. Uma vez, precisei fazer uma ressonância magnética, fui sozinha e tive uma crise de ansiedade no meio do exame. Isso também faz parte desta dificuldade feminina de pedir ajuda, achar que segura tudo”

Carol Castro será perita forense com surto psiquiátrico em 'Insânia' e revela: 'Tive crises de ansiedade na pandemia'

*Por Brunna Condini

Carol Castro está mais liberta e criativa do que nunca. Em papo exclusivo ao site, a atriz de 37 anos fala do trabalho intenso na pandemia, de autoconhecimento e maturidade profissional. E conversa abertamente sobre ansiedade e medos, amor e as ilusões do mundo artístico. Carol se prepara para voltar ao ar em um gênero e papel bem diferentes dos que o público se acostumou a vê-la nos últimos anos na TV. Em ‘Insânia‘, série da Star+ – serviço de streaming da The Walt Disney Company -, ela dará vida à Paula, uma perita forense que sofre um surto após receber a notícia da morte da filha e acaba internada em uma clínica psiquiátrica.

A atriz estava gravando no Sul quando começou a pandemia e os trabalhos da série foram interrompidos, só sendo finalizados no fim do ano passado, no Uruguai. “A sensação de não conseguir concluir e ter que voltar um tempo depois, já não sendo a mesma pessoa, é muito forte. Mas, quando a pandemia começou, eu meio que já previ a gravidade da situação. Hoje vejo que essas mudanças todas só acrescentaram ao projeto ao invés de colocá-lo em risco. Todo mundo estava à flor da pele. Então, reencontrar os colegas, viajar para trabalhar, foi um misto de medo e alívio. Além disso, a vida no Uruguai é bem diferente. Enquanto aqui estávamos com números horríveis, situação precária de saúde, lá tudo era diferente, melhor, no que diz respeito ao enfretamento da Covid-19”, recorda. “Tentamos fazer o melhor. Sabe aquela brincadeira de dizer que envelhecermos dez anos no período? Foi por aí. Mas usamos a dificuldade a favor, canalizando a experiência na arte. De certa forma foi mágico, nos aproximou. Virou uma terapia de grupo”, diz Carol, que encerrou seu contrato exclusivo com a Globo no ano passado.

"Falar da saúde mental nunca foi tão importante. Tentei cuidar de mim da melhor forma possível. A pandemia mexeu com tudo mundo, cheguei a ter crises de ansiedade" (Foto: Vinicius Mochizuki)

“Falar da saúde mental nunca foi tão importante. Tentei cuidar de mim da melhor forma possível. A pandemia mexeu com tudo mundo e cheguei a ter crises de ansiedade” (Foto: Vinicius Mochizuki)

Com a realidade do momento, veio a certeza em Carol de que precisava se acolher amorosamente. Ela buscou intensificar a terapia e o autocuidado. “Falar da saúde mental nunca foi tão importante. Tentei cuidar de mim da melhor forma possível. A pandemia mexeu com tudo mundo e cheguei a ter crises de ansiedade. Me sentia mal e ficava mal por me sentir assim, porque sabia que tinha gente pior. Acompanhava as redes sociais, via que tinha muita gente se reinventando e pensava que nada funcionava para mim. Estava criativamente paralisada. Só conseguia fazer as atividades do dia a dia. Mas ajudava as instituições, gravei vídeos educativos para ONU e fiz o que pude”, relembra a atriz.

“Confesso que tinha a sensação de me sentir meio inútil de certa forma. De não conseguir ficar tão bem quanto os outros. Muitas vezes, no meio disso tudo, quando tinha que sair, o coração ficava acelerado, as mãos suavam frio e a terapia foi me ajudando. Uma vez, precisei fazer uma ressonância magnética, fui sozinha e tive uma crise de ansiedade no meio do exame. Isso também faz parte desta dificuldade feminina de pedir ajuda, achar que segura tudo. Estamos muito sensíveis, precisamos nos cuidar. Só saio de casa para trabalhar e faço exames PCRs constantes. Essa nova realidade mexe muito. Quem está de fato se cuidando e com consciência de tudo o que está acontecendo, sente uma mistura de emoções: revolta, indignação por quem está negando tudo e não quer vacinar. Felicidade com o avanço da vacinação e tristeza por quem não conseguiu a tempo”.

"Essa nova realidade mexe muito. Quem está de fato se cuidando e com consciência de tudo o que está acontecendo, sente uma mistura de emoções" (Foto: Vinicius Mochizuki)

“Essa nova realidade mexe muito. Quem está de fato se cuidando e com consciência de tudo o que está acontecendo, sente uma mistura de emoções” (Foto: Vinicius Mochizuki)

Foi também em Nina, sua filha de 4 anos, e no trabalho para dar corpo e alma às novas personagens, que a carioca encontrou refúgio e fortalecimento. Aliás, da arte e das oportunidades de explorar sua multiplicidade, a atriz vem colhendo os louros e a maturidade profissional: tanto que saiu vencedora com o Kikito de Ouro do Festival de Gramado do ano passado por seu trabalho no filme ‘Veneza’, de Miguel Falabella.

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Ainda no audiovisual, ela se prepara para lançar a comédia ‘Dois + Dois’ , em 12 de agosto, além de estar na reta final das filmagens da série ‘Maldivas‘, para a Netflix. “Esse ano a versatilidade que sempre foi meu objetivo vai ficar mais evidente ainda. Tenho vivido papéis muito diferentes. Em ‘Veneza’, a Madalena, uma prostituta que vive esse amor intenso (por um travesti), que traz o amar sem rótulos e preconceitos. No filme, uma mulher que está casada com um cara há 16 anos, tenta reinventar a relação. E em ‘Insânia‘, essa policial que sente uma dor imensa, me despi de vaidades. Cada vez que tenho essa sensação de fazer um papel fora da minha zona de conforto, vejo que estou no caminho certo”, avalia Carol, que está na reta final das gravações da série ‘Maldivas‘, ao lado de Bruna Marquezine, Manu Gavassi, Natalia Klein e Vanessa Gerbelli. “Tenho um lado intuitivo e intenso muito forte, mas tem estudo e uma maturidade na profissão que vem acontecendo desde a novela ‘Velho Chico‘ (2016) pra cá. Até então, eu me deixava mais levar pelo que aparecia”.

Carol Castro, Carmen Maura e Danielle Winits em 'Veneza': "A Madalena, essa prostituta que vive esse amor intenso (por um travesti), que traz o amar sem rótulos, preconceitos" (Divulgação)

Carol Castro, Carmen Maura e Danielle Winits em ‘Veneza’: “A Madalena, essa prostituta que vive esse amor intenso (por um travesti), que traz o amar sem rótulos, preconceitos” (Divulgação)

Com os pés no chão, mas mergulhando fundo

Carol começou a carreira no teatro cedo, aos 9 anos, levada pelo pai, o diretor e ator Lucca de Castro. “Fiquei muito tempo amadurecendo aos olhos do público, já que comecei a fazer TV com 19 anos. Apesar do conhecimento, era muito movida pela intuição. Mas faltava um clique para acreditar em mim. Quando trabalhei em ‘Velho Chico‘ com o Luiz Fernando Carvalho, vi que me questionava se ia conseguir. A personagem era uma cantora (Iolanda), e eu me cobrava muito. O Luiz ajudou nesse processo de me colocar em situações que fluíam. Já fiquei cantei quase duas horas em cena. no limite do físico e do psicológico, e foi quase uma catarse. Senti um reconhecimento interno e externo que não tinha me atentado antes. E fui entrando mais fundo em cada personagem. Hoje faço playlists para me concentrar em cada personagem”.

"Tinha muito da intuição, embora também estudasse, já que comecei a fazer TV com 19 anos. Mas faltava um click para acreditar em mim" (Foto: Vinicius Mochizuki)

“Tinha muito da intuição, embora também estudasse, já que comecei a fazer TV com 19 anos. Mas faltava um click para acreditar em mim” (Foto: Vinicius Mochizuki)

Ela garante que nunca se deslumbrou com o meio artístico, pelo contrário. “Minha vida na arte não teve início com a ter vida pública. Fiz muito teatro. Na Fundição Progresso, por exemplo, a bilheteria era simbólica e muita gente ia por conta dos lanches. Vivenciei muitas realidades, que só me confirmaram que a fama veio para que eu continue tendo meu trabalho e sendo reconhecida. Não vivo no mundo de ilusão que ela traz. Tenho tentado seguir minha essência”, avalia, acrescentando: “Tenho um pé no chão que vem desde sempre, de família. Cresci nesta realidade, vendo atores famosos, mas como seres humanos normais. Via muito na época do teatro, atores como meu pai, tirando dinheiro do bolso, fazendo por amor, como muito respeito e honra, vivendo a profissão”.

Tempos duros e amor

Namorando Bruno Cabrerizo desde 2019, Carol conta que ele tem se dividido entre o Brasil e a Itália, de onde acabou de voltar e onde moram seus filhos (a Gaia e o Ella). Para a atriz, o fato do ator ser pai faz toda diferença para entender sua própria rotina com Nina. “Acaba sendo uma relação mais madura, mais parceira neste momento. Só sendo pai e mãe para entender. Os filhos são prioridade. Vivemos uma relação cúmplice, com admiração, passando por todas as dificuldades e  um dia de cada vez. O Bruno está aqui, porque está gravando (o ator está na próxima das 19h, ‘Quanto mais vida melhor’). Quando ele volta para o Brasil faz exame, mas sempre fazemos a quarentena, porque sou bem cuidadosa”. E revela que o casal não faz planos para filhos juntos: “Não pensamos mesmo nisso. Ele já tem dois, longe, na Itália. Eu tenho a Nina. E tem a situação do mundo. Estamos bem assim, com os nossos”.

Carol e Bruno Cabrerizo: "Acaba sendo uma relação mais madura, mais parceira neste momento. Só sendo pai e mãe para entender. Os filhos são prioridade" (Reprodução Instagram)

Carol e Bruno Cabrerizo: “Acaba sendo uma relação mais madura, mais parceira neste momento. Só sendo pai e mãe para entender. Os filhos são prioridade” (Reprodução Instagram)

Carol Castro lamenta o cenário atual, mesmo tentando pensar em dias melhores. “Quando penso qual mundo vou deixar para minha filha, me preocupo. Haja terapia. As pessoas estão muito intolerantes. Tem um lado sem limites, sem fronteiras da internet, das fake news, da ‘lavagem cerebral’. Fico pensando como vai ser para essa geração. Ao mesmo tempo, acredito que é a geração que vai fazer algo pelo mundo como está”. E diz que mesmo com Nina tão pequena, procura conversar a respeito do que está acontecendo. “Digo que tem um ‘dodói’ na rua perigoso e que, por isso, vamos usar máscaras. Comecei colocando máscaras nas bonecas. Hoje ela usa na boa, me lembra da máscara e do álcool para sair”, conta. “Tirei Nina da escolinha no final de 2019 e, depois, com a duração da pandemia, não fiquei segura para ela voltar. Nina é muito pequena, penso na sua saúde. Tenho uma estrutura em casa que me dá suporte e a estimulo no dia a dia. Vou colocá-la na escolinha de volta, já estou olhando, sei que não dá para adiar tanto tempo. Mas procuro conversar com ela e manter uma rotina”.

A atriz e a filha Nina: "Digo que tem um dodói na rua perigoso e que por isso vamos usar máscaras" (Reprodução Instagram)

A atriz e a filha Nina: “Digo que tem um dodói na rua perigoso e que por isso vamos usar máscaras” (Reprodução Instagram)

Já tendo tomado a primeira dose da vacina contra a Covid-19, Carol reprova as atitudes pouco empáticas em relação à pandemia. “Hoje estamos enxergando bem quem respeita ou não o outro. E quem toma decisões para além de si, pensando no coletivo. Passei por isso na família também, com amigos, debatendo questões envolvendo saúde, política. Tem gente que ainda acredita em certas teorias da conspiração, por exemplo. Tento não julgar, mas, às vezes, é impossível. Se der para me afastar, afasto. Se der para conversar, converso. Além disso, também estamos vendo com quem podemos contar, quem se preocupa de verdade conosco. Quando mando mensagem para alguém hoje, pergunto se está com saúde, porque a perguntar ‘se está bem’, é cruel”. E acrescenta: “Tenho uma tia na família que não quis se vacinar e hoje está entubada. Fico pensando se ela tivesse se vacinado se não estaria melhor. Minha tia está em estado gravíssimo”.