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“Para mim, sempre foi Deus no céu e Fernanda Montenegro na Terra”, dispara Carol Castro

Em conversa exclusiva com o Site HT, a atriz Carol Castro falou sobre a personagem Madalena, papel no longa de Miguel Falabella, "Veneza", que lhe rendeu um Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival de Cinema de Gramado. Carol ainda bateu um papo sobre maternidade e novos projetos, sendo um deles longa-metragem o lançamento de “Juízo”, com direção de Andrucha Waddington e texto da atriz Fernanda Torres e no qual contracenou com Fernanda Montenegro

Publicado em 30/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Com Thaissa Barzellai

Há um entendimento subliminar entre quase todos os atores: os personagens, muitas vezes, que os escolhem. E quem reforça essa frase é Carol Castro. Com uma filha, Nina, que na época tinha seis meses e, ainda amamentando, a ideia de viajar a trabalho parecia fora de cogitação. Até que a atriz recebeu o convite para filmar no Uruguai e na Itália o longa-metragem “Veneza”, obra assinada por Miguel Falabella que acompanha Gringa (Carmen Maura), uma cafetina que, prestes a morrer, decide ir atrás do amor do passado, e conta com a ajuda das prostitutas que se juntam a uma trupe circense para realizar esse sonho. O papel de Carol? O nome dela é Madalena, a recém-chegada no bordel que, apesar dos pesares, carrega em si um frescor de esperança e do amanhã. “Essa personagem estava predestinada para uma outra atriz, que inclusive foi a que participou da leitura no Rio, mas aconteceu do universo me colocar à disposição da Madalena. Quando a produtora de elenco falou o nome do Miguel, Dira Paes, Danielle Winits, quase que eu disse que nem precisaria ler o roteiro, seria ‘sim’ na hora. Quando, finalmente li, eu me apaixonei por ela”, lembra Carol. 

Du Moscovis, Dira Paes, Miguel Falabella, Carol Castro e Danielle Winits na exibição de “Veneza” no Festival de Cinema de Gramado (Foto: Agência Pressphoto)

Sem ter como dizer não, quase como num estalar de dedos, tudo precisou ser alinhado em menos de um mês para que Carol pudesse viver Madalena. Organiza gravação de novela. Liga para a babá. Prepara bombinha de sucção de leite materno. Primeira viagem de avião com a filha. Alguns dias longe. Outros perto. A maternidade acabou se transformando, durante o processo de filmagens, na porta de entrada emocional que a atriz precisaria para viver de corpo e alma a personagem. “Eu estava no momento certo para dar vida à personagem e representar esse amor, entrega, pureza, na vida e para Madalena”, diz Carol que relembra com carinho a ajuda dos colegas de elenco durante as filmagens. 

Esse amor que caminha lado a lado da personagem vem não só dessa faceta sonhadora, tão presente, como também do amor inesperado que bate às portas do bordel: um jovem que sente atração por Madalena e ao mesmo tempo tem o desejo de se vestir de mulher, o verdadeiro gênero de sua alma. Sem questionamentos, a jovem prostituta mergulha nessa relação de braços abertos e faz de tudo para que os dois possam viver uma vida livre de qualquer tipo de preconceito ou censura à liberdade de ser quem eles quiserem. O filme, que tem tanto desse universo lúdico, traz poesia na entrega dos dois, sem precisar de mais nenhum elemento técnico para contar essa história de amor. “Madalena está indo atrás de um amor do futuro sem rótulos e sem gênero. É um assunto muito importante de ser colocado em pauta, ainda mais hoje em dia que tem tantas pessoas sendo assassinadas, muitas vezes por pessoas da família, por agressões gratuitas na rua só porque querem mudar de sexo, porque se vestem de maneira diferente, porque é transexual, homossexual, e poder representar de uma forma poética e sutil esse tipo de debate para mim é muito importante”, declara. 

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Ao trilhar esses caminhos apaixonantes e mágicos desta jovem sonhadora, Carol Castro não só mostrou como é plural como atriz de televisão e de cinema e como também pode realizar sonhos enquanto artista. Sua interpretação de corpo e alma no filme veio como um acalento para os espectadores do Festival de Cinema de Gramado, onde o filme foi exibido pela primeira vez e competiu na Mostra Competitiva. Quem estava ali presente, fez questão de aplaudir a atriz quando seu nome foi anunciado como ganhadora do Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante, que dividiu com a atriz Soia Lira, de “Pacarrete”. “Eu estou realizando um sonho hoje e queria dedicar este prêmio à minha filha. Eu fiz esse filme seis meses depois de ela nascer. E foi um renascimento para mim”, disse a atriz emocionada durante o agradecimento. Gramado não foi a única realização que ela leva dessa personagem. Além do encontro com Carmen Maura, musa do cineasta Pedro Almodóvar, Carol pôde beber da fonte do diretor Miguel Falabella, amigo de profissão que ela sempre admirou. “Eu sempre apreciei a atuação de Miguel, mas quando você trabalha diretamente sob a direção dele é diferente. O set é muito leve e ele sabe exatamente o que ele quer. Ele tinha o filme todo na cabeça, então nos conduzia como uma dança da maneira mais bela possível”, relembra.

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A oportunidade de poder viver essa aventura dentro e fora das telonas, com a ajuda dos colegas de cena nos bastidores, em um momento no qual a grande maioria das mulheres é desvalorizada no mercado de trabalho – dados da pesquisa divulgada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostram que metade das mulheres são demitidas após licença-maternidade -, foi uma em um milhão no contexto atual do papel da mulher na sociedade. “A mulher precisa ter essa chance de se esforçar, de equilibrar esses dois lados da vida”, afirma. Consciente da sua posição social, a ideia de algum dia não conseguir trabalhar lhe remete a um futuro que ela não quer pertencer. Para ela, é preciso, como mãe e mulher, conseguir encontrar esse equilíbrio entre os papéis que exerce diariamente. É quase como se a atriz precisasse da mãe e vice-versa. “ Você se questiona, você se culpa, mas ao mesmo tempo você vê que é necessário e é transformador ter esse lado, além de fazer bem para os filhos verem que você é feliz no trabalho. Toda vez que eu vou trabalhar, eu sempre falo sorrindo que trabalhar é bom, que faz parte da vida”, diz. 

Já que trabalho faz parte de quem ela é, Carol está prestes a dizer adeus à personagem Helena Torquato, da novela “Órfãos da Terra” e o cinema brasileiro é a nova parceria do momento. Previsto para ser lançado em dezembro, o longa-metragem “O Juízo” traz a atriz no papel de Tereza. Com direção de Andrucha Waddington e texto da atriz Fernanda Torres, o filme é um thriller espírita, gênero quase não explorado pela cinematografia do Brasil, que se passa dentro de um casarão. Assim como “Veneza”, essa obra vem para lançar um outro olhar sobre a atriz e de quebra realizar mais alguns sonhos que estavam na gaveta. “Eu pude trabalhar com a Fernanda Montenegro, minha diva mór. Para mim, sempre foi Deus no Céu e Fernanda Montenegro na Terra. É alguém que eu admiro como ser humano, como profissional, ela está sempre disposta, não tem tempo ruim”, afirma. Além da matriarca das artes cênicas, o elenco conta com nomes como Criolo e Felipe Camargo. Ainda há planos para estreias de Carol pelos palcos. Ela deixa a certeza de que algo vai acontecer, afinal, “ela ainda está voltando”. Bem-vinda, Carol!

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