Bruno Montaleone se despe dos rótulos em ‘Homem com H’, entrega vulnerabilidade em cena e fala de liberdade para amar


Na cinebiografia de Ney Matogrosso a terceira maior estreia de um filme nacional em 2025 e, que a partir de 17 de junho, chega ao catálogo da Netflix, o ator vive Marco de Maria — companheiro de Ney por 13 anos, figura central em sua vida, que morreu de Aids na década de 1990. Bruno vem se descolando do rótulo de galã ao investir em personagens cada vez mais densos e complexos, e conta como o mergulho no longa de Esmir Filho,foi uma experiência transformadora. Também fala das vulnerabilidades que enfrentou como homem e como artista, comenta se viveria um romance com outro homem caso se apaixonasse, e reflete sobre os estereótipos que tentam acompanhar os atores ao longo da carreira: “As pessoas chamam de galã, por exemplo, em tom de elogio, então, não recebo como se fosse depreciação; ao mesmo tempo, estereótipos restringem, e normalmente é bom se afastar do que limita. Cada vez menos os personagens são maniqueístas, e cada vez mais entendemos a pluralidade e profundidade dos outros”. Agora, ele retorna ao universo da Disney com a sequência de ‘Perdida’, intitulada ‘Encontrada’, na qual interpreta o papel do protagonista Ian Clarke, um personagem especialmente querido pelos bookstans

*Por Brunna Condini

A cinebiografia de Ney Matogrosso, Homem com H, teve a terceira maior estreia de um filme nacional em 2025 e, a partir de 17 de junho, chega ao catálogo da Netflix. Dirigido por Esmir Filho, o longa já é um sucesso de público e crítica, com destaque para a performance arrebatadora de Jesuíta Barbosa no papel de Ney. Outro nome que chama atenção é o de Bruno Montaleone, que interpreta Marco de Maria — companheiro de Ney por 13 anos, figura central em sua vida. Aos 28 anos, Bruno vem se descolando do rótulo de galã ao investir em personagens cada vez mais densos e complexos. Nesta entrevista, Montaleone revela por que viver Marco de Maria em Homem com H foi uma experiência transformadora. Fala das vulnerabilidades que enfrentou como homem e como artista, comenta se viveria um romance com outro homem caso se apaixonasse, e reflete sobre os rótulos que tentam acompanhar os atores ao longo da carreira.

Ao falar sobre os momentos marcantes do processo do longa, entre eles, a aproximação com Ney Matogrosso no set, Bruno ressalta: “Ney passou um dia de gravação do começo ao fim. De cara, foi um choque finalmente encontrar a figura de quem tanto estávamos falando. Parecia, sei lá, uma figura mítica. Ao mesmo tempo, um homem com uma alma jovem, supereducado e calmo. Lembro de quando o vi pela primeira vez, sem ser nos palcos. Estava na fase de testes ainda, voltando para o Rio, e ele estava no mesmo avião que eu! Fiquei com muita vontade de ir falar com ele… e logo pensei: Será que posso fazer perguntas sobre o Marco? Eu bem que queria (risos)”. E conta sobre os planos pós sucesso do filme: “Além de estar envolvido em projetos autorais, retorno ao universo da Disney com a sequência de ‘Perdida’, intitulada ‘Encontrada‘, na qual interpreto o papel do protagonista Ian Clarke, um personagem especialmente querido pelos bookstans. Estou animado com esse reencontro”.

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Bruno Montaleone vive companheiro de Ney Matogrosso em 'Homem com H', papel que marca um novo momento em sua carreira – mais intenso e longe dos rótulos (Foto: Gabi Lisboa)

Bruno Montaleone vive companheiro de Ney Matogrosso em ‘Homem com H’, papel que marca um novo momento em sua carreira – mais intenso e longe dos rótulos (Foto: Gabi Lisboa)

As pessoas chamam de galã, por exemplo, em tom de elogio, então, não recebo como se fosse depreciação; ao mesmo tempo, estereótipos restringem, e normalmente é bom se afastar do que limita. Cada vez menos os personagens são maniqueístas, e cada vez mais entendemos a pluralidade e profundidade dos outros. Ainda assim, sempre vai existir, especialmente em obras de ficção, o bem e o mal, o mocinho e o vilão, quase como opostos absolutos, e tudo bem também – Bruno Montaleone

E complementa sobre o assunto: “Na minha carreira, especialmente nos últimos trabalhos, fiz coisas bastantes distintas: um exemplo disso foi o último ano, em que vivi um príncipe no filme ‘Perdida‘, da Disney, e na sequência um assassino em ‘O Lado Bom de Ser Traída’, da Netflix. Fiz também um cafajeste na novela  ‘Amor Perfeito‘ (2023), da Globo, aí um mocinho em  ‘De Volta aos 15′, série jovem e super leve da Netflix. Depois, embarquei na densidade de ‘Homem com H’, em um personagem que, para além de tudo, enfrenta a AIDS… Enfim,  o melhor é poder exercer essa versatilidade, que já é algo que vem sendo construído ao longo da caminhada, não de hoje. Cada personagem que eu interpreto é uma chance de reafirmar que a atuação é um ofício vivo, que se reinventa a cada história”.

Julio Reis, que faz Cazuza; Jesuita Barbosa, que faz Ney Matogrosso; e Bruno Montaleone, que é Marco de Maria em 'Homem com H' (Divulgação)

Julio Reis, que faz Cazuza; Jesuita Barbosa, que faz Ney Matogrosso; e Bruno Montaleone, que é Marco de Maria em ‘Homem com H’ (Divulgação)

Homem com H

Completando 10 anos de carreira, o ator vive no filme um dos grandes amores de Ney Matogrosso. Interpretar o companheiro do cantor exigiu um mergulho profundo em questões de amor e identidade, como Montaleone compartilha: “Antes dos ensaios, fui atrás da biografia do Ney; afinal, precisava conhecer com mais profundidade a figura principal da nossa história. Curiosamente, encontrei pouca coisa sobre o Marco, os registros on-line também não eram muitos. Por outro lado, pra minha sorte, Esmir me fornecia informações muito valiosas sobre a vida dos dois, tanto acontecimentos cotidianos quanto momentos mais marcantes. Em paralelo, me estimulava a criar em cima de tudo isso. Misturar as duas coisas foi a melhor receita”.

"É preciso garantir que as pessoas sejam livres para serem como são, sem precisar de licença, justificativas ou permissão para isso" (Foto: Gabi Lisboa)

“É preciso garantir que as pessoas sejam livres para serem como são, sem precisar de licença, justificativas ou permissão para isso” (Foto: Gabi Lisboa)

Marco de Maria, médico e companheiro de Ney Matogrosso por mais de uma década, partiu em 1990, dois dias após a morte de Cazuza, ambos vítimas da AIDS. Sua morte foi algo profundamente marcante na vida de Ney; momento revivido por Montaleone e Jesuíta Barbosa na cinebiografia. Recentemente, Bruno declarou: “Teve cena que me dilacerou por dentro. Teve dia em que eu saía do set em silêncio. Mas também teve beleza. Me sinto honrado em fazer parte disso”. O que mais mexeu com você?

“Retratamos os cuidados do dia a dia do Ney com o Marco, já debilitado pela doença. Nem tudo que a gente faz vai para o filme, né? Tem coisas que ficam na edição, que não entram… mas a gente percorreu um caminho quase completo de deterioração, de como a pessoa vai se tornando cada vez mais frágil. E o que isso implica também em quem está ali ao lado: como isso afeta a relação, como pode evoluir para mais amor, e como há também muita tristeza dentro de tudo isso. É um pouco sobre não querer aceitar a realidade, e ao mesmo tempo ter que aceitar que a pessoa que se ama está partindo. E querer lutar contra isso, fazer de tudo, o que também fortalece muito uma relação”, reflete.

Bruno Montaleone em cena como Marco de Maria em 'Homem com H' (Divulgação)

Bruno Montaleone em cena como Marco de Maria em ‘Homem com H’ (Divulgação)

Precisei estar com o emocional de fácil acesso. Acredito que foi por isso também que estava tão investido durante as filmagens: não sabia quando iria direto para esse momento do Marco. Por isso eu estava meio dilacerado, por vezes. Foi a primeira vez que fiz algo do tipo, e fazer uma cena sobre isso é algo que mexe com a gente. É preciso estar minimamente conectado com todos esses sentimentos – Bruno Montaleone

Bruno divide os tipos de vulnerabilidades que enfrentou como homem e como artista. “Acho que foi justamente o desafio de encarar algo completamente distinto de tudo o que já tinha feito: dar corpo e voz a uma história real, envolvendo pessoas reais, e, mais que isso, um artista monumental da nossa cultura, alguém cuja trajetória é incontornável para se compreender parte da nossa história recente. Minha vulnerabilidade, creio, se intensificou diante desse peso, que é, aliás, inerente a qualquer personagem, mas que aqui adquiriu uma gravidade particular”.

"As pessoas chamam de galã, por exemplo, em tom de elogio, então, não recebo como se fosse depreciação; ao mesmo tempo, estereótipos restringem, e normalmente é bom se afastar do que limita" (Foto: Gabi Lisboa)

“As pessoas chamam de galã, por exemplo, em tom de elogio, então, não recebo como se fosse depreciação; ao mesmo tempo, estereótipos restringem, e normalmente é bom se afastar do que limita” (Foto: Gabi Lisboa)

Você se permitiria viver um amor com um homem, caso se apaixonasse? “Sinto que perguntas assim partem de uma lógica muito comum, mas problemática: a de que o engajamento com causas ligadas à liberdade afetiva dependem de uma vivência pessoal correspondente. Vejo a minha orientação sexual como algo irrelevante nesse contexto. O que tenho comigo é a convicção de que qualquer pessoa tem o direito de amar quem quiser, sem que isso seja encarado como algo fora da norma, como uma exceção que precise ser explicada. Enquanto insistirmos em tratar o amor entre pessoas do mesmo sexo como uma questão, estaremos reforçando, mesmo que de forma involuntária, os mecanismos de um sistema que marginaliza, que segrega, que limita. Mesmo eu tendo vivido apenas relacionamentos heterossexuais, isso não muda o que penso nem o lugar de onde falo”. E conclui:

Não se trata de mim. Se trata da sociedade que escolhemos construir, e de garantir que, nela, as pessoas sejam livres para serem como são, sem precisar de licença, justificativas ou permissão para isso – Bruno Monteleone

"Cada personagem que eu interpreto é uma chance de reafirmar que a atuação é um ofício vivo, que se reinventa a cada história contada" (Foto: Gabi Lisboa)

“Cada personagem que eu interpreto é uma chance de reafirmar que a atuação é um ofício vivo, que se reinventa a cada história contada” (Foto: Gabi Lisboa)