*Por Brunna Condini
Intensidade é o signo que rege tanto Ney Matogrosso, quanto Jesuíta Barbosa que dá vida ao cantor na cinebiografia ‘Homem com H’, que estreou nos cinemas do Brasil. Considerado um dos melhores atores de sua geração por uma combinação rara de talento técnico, densidade emocional e potência artística, Jesuíta tem sido muito elogiado por sua performance como Ney. “Desde muito novo, eu o escutava e ele tirava a gente do lugar, seja sexualmente, seja musicalmente. Faço Ney dos 17 até quase 50 anos e pude ‘passar’ por esses anos todos trazendo essa energia latente dele, tão viva e intensa”, diz.
O artista destaca que o filme joga luz em questões inerentes à masculinidade e as expectativas sociais que se tem sobre ela, além de contribuir para discussões sobre a questão hoje. “O título, ‘Homem com H’, nome de um grande sucesso do Ney, já traz uma expressão forte e uma indagação: o que é, afinal, um homem com H? Desde a época em que foi lançada até hoje, essa pergunta segue ressoando. E o Ney, ao cantar isso, leva a expressão para um outro lugar, para outras camadas de significado e possibilidades de resposta. Esse filme, ao atravessar tantas décadas da vida dele, permite que a gente também acompanhe uma evolução do pensamento social. Sua trajetória abre espaço para que a gente pense a identidade de forma mais livre, mais possível”.
O Ney abre um portal mesmo. Para discussões, para teorias sobre o que é expressão, o que é identidade, o que é liberdade do corpo, liberdade de existir. Hoje, a gente ainda discute e estigmatiza muito os corpos. E acho que o Ney soube lidar com isso de uma forma muito firme. Ele não se deixou abalar por esses olhares ou julgamentos. Pelo contrário: sempre colocou a integridade dele na frente, com muita clareza sobre quem ele é e sobre como queria viver e se expressar no mundo. – Jesuíta Barbosa

Jesuíta Barbosa estrela cinebiografia sobre Ney Matogrosso e diz que o filme também contribui para discussões sobre a masculidade hoje
Jesuíta conta que quando soube que a cinebiografia seria realizada, enviou mensagem para o diretor e roteirista Esmir Filho e acabou fazendo testes para o papel. “Queria muito fazer esse filme”. Uma vez dentro do projeto, o ator megulhou na preparação, que passou pela parte física, com aulas de dança, canto, ensaios de voz e cena, além da parte física: ele teve a orientação de um endocrinologista para perder 12kg. “Ney era muito magrinho e emagreci. Tinha todo esse cuidado para chegar na forma e outro cuidado para chegar no sentido de recriar um signo para ele e não imitá-lo”.
Para alcançar a incensada interpretação do cantor, Jesuíta se encontrou com ele, acompanhou shows e estudou o seu modo no mundo. “Foi muito bom poder ouvir as histórias do Ney, poder olhar para o corpo dele, para a forma como ele se movimenta. Ter acesso às suas coisas, poder visitar a casa, ver os objetos, as referências, as memórias que ele guarda… tudo isso foi fundamental pra mim”. E se declara:

Jesuíta Barbosa e Ney Matogrosso falam sobre a cinebiografia do cantor (Foto: Reprodução/Instagram)
O Ney é uma figura muito generosa. Acho que aprendi muito também com o silêncio dele. Me interessava ouvir o que ele dizia, claro, mas foram as pausas que criaram a ‘música”’que eu queria captar na sua identidade – Jesuíta Barbosa
Com 17 anos de carreira, transitando livremente pelo cinema, televisão e teatro, desde o princípio, Jesuíta optou por projetos autorais e instigantes, especialmente no cinema. Trabalhou com diretores como Marcelo Gomes, Karim Aïnouz e Gabriel Mascaro, muitas vezes em produções que exploram as ambiguidades da identidade, da sexualidade e das relações humanas, como em ‘Tatuagem’ (2013) e ‘Praia do Futuro’ (2014). Agora, em ‘Homem com H’, ele fala da jornada e do desafio de interpretar alguém real, que está por aqui e é um ícone. “O filme cria um comparativo forte porque estamos lidando com uma figura que já faz parte do imaginário nacional, um artista que se tornou referência em liberdade. Do corpo, do canto, da expressão. Tive um grande interesse em pesquisar, em me aproximar do que ele possibilitou e ainda possibilita ao país enquanto artista libertário”.

“Tinha todo esse cuidado para chegar na forma e outro cuidado para chegar no sentido de recriar um signo para Ney Matogrosso e não imitá-lo” (Divulgação)
O ator também diz como imprimiu sua identidade à criação: “Havia também o desejo de dividir algo meu nesse processo. Em um sentido íntimo, pessoal, sobre a forma como fui lidando com cada cena. Minha memória emotiva esteve muito presente. Minhas relações interpessoais, familiares, tudo isso atravessou a construção desse personagem”.
O filme nos trouxe essa possibilidade de coexistência: o Ney, enquanto figura central, biográfica, e eu, enquanto artista de hoje, com minha própria vivência – Jesuíta Barbosa
E completa: “Vivemos hoje uma descentralização da ideia de real, do que é verdadeiro, o que é fake, o que é imagem, o que é reprodução, o que é inteligência artificial. O filme também dialoga com isso. Ele escancara a necessidade que temos, como sociedade, de rediscutir esses conceitos, e não apenas criar comparações. A criação do Ney é única. Ela não deixa de existir em momento algum, porque é diferente de tudo. Ele criou algo tão próprio que virou um marco na nossa memória coletiva”.

“O Ney abre um portal mesmo. Para discussões, para teorias sobre o que é expressão, o que é identidade, o que é liberdade do corpo, liberdade de existir” (Divulgação)
Sobre os encontros com Ney Matogrosso, o ator diz que se interessou pelas histórias que o artista quis compartilhar, e também, pelas que não quis contar. “Sempre com muito respeito e admiração, claro. Mas existe um mistério no Ney, na maneira como ele fala de si mesmo, que também nos deixa espaço para imaginar. Acho que o filme abraça esse mistério. Tanto no que é retratado dramaturgicamente quanto no que eu pude trazer do meu imaginário – das histórias que talvez também pudessem fazer parte. Espero que isso tenha aparecido na tela: esse lado do não dito, do que fica no ar, que o Ney também representa”.

Jesuíta em cena: “Minha memória emotiva esteve muito presente. Minhas relações interpessoais, familiares, tudo isso atravessou a construção desse personagem” (Divulgação)
Homem com H
O filme acompanha momentos marcantes da vida de Ney Matogrosso, um dos maiores artistas brasileiros de todos os tempos. Desde a infância marcada pela repressão paterna até a consagração como ícone da música e da liberdade, Ney desafia preconceitos e cria um estilo próprio. O filme acompanha sua trajetória pessoal e artística, retratando performances inesquecíveis embaladas por sucessos como ‘Rosa de Hiroshima’, ‘Sangue Latino’, ‘O Vira’, ‘Bandido Corazón’, ‘Postal de Amor’, ‘Não Existe Pecado ao Sul do Equador”, ‘Encantado’, e, é claro, ‘Homem com H’.
Nas filmagens, Ney visitou o set e colaborou com a produção, mas fez questão de não interferir em nada. Ele gravou especialmente para o longa a versão de ‘Mundo é um Moinho‘, com violão de João Camareiro, e dublou Jesuita Barbosa na cena do coral de Brasília e também na música ‘Réquiem para Matraga‘, com Luli. Todas as outras músicas são fonogramas do Ney dublados por Jesuita. “Sou feliz por ser a pessoa que sou e por fazer o trabalho que faço. Esse filme é uma pedra a mais nessa construção. Já atuei, já me vi em documentários, mas é a primeira vez em um filme de ficção. Claro que é impossível a vida de alguém caber em uma ou duas horas. Mas sei que é uma opção da direção e do roteiro, um ponto de vista, e eu fico feliz de ter estado por perto para ajudar ao máximo, e para que fosse o mais compatível com a minha história”, declarou Ney.
Ao assistir pela primeira vez, o cantor ficou profundamente emocionado com a atuação de Jesuíta e disse com bom humor: “Você trabalhou, hein, meu filho?”. Sim, visceralmente.

Jesuíta Barbosa é Ney Matogrosso em ‘Homem com H’ (Divulgação)
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