Ivanka Trump sai em defesa do pai no Tweeter, contra jornalistas da CNN, mas atrapalha mais que ajuda


A assessora especial do presidente americano, que vem sendo acusada de se aproveitar de nepotismo, critica duramente a arrogância debochada das elites de seu país, mas o post traz de volta à memória dos conterrâneos um dos momentos mais controversos na carreira política do bilionário republicano

*Por Jeff Lessa

Ops, Ivanka Trump fez “aquilo” de novo! Sim, a primeira filha americana conseguiu, mais uma vez, chamar a atenção do país governado por papi – como sempre por motivos, ahn, desconcertantes. Na semana passada, a bela Ivanka, investida de bons sentimentos e elevados valores morais, resolveu passar um pito nos engraçadinhos que “vivem debochando de todo mundo e depois reclamam porque o país está dividido” (!!!). Não, ela não estava comentando as atitudes de papai Donald.

Para Ivanka Trump, as ‘verdadeiras elites’ de seu país são ‘repugnantes’ (Reprodução do Twitter)

Na verdade, a ira de Ivanka era dirigida a Don Lemon, âncora da CNN, ao repórter Wajahat Ali, do “New York Times”, e ao ex-estrategista republicano Rick Wilson, que comentavam ao vivo a cobertura sobre os desdobramentos do impeachment do presidente americano. No estúdio, enquanto faziam piadas, imitavam o jeito típico dos apoiadores de Trump e debochavam de seus sotaques sulistas (os estados do Sul votaram em massa no republicano), tinham convulsões de riso.

“A arrogância, a maneira como debocham de sotaques e a presunção ridícula das ‘verdadeiras elites’ deste país são repugnantes”, publicou Ivanka em sua conta na rede social. Agora a loura está encarando as reações – a esmagadora maioria tão debochada quanto ela acusa de serem as tais “verdadeiras elites” americanas.

Donald Trump é acusado de nepotismo por permitir que Ivanka seja sua assessora (Reprodução)

Visto de longe pode parecer uma implicância sem muita importância, coisa de militante que transforma qualquer bobagem do adversário num cavalo de batalha. Não é bem assim. As poucas palavras de Ivanka, que já enfrenta uma resistência feroz de boa parte da população americana por ter se autonomeado assessora especial do pai, trouxeram de volta à memória do país pelo menos um momento surreal do atual mandatário. Talvez um dos piores e mais escandalosos da política mundial recente.

A história é a seguinte: em novembro de 2015, o proeminente bilionário nova-iorquino, então candidato à presidência dos Estados Unidos, imitou o repórter do “New York Times” Serge F. Kovaleski, que nasceu com uma má-formação no braço direito. No dia seguinte, o “comediante” insistiu que não tinha ideia de que o repórter que havia imitado tinha uma deficiência física. Disse, também, que jamais havia sequer se encontrado com o jornalista, que, antes de entrar para o “NYT”, havia trabalhado no “Daily News”. Decidida a fazer jornalismo de verdade, a equipe do “Times” destruiu a versão do político com provas de que Kovaleski havia feito inúmeras reportagens com Trump em seus tempos de empresário e que o bilionário inclusive o chamava pelo nome. Os dois já haviam se encontrado pelo menos dez vezes. Ou seja, não havia como negar a “amizade”.

A história não termina aí. Na noite de domingo, 8 janeiro de 2017, durante a entrega dos Golden Globes, a atriz Meryl Streep fez questão de relembrar o “incidente” em um discurso emocionado no Beverly Hotel, em Los Angeles. Nas palavras da dama, “Foi aquele momento em que a pessoa que estava pleiteando o cargo mais respeitado de nosso país imitou um repórter com necessidades especiais, alguém que ele superava em privilégio, poder e capacidade de se defender. Isso partiu meu coração, eu vi e ainda não consigo tirar da minha cabeça porque não era um filme. Era vida real”.

O discurso causou comoção – o presidente eleito tomaria posse apenas 12 dias depois. No dia seguinte, ele respondeu, via Twitter: “Meryl Streep, uma das atrizes mais superestimadas de Hollywood, não me conhece mas me atacou ontem à noite nos Globos de Ouro. Ela é uma…”. Fino, não?

Ao dizer o que disse no Twitter. Ivanka, sem querer, reacendeu o quiproquó gerado há quase cinco anos por seu controverso pai, entre outras polêmicas, é claro. RexPublic (@public_rex) afirmou que Ivanka está imitando o modus operandi do pai que, por sua vez, é o mesmo de Goebbels: acusar o inimigo daquilo de que somos culpados. Já o médico Eugene Gu (@eugenegu) trouxe à tona uma outra grande pedra no sapato da moça. Ao afirmar “Você nunca foi eleita pelo povo americano e, no entanto, se reúne com líderes mundiais em funções diplomáticas”, ele aludiu ao nepotismo de que pai e filha são acusados pelo fato de ela exercer a função de assessora especial da presidência. Embora não seja remunerada, milhões de americanos estão indignados com o que consideram falta de ética e criaram a hashtag #nepotismbarbie.

Se Ivanka estiver mesmo indignada com o bullying na internet – inclusive com o que seu pai pratica contra a ativista sueca Greta Thunberg e a presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, por exemplo, ela deveria pensar seriamente em se juntar a mãe na Ala Leste da Casa Branca e na bem-sucedida campanha Be Best (Seja Melhor), criada para impactar as vidas de crianças nas áreas de bem-estar, uso das mídias sociais e abuso de drogas.