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Em meio à maior crise da história do Carnaval, a Cidade do Samba disfarça, mas chora

Às vésperas do Carnaval, agremiações em desespero anseiam pela chegada das verbas de subvenção da Prefeitura e do Estado. Tem carros alegóricos só no ferro, outros na madeira. Raros são os finalizados, como os da Vila Isabel e os da Viradouro

Publicado em 19/02/2019 | Por Heloisa Tolipan

A Cidade do Samba está triste. Há um choro engasgado estampado nos rostos de quem trabalha nos barracões. Há um misto de frustração e desalento nos olhares dos visitantes. Há um enfado nas expressões corporais dos poucos grupos que ensaiam coreografias pelo local. Não tem mais o caloroso burburinho da capenga praça de alimentação, na qual em um único quiosque do Bob’s era possível dividir mesas com carnavalescos, musas, rainhas de baterias, passistas atrevidas, seguranças bombados com cordões banhados a ouro de quase cinco centímetros de largura e relógios Invicta.

Às vésperas do Carnaval, agremiações em desespero anseiam pela chegada das verbas de subvenção da Prefeitura e do Estado. Tem carros alegóricos só no ferro, outros na madeira. Raros são os finalizados, como os da Vila Isabel e os da Viradouro. O número de funcionários dos barracões foi, visivelmente, reduzido. A alegria de outrora deu lugar ao sofrimento. O Império Serrano, que se consagrou campeão em 1982 com um enredo por meio do qual criticava o gigantismo e a industrialização das escolas de samba S.A, hoje é vítima das mazelas que antologicamente denunciou já na década de 1980.

A crise que acomete o Carnaval carioca não é somente financeira e moral. Há um colapso afetivo, evidenciado por paixões coletivas interrompidas, esfacelamento carnal, descrença nas instituições. Estamos sem norte, exauridos, desconstruídos. As comunidades, resilientes, persistem. Ocupam as ruas nos desfiles técnicos dos bairros em que as escolas do coração foram fundadas como se na avenida estivessem. Vão ao encontro das esperanças subtraídas pela incompreensão estatal. Cantam e dançam por liberdade, por tolerância, por amor incondicional. Há trinta anos, em função de uma briga com a Arquidiocese do Rio de Janeiro, Joãosinho Trinta e Laíla, então majors artísticos da Beija-Flor, tomaram a decisão de cobrir a escultura do Cristo Redentor com um saco plástico preto de lixo com a inscrição “Mesmo proibido, olhai por nós”. Três décadas depois, mais uma vez enlutados e asfixiados pelas trevas da dissidência religiosa, clamamos por proteção. A Cidade do Samba disfarça, mas chora.

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