Teatro & Pensata

Crítica Teatral: Rodrigo Monteiro analisa “Estúpido Cupido”. “Em todos os sentidos, é um musical delicioso”.

O melhor momento da peça é aquele em que Françoise Forton interpreta a canção “Estou aqui”, pois nela o encontro entre as Tetês e a atriz que as interpreta se coroa lindamente

Publicado em 26/08/2015 | Por Junior de Paula

* Por Rodrigo Monteiro

Com Françoise Forton de volta à protagonista Tetê, o melhor dessa ótima produção é também o modo como ela se relaciona com a novela homônima exibida entre 1976 e 1977 na TV Globo. Mas há outros pontos positivos a serem destacados além desses. O texto original de Flavio Marinho é leve e ágil como também é vibrante a direção musical de Liliane Secco e os figurinos de Clívia e de Clara Cohen. Já no início da primeira temporada, a direção de Gilberto Gawronski surpreendentemente apresenta ótimo ritmo. No elenco, além de Forton, Clarisse Derzié Luz e Sheila Matos brilham. Em cartaz no Teatro Imperator, no Meier, zona norte do Rio de Janeiro, aí está uma opção de qualidade para uma programação divertida.

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O musical “Estúpido Cupido” apenas flerta com a novela escrita por Mário Prata e dirigida por Régis Cardoso. Última produção em preto e branco da TV Globo, a história se passava na fictícia cidade de Albuquerque, no interior de São Paulo, no início dos anos 60. Recém-formada no Curso Normal, Maria Tereza, ou Tetê (Françoise Forton), sonhava em ir para uma cidade grande e ganhar o Concurso Miss Brasil, mas, para isso, precisava enfrentar as discordâncias do namorado João (Ricardo Blat) bem como todas as limitações da pequena localidade onde morava. Com Leonardo Villar, Maria Della Costa, Ney Latorraca, Sônia de Paula, Suely Franco e várias outras estrelas no elenco, a novela conseguiu a façanha de reincluir, no fim dos 70, as músicas da década anterior. E foi um sucesso. Gravadas no Maracanãzinho, as cenas do concurso Miss Brasil 1961 reuniram um público de dez mil pessoas. No capítulo final, o casal Tetê e João ligava a TV e assistia à novela “Locomotivas”, que começaria na segunda-feira seguinte também no horário das 19horas.

O texto original de Flavio Marinho se aproveita da associação natural entre a personagem Tetê e a atriz Françoise Forton para, a partir disso, apresentar suas diferenças. A Tetê do musical (Forton) venceu o concurso de miss do colégio onde estudou, casou-se com Frankie, um futuro advogado (Aloísio de Abreu), e atualmente é atriz e apresentadora de televisão. Na escola, suas melhores amigas eram Aninha (Clarisse Derziê Luz) e Wanda (Sheila Matos), mas a amizade com essa última terminou quando as duas se viram em disputa pelo coração de Teddy (Carlos Bonow). A história do musical começa quando Aninha (Luz), após ter marcado uma festa de reencontro da velha turma pelo Facebook, tenta convencer Tetê (Forton) a ir ao evento. Vestidos à caráter, na ocasião, todos ouvem os ritmos dos anos 60 e se encontram com o passado, tendo a chance de reescrever o futuro.

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A relação entre passado e presente se dá a ver de duas formas nesse ótimo texto de Flavio Marinho. Tetê, Aninha, Wanda, Frankie e Teddy têm versões de si mesmos interpretadas em cena por atores mais jovens. A presença constante dos duplos propicia um jogo poético através do qual os personagens reavaliam as decisões do passado, convidando o público a fazer o mesmo em seu processo de catarse. O segundo aspecto elogiável da dramaturgia é a inclusão de Danielli (Carla Diaz), atual namorada de Teddy. Ela tem 21 anos e desconhece os códigos por trás das relações entre os convidados da festa. Sua presença põe o grupo em choque, unindo a plateia do musical que assiste à peça a partir de diferentes pontos de vista. Excelente!
Dirigindo pela primeira vez um musical, Gilberto Grawronski tem a sabedoria de não “inventar a roda”. Ao longo de toda a peça, o palco permanece equilibrado: lambreta de um lado e espelho do outro, diagonais em X, movimentos que partem do centro em direção às pontas, excelentes usos de pontos de fuga. Os duplos, que compõem o coro, preenchem o palco sem roubar a atenção, as cenas marcadamente evoluem a partir das entradas dos personagens no texto, o cenário se modifica sem grandes dificuldades. O resultado é que “Estúpido Cupido”, cuja direção de movimento é de Mabel Tude, evolui em sua apresentação de forma fluente indo para cima em direção ao final, como convém ao gênero que melhor o lê enquanto espetáculo.

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O carisma de Carlos Bonow (Teddy), mas sobretudo a graça e a pontualidade das interpretações de Clarisse Derzié Luz (Aninha), Sheila Matos (Wanda) e de Carla Diaz (Danielli) definem o contexto ideal para o surgimento do conflito mais importante da narrativa positivamente. Trilhando talvez o caminho de volta da personagem da novela, essa segunda Tetê de Françoise Forton retorna à sua origem. Lá como aqui, a “mocinha” dá os passos mais lentos da história porque esses são os fundamentais. É bonito reparar a delicadeza com que o corpo de Forton vai desconstruindo a “boneca” das cenas iniciais para se encontrar com a mulher que há dentro dela. Em ótimo trabalho de atuação, vale dizer que a atriz continua belíssima!

O melhor momento da peça é aquele em que Françoise Forton interpreta a canção “Estou aqui”, pois nela o encontro entre as Tetês e a atriz que as interpreta se coroa lindamente. Trata-se de uma versão de “I’m still here”, de Stephen Sondheim, composta para o musical “Follies”, de 1971. Na história, um grupo de ex-coristas se reencontra. Elas se lembram de quando fizeram parte das produções “Weissmann’s Follies”, uma referência aos espetáculos de Florenz Ziegfeld nos quais nasceram os grandes espetáculos da Broadway. Eis aqui outro ponto relevante na estrutura interna da narrativa de “Estúpido Cupido”. Sobre os demais números musicais, no geral, o elenco garante os pouco desafiadores quadros musicais. Formada por Felipe Aranha, Guilherme Viotti e por Jean Campelo, a banda está diegeticamente bem resolvida em cena.

Com belos figurinos de Clara e de Clívia Cohen e ótimo desenho de luz de Paulo Cesar de Medeiros, a produção de “Estúpido Cupido” é assinada por Eduardo Barata e por sua equipe. Em cartaz no Rio, essa é uma ótima oportunidade para celebrar a vida!

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Ficha Técnica
Texto: Flávio Marinho
Direção: Gilberto Gawronski
Elenco: Françoise Forton, Aloísio de Abreu, Clarisse Derzié Luz, Carlos Bonow, Sheila Matos, Carla Diaz, Luisa Viotti, Julia Guerra, Ryene Chermont, Ricardo Knupp e Mateus Penna Firme
Stand in: Maria Sita (Françoise Forton) e Orlando Leal (Aloísio de Abreu/Carlos Bonow)
Músicos: Guilherme Viotti, Felipe Aranha, Jean Campelo
Direção musical: Liliane Secco
Coreografia: Mabel Tude
Cenário e figurinos: Clívia Cohen
Iluminação: Paulo César Medeiros
Direção de produção: Denise Escudero e Elaine Moreira
Produção e assessoria de imprensa: Barata Comunicação

Serviço:

Onde: Imperator — Rua Dias da Cruz, 170, Méier
Quando: Sex. e sáb. às 21h; dom., às 20h. Até 20/9.
Quanto: R$ 40 a R$ 50.

* Rodrigo Monteiro é dono do blog “Crítica Teatral” (clique aqui pra ler) , licenciado em Letras – Português/Inglês pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, bacharel em Comunicação Social – Habilitação Realização Audiovisual, com Especialização em Roteiro e em Direção de Arte pela mesma universidade, e Mestre em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor no Curso de Bacharelado em Design da Faculdade SENAI/Cetiqt. Jurado do Prêmio de Teatro da APTR (Associação de Produtores Teatrais do Rio de Janeiro) desde 2012.

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