Teatro & Pensata

Como parte da mostra que comemora os 25 anos da Cia Atores de Laura, Charles Fricks interpreta o monólogo “O Filho Eterno” neste fim de semana na Casa de Cultura Laura Alvim

Mais do que fazer parte das Bodas de Prata do grupo que forma talentos na Casa de Cultura Laura Alvim, o ator comemorou a oportunidade de continuar apresentando o intenso e emocionante espetáculo para novas plateias. “Esse é um texto que, desde quando eu comecei, em 2011, nunca mais parei"

Publicado em 13/10/2017 | Por Julia Pimentel

Charles Fricks está em cartaz com o monólogo “O Filho Eterno” neste fim de semana na Casa de Cultura LLaura Alvim como parte da mostra de 25 anos da Cia Atores de Laura (Foto: Lucas Rocha)

Já são seis anos, mais de 50 cidades, incluindo uma passagem por Portugal, e 280 apresentações de “O Filho Eterno”. A história de Charles Fricks com a adaptação do livro de Cristóvão Tezza é longa. Mas, no Rio, o ator vive um dos momentos mais especiais desta duradoura experiência. Neste final de semana, Charles interpreta o espetáculo como parte da programação da mostra que comemora os 25 anos da Cia Atores da Laura. Mais do que fazer parte das Bodas de Prata do grupo que forma talentos na Casa de Cultura Laura Alvim, o ator comemorou a oportunidade de continuar apresentando o intenso e emocionante espetáculo para novas plateias. “Esse é um texto que, desde quando eu comecei, em 2011, nunca mais parei. E é lindo poder contar uma história forte e potente como essa por tanto tempo e para tantas pessoas”, contou.

E não é exagero. A peça “O Filho Eterno” é uma adaptação do livro homônimo do escritor brasileiro Cristóvão Tezza lançado em 2007. Na narrativa, um homem vive a mistura de sentimentos entre o sonho e o desejo de ser pai e a descoberta de que seu esperado filho terá Síndrome de Down. “Essa é uma das histórias mais lindas que eu já li e é contada de forma muito verdadeira e crua. Ele não faz rodeios e vai sempre direto ao ponto. Fora que é um texto com metáforas lindas”, apontou Charles Fricks sobre a base de seu espetáculo que, para ele, é a grande engrenagem para o sucesso e a longa duração da peça por seis anos. “O grande desafio de manter um projeto por tanto tempo é que ele tenha um texto que sustente isso. E ‘O Filho Eterno’ tem. Esta é uma peça que nos faz pensar muito a partir da história de um pai que aprende a amar o filho diferente. Então, para essa interpretação tão intensa, eu preciso estar no palco por inteiro e fazer daquele momento como se fosse sempre a minha primeira vez, a estreia do espetáculo”, explicou.

Como consequência desta entrega, Charles Fricks contou que mantem uma troca diferente com o público. Enquanto em espetáculos de humor o ator recebe o riso como garantia de satisfação das pessoas durante a peça, neste drama, a tensão e sentimento de suspensão é a demonstração principal. “Este retorno é muito abstrato que mistura um silêncio profundo com uma sensação de que as pessoas não estão nem respirando. Para mim, é incrível ver que, mesmo depois de seis anos, ainda consigo manter esse clima nas sessões. É como se a plateia ficasse suspensa com os absurdos que aquele pai que eu interpreto pensa do filho que vai nascer. É isso o que me move depois de 280  apresentações deste espetáculo”, contou.

O ator viaja o país e até o mundo, com a passagem por Portugal, com a peça desde 2011 (Foto: Dalton Valério)

Mas, como adiantamos, as sessões deste fim de semana na Casa de Cultura Laura Alvim têm um tempero especial. Além de agregar mais números à trajetória de “O Filho Eterno” no teatro, Charles Fricks ainda comemora os 25 anos da Cia Atores de Laura. Como testemunha da importância deste grupo para a cena artística carioca, o ator comemorou fazer parte ativamente da companhia por 24 dos 25 anos de história. “Eu preciso ser clichê para comentar isso: é muito emocionante ver um projeto que eu acompanho tão de perto e com carinho estar completando mais um ano de vida. Na estreia da Mostra, eu lembro que passou um filme com inúmeras memórias na minha cabeça desses 24 anos que eu estou na Cia Atores de Laura. Foram tantas peças e tantas histórias…”, lembrou emocionado.

Para comemorar as Bodas de Prata, a Cia Atores de Laura está promovendo uma agenda agitada na Casa de Cultura com espetáculos de sucesso que marcaram a trajetória do grupo. A cada fim de semana, duas peças resgatam emoções e histórias que foram responsáveis por momentos marcantes. Mas, quem vê a Mostra dos 25 anos agitando a cena carioca como estamos acompanhando, nem pensa que ela quase foi esquecida pelos personagens reais desta festa. “A gente trabalha tanto que nem ficamos pensando em quantos anos estamos fazendo. É tanto projeto, produção e texto que, quando vemos, já se passaram 25 anos de uma companhia que é como uma família. Dessa vez, foi no meio de uma reunião de rotina que nos demos conta da data e tivemos que correr para organizar essa programação”, confessou.

Aliás, a relação entre os artistas que carregam a história da Cia Atores de Laura é de fato uma família. Nascido no Espírito Santo, Charles Fricks achou no grupo de teatro a sua família carioca. “Desde 1991, quando eu cheguei na cidade, eu encontro mais os meus amigos da companhia, que eu fiz no teatro, do que minha própria família. Mas, não dizem que temos uma de sangue e outra que escolhemos? Então, hoje eles fazem parte da minha vida, é o vínculo que eu escolhi para mim”, contou.

Dos 25 anos que a Cia Atores de Laura está completando em 2017, Charles Fricks faz parte há 24 (Foto: Lucas Rocha)

Juntos e mergulhados na paixão pelos palcos, a Cia Atores de Laura segue há 25 anos resistindo e fazendo teatro no Rio de Janeiro. Mesmo em tempos de dificuldades, parar nunca foi opção para os filhos de ideologia da mulher que sempre sonhou em ser atriz e dedicou a vida para fazer de sua casa um espaço de cultura. “No teatro, nós atores já passamos por momentos diferentes, alguns melhores e outros piores. Mas nunca deixamos de fazer. Em 2009, por exemplo, tivemos uma maré boa de bastante público, qualidade dos espetáculos e economia nacional favorável. Ao contrário de hoje em dia, que estamos passando por um panorama bem complicado”, comentou.

Um dos elementos que hoje complicam a dinamização da cena artística no Rio de Janeiro, por exemplo, é o fechamento de teatros importantes da cidade por falta de recurso ou patrocínio. Na contramão disso, a Cia Atores de Laura ganhou um novo espaço como legado olímpico. Sede de um dos patrocinadores das Olimpíadas, a Casa de Cultura Laura Alvim recebeu reforma e reconstrução de todos os seus espaços e foi devolvida à cidade do Rio de Janeiro pronta para uma programação agitada de cultura, tal como estamos acompanhando com a Mostra de 25 anos de sua companhia. “É um prazer para nós artistas ver aquela casa linda e de volta ao circuito carioca. Hoje, a Casa de Cultura Laura Alvim está perfeita para quem visita e para quem se apresenta. Os camarins, as salas e todo o espaço delas estão reformados e com ótimas melhorias. É bom ver que as Olimpíadas nos deixaram esse presente”, comemorou Charles Fricks que não foi muito além neste entusiasmo. “Mas também é muito triste constatar que este foi um dos poucos ganhos que a cidade teve com os Jogos. O Rio passa por um momento de crise terrível e eu não vejo que temos grandes conquistas”, analisou.

Entre dificuldades e conquistas, o importante para Charles Fricks é continuar. Sempre na intenção de levar arte e pensamentos para o público, em diferentes esferas e temáticas, o ator defende e traduz a ideia de resistência. Recentemente, Charles emprestou seu talento para falar da saúde brasileira na série “Sob Pressão”, da Globo, que mostrou os desafios do sistema público. Além disso, o futuro profissional de Charles Fricks ainda tem mais duas séries: “Magnífica 70”, que narra os bastidores da pornochanchada, e “Rotas de Ódio”, as duas com previsão de estreia para o ano que vem. “Nós estamos vivendo um período em que as pessoas estão criando contos da Carochinha para desviar a atenção dos brasileiros do que está acontecendo em Brasília. Mas não podemos nos deixar enganar. Para mim, fazer arte é mais do que um prazer, é uma necessidade social. Assim como o dentista e o médico, todas as profissões possuem seus valores e são extremamente importantes para a vida em sociedade. O artista não é nada além ou superior que o outro”, afirmou Charles Fricks.

“Para mim, fazer arte é mais do que um prazer, é uma necessidade social” (Foto: Lucas Rocha)

Cronograma da temporada – Mostra 25 Anos Cia Atores de Laura:

13 a 15/10

Sexta – 19:30 O Filho Eterno / 21:30 Absurdo
Sábado – 19:30 O Filho Eterno / 21:30 Absurdo
Domingo – 20h Absurdo

20 a 22/10

Sexta – 19:30 O Filho Eterno / 21:30 O Pena Carioca
Sábado – 19:30 O Filho Eterno / 21:30 O Pena Carioca
Domingo – 20h O Pena Carioca

Preço: R$ 50,00 – Inteira
Local: Casa de Cultura Laura Alvim
Endereço: Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema, Rio de Janeiro
Telefone: (21) 2332-2015 (Funcionamento da Bilheteria: Seg. a partir das 17h | Ter. a Sex. a partir das 16h | Sab. Dom. e Feriados a partir das 15h)

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