Enquanto nos surpreendemos com a saída de Fausto Silva da TV Globo, após 32 anos, e sua ida para a Band, sacramentando uma mudança no hábito dominical na vida de milhões de brasileiros, e vimos o retorno de Pedro Bial às gravações presenciais do seu programa depois de um ano e meio fazendo entrevistas online por conta da pandemia, a indagação do momento é: como ficará a TV aberta no Brasil daqui a alguns anos em termos de consumo?
Diante da pandemia, o streaming nunca teve tanta força para a vida de milhões de pessoas como forma de amenizar as crises de ansiedade e as ociosidades caseiras. O que é fato: ele veio pra ficar e vai se fortalecer mais ainda, chegando ao ponto de “roubar” público da televisão tradicional.
Francisco Malta, escritor, professor, roteirista de cinema e TV, afirma que sempre analisa os meios de comunicação como um processo de evolução natural da própria comunicação. “Ao longo do tempo, esse processo já era esperado. Logo, a nova geração é uma geração mais digital, que está procurando produtos mais interativos, não sendo mais aquela geração que vai ficar sentada no sofá esperando chegar o capítulo da novela, pois o streaming dá esse poder: você faz o seu horário que você quiser e assiste da forma como quiser”.

Evidentemente não é só a TV aberta que vêm perdendo público nos últimos anos. A TV fechada, que há quase 20 anos era considerada um produto destinado a pessoas com mais condições financeiras, e se popularizou no decorrer do tempo, está seguindo o mesmo caminho. De acordo com a ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações), a TV paga perdeu mais de um milhão de assinantes entre maio de 2020 e maio de 2021, um fato que faz acender o alerta para gestores de televisão.
Não é por acaso que o Grupo Globo criou o seu canal exclusivo de streaming, visando fortalecer a sua marca e estar sempre presente no mercado publicitário. O Globoplay está cada vez mais forte, explorando a programação atual da TV Globo e, sobretudo, criando conteúdos exclusivos e disponibilizando programas, novelas e séries que fizeram o maior sucesso na época em que só existia a possibilidade de ver somente uma vez na televisão, ou, para os mais antigos, gravar em fita cassete para assistir depois.
É notório que assistir televisão tradicionalmente é um hábito do brasileiro que vai perdurar por muito tempo ainda, apesar de muitos já possuírem em suas smart’s e celulares filmes e séries que os fazem maratonar em finais de semana. Entretanto, ainda existe o fator “atraso tecnológico” no Brasil.
Como exemplo, podemos relembrar quando o Flamengo comprou briga com o Grupo Globo em julho do ano passado. Na ocasião, com o aval de uma MP presidencial, o time rubro-negro transmitiu a sua partida com o Boa Vista em seus canais exclusivos. A audiência foi excelente, mas, nada comparado com o poder midiático e tradicional da Globo, cuja presença é fortíssima no interior do Brasil.
Um dos mais consagrados diretores de televisão do Brasil, tendo papel fundamental na história da TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, já foi questionado inúmeras vezes sobre esta nova forma de consumir televisão. Em uma de suas entrevistas, afirmou que o streaming e internet não “matam” a televisão, e sim, fortalece a audiência das emissoras.
Segundo Francisco Malta, o caminho para as emissoras é o crescimento junto ao streaming. “Não se deve ignorar uma ferramenta muito poderosa que é o smartphone e a aproximação com a linguagem dos games. TikTok, Instagram, YouTube, WhatsApp, são ferramentas de comunicação absolutamente poderosas. Cada vez mais a gente vai buscar fazer com que essas linguagens se coadunam, se comunicando uma com as outras, sem perder as suas principais características”.
Embora a crise sanitária que passamos contribuiu muito para demissões em massa na TV devido à perda de anunciantes e queda em faturamentos publicitários, há de se ter em vista a necessidade dos empresários televisivos em investir nas marcas digitais e tecnológicas de suas empresas, como forma de renovar e rejuvenescer as suas audiências e de se manter firme no mercado e no hábito dos telespectadores.
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