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SPFW Inverno 2014 #Day5: entre o déco e o nouveau, Lampião, bonequinhas de luxo e francesinhas cool

As coleções de Alexandre Herchcovitch, Reinaldo Lourenço, Samuel Cirnansck, Têca e Amapô para o inverno 2014

Publicado em 03/11/2013 | Por Heloisa Tolipan

O quinto e último dia da 36ª edição da São Paulo Fashion Week marcou pela variedade. Grifes tão díspares quanto Reinaldo Lourenço, Amapô, Têca e Samuel Cirnansck compareceram na passarela, que ainda contou com a coleção masculina de Alexandre Herchcovitch e a estreia da Melissa no evento. Teve de tudo para todos os gostos, desde a mistura dos anos vinte com setenta, a overdose do multiculturalismo étnico-lisérgico, bonecas russas, ótima alfaiataria masculina e uma releitura caipira com pitadinha japonista.

Reinaldo Lourenço começou o triatlo do dia com inspiração na Paris das décadas de 1920 e 1980. Ou seja, misturou uma interpretação moderna do luxo art déco nos Anos Loucos com o futurismo oitentista de bambas como Thierry Mugler e Claude Montana, cujos trabalhos parecem ser tão caros ao estilista. Com uma cartela de cores seca que tem preto, off-white, vermelho e pink, além de uma estampa de leopardo em vermelho e roxo, ele fez a coleção, repleta de peças chiques que traduzem o estilo cool e glamorosamente displicente das francesas. Para o estilista, a silhueta é clean e seca, às vezes ajustada por belos cintos metalizados, outras um pouco ampla, sobretudo pela presença de belos mantôs oversized. As saias são lápis e podem ter fendas reveladoras, contando – assim como as calças de cintura alta – com basques sobrepostas. E, além do animal print, o toque fica por conta do metalizado. Reinaldo foi esperto e optou tanto pelo ouro (que ainda é aposta certeira no quesito vendas), quanto pelo prata (a bola da vez, perfeitamente sintonizado com a releitura dos anos 1990 que anda norteando a moda). Assim, ele oferece opções de brilho metálico ao gosto de suas clientes nos acessórios – cintos, bolsas, clutches e sandálias – e também nos vestidos, blusas e saias requintadamente executados com tiras de tecido aplicadas sobre musseline ou tule, criando grafismos.

Fotos: Vinícius Pereira

As meninas da Amapô, as estilistas Carô Gold e Pitty Taliani estão amadurendo a cada temporada. Aos poucos, estão deixando de fazer aquela moda conceitual restrita para, sem perder a mão da marca, ampliar o potencial de uso das peças que criam. Dessa vez, elas apelaram para um leitura urbano-descolada do universo caipira, com direito a trilha sonora sertaneja na passarela e botinhas que deixariam As Marcianas, Sergio Reis e Almir Satter rodopiando de felicidade em um rodeio fashion. Nessa levada ‘Seguraaaaaa, peão!’, a dupla desenvolveu bons conjuntos de blusa e saia rodada, jeans bacanas, calça masculina de vaquinha, jaquetas espertas, inclusive um perfecto com lapela e mangas em couro, e até um poncho que causou tititi nos amigos fiéis da marca presentes ao desfile.

Fotos: Vinícius Pereira

Se, para Reinaldo Lourenço é a modernidade da releitura déco 1920/80 que conta, para Helô Rocha é a romântica estética art nouveau, com suas formas orgânicas e curvas decoradas. Ela se baseou na obra de William Morris, o artesão, arquiteto, designer, pintor e poeta inglês que se rebelou contra a vulgarização da arte pela Revolução Industrial no século XIX, estabelecendo um novo patamar na arte decorativa. Dessa forma, a estilista concebeu um inverno rico para sua Têca, repleto de elementos decorativos como estampas florais rebuscadas, devorês, fivelas decoradas, pentes, bolsas e colares delicados em formas que lembram as silhuetas das ninfas desenhadas pelo cartazista tcheco Alphonse Mucha, outro artífice do estilo liberty. Essa foi a forma que Helô encontrou para imprimir sua própria visão dos prints de flores sobre fundo escuro que estão tão em voga.

Somado a isto, ela adicionou uma pitada dos anos 1970 para temperar sua salada o que, no fundo, faz sentido, pois foi nesta década que o art nouveau voltou à moda, reabilitado pela geração flower power. Com isso, os vestidos diáfanos longos, volumosos e esvoaçantes da Têca ganham, além dos padrões florais art nouveau, recursos como fendas, plissados e franjas. E, sobre estes vestidos ou duplas de saia e blusa, ela adicionou uma ou outra jaqueta, dando o toque esportivo da estação. Completando os looks, chapéus de aba larga evocam esta aura setentista.

No conjunto final, pelo aspecto decorativo da coleção e pela cartela de cores – preto, marinho, verde petróleo, um caramelo, goaba e cenoura – o resultado ainda lembrou um quê da antiga aristocracia russa, uma das influências que dita a moda do próximo inverno. No mais, vale a pena mencionar as clutches de metal com borlas e franjas desenvolvidas por Caio Vinicius, parceiro recorrente de Helô, além do modelo de maxi brinco criado pela joalheira Camila Sarpi.

Fotos: Vinícius Pereira

Após ter seduzido os olhares com a delicadeza de uma coleção inspirada em camisolas antigas, Alexandre Herchcovitch deu meia-volta e radicalizou, mostrando uma coleção masculina visceral com modelos desfilando em um bate-volta agressivo ao som de ‘Roots Bloody Roots’, do Sepultura. O tema que ele escolheu para sua alfaiataria primorosa foi Lampião e seu temível bando de cangaceiros, mas o bacana foi que ele conseguiu fundir o espírito dos uniformes do cangaço – com direito até a estrela de oito pontas (amuleto da sorte usado no chapéu de Lampião) em tricô no peito – com os shapes dos cossacos, a guarda imperial russa. Afinal, a influência da Rússia Imperial é uma das plataformas do estilo no próximo inverno, e recriar o cangaço brasileiro e, ao mesmo tempo, polvilhar esse aroma de uniforme do exército russo na coleção não é pouca coisa, já que as duas estéticas aparentemente nada têm entre si.  Por exemplo: além das montagens com peças de alfaiataria que remetem a essas duas leituras, , inclusive ótimos sobretudos, temos um inteligente recurso de styling que é o uso de calçados com meias por cima dos leggings estilizando as alpargatas com as perneiras que os cangaceiros usavam para proteger as pernas no mato. Essa dupla de sapato e meião lembra também as botas usadas pelos cossacos para andar no frio. Não é incrível?

A grife usou sobreposições com muito preto, caramelo, cinza, lindos xadrezes, além de uma espertíssima estampa de onça. E, entre tudo desfilado, amamos o hoodie compridão sem mangas, as peças em matelassê e a jaqueta cropped negra. Tomara que todas essas peças dêem mesmo expediente nas lojas e não sejam só conceito de passarela.

Fotos: Vinícius Pereira

Samuel Cirnansck foi o único que, nesse dia, assumiu explicitamente a estética dessa Rússia aristocrática que vai entrar na moda, pesquisando bonecas russas. Mas errou quem pensa que ele se baseou nas famosas matrioshkas, aquelas típicas figuras estilizadas que vão saindo uma de dentro da outra. As bonecas usadas na pesquisa do estilista são, no caso, aquelas criadas pela artista siberiana Marina Bychkova, que chega a cobrar até 25 mil dólares por cada unidade. Atualmente, as bonecas da artista, que mora no Canadá, têm até estrelado editoriais de moda em revistas gringas. Um luxo! As modelos, com pancake esbranquiçado e fitas na cabeça (para parecerem as tais bonecas – criação esperta de Celso Kamura e equipe) apresentaram vestidos que oscilaram entre curtinhos, midi e longos repletos de tules, rendas, adamascados e jacquards em cores glaciais como branco, anil, creme, ouro seco ou vermelho e preto.

Fotos: Vinícius Pereira

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