Há ventos que vêm do mar e ventos que vêm de dentro — da vontade de recomeçar, de costurar um novo destino fio a fio. E, na Praia de Iracema, esses dois ventos se encontraram. Pela primeira vez na história do DFB Festival, maior semana de moda do Brasil e realizada em Fortaleza (CE), era o “Vai Maria”, projeto do Instituto da Primeira Infância (IPREDE), apresentando a coleção “Mar de Sonhos” — que, naquele final de tarde, se tornaram um desfile que reuniu 33 looks, com três estampas exclusivas e fartura de bordados. O barco de papel, símbolo da infância das ‘marias’ atendidas pelo projeto, foi o elemento central da narrativa visual da coleção.
Ao desfilar na principal semana de moda autoral, o “Vai Maria” ampliou a visibilidade de um trabalho que impacta diretamente a vida de mulheres e suas famílias, reforçando o potencial da economia criativa como caminho para inclusão e desenvolvimento. Quando a moda encontra a transformação social, histórias ganham voz: o desfile celebrou trajetórias marcadas pela coragem de recomeçar, pela força de seguir em frente e pela confiança de que novas oportunidades são possíveis. Cada peça carregava sonhos, aprendizados e conquistas construídos ao longo da jornada de capacitação — mulheres que transformaram desafios em inspiração e hoje escrevem novos capítulos de suas histórias com protagonismo e esperança, representando vidas transformadas, autoestima fortalecida e a certeza de que investir nelas vale a pena.

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)
O resultado desse percurso chegou à passarela como “Mar de Sonhos”, coleção que traduz coragem, renovação e esperança em peças carregadas de identidade e propósito, inspiradas na força, na liberdade e na capacidade de recomeço das mulheres atendidas pelo projeto. As criações foram desenvolvidas pela designer Cândida Lopes em parceria com Isabelle Temoteo, embaixadora da marca, levando à Praia de Iracema um desfile assinado por mulheres em processo de formação social e profissional, combinando moda autoral, inclusão produtiva e impacto social.
Cândida construiu uma coleção inspirada na metáfora da travessia. Em ‘Sonhos de Maria’, a personagem que dá nome ao projeto assume o leme da própria vida. Surge como navegante, aventureira e quase pirata, cruzando mares simbólicos em busca daquilo que lhe pertence: seus sonhos, sua liberdade e o direito de existir plenamente. O ponto de partida da narrativa foi o encontro entre duas versões da mesma mulher: a Maria adulta, forte e resiliente, que enfrenta as exigências da vida cotidiana; e a Maria menina, guardiã dos desejos, das fantasias e da imaginação. “Existe uma Maria adulta que aprendeu a ser forte. Que organiza, resolve, enfrenta. Mas dentro dela ainda mora uma menina de pés descalços, mãos manchadas de cor e bolsos cheios de sonhos impossíveis”, descreve no texto que inspira a coleção.

‘Vai Maria’, por Cândida Lopes, levou à passarela uma poderosa reflexão sobre transformação

Vai Maria e uma das estampas exclusivas
A partir dessa ideia, a estilista criou uma atmosfera visual marcada por estampas autorais, referências náuticas, barcos de papel, ondas, estrelas, caminhos e elementos que evocam a imaginação infantil sem perder o diálogo com a mulher contemporânea. As cores suaves contrastaram com detalhes vibrantes, reforçando a mensagem de que amadurecer não significa abandonar a fantasia, mas aprender a caminhar ao lado dela. As estampas exclusivas desenvolvidas para a coleção funcionaram como capítulos dessa jornada. ‘Caminhos’, ‘Navegar’ e ‘Sonho de Maria’ transformaram símbolos de travessia em linguagem gráfica, costurando memórias, desejos e possibilidades futuras.
“Vai Maria” visa a profissionalização de mães de crianças em vulnerabilidade social extrema assistidas pelo IPREDE. A cada ciclo, são promovidas oportunidades educativas voltadas ao desenvolvimento do potencial das participantes e à confecção de produtos com finalidade de geração de renda. Ao longo de cerca de nove meses, as mulheres passam por uma jornada de aprendizado em costura, criação e desenvolvimento de produtos, com foco em autonomia financeira, inclusão produtiva e reconstrução de trajetórias pessoais e profissionais — um processo que contribui também para o fortalecimento da autoestima.

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)
Outro aspecto importante foi a escolha dos materiais. Produzidas em algodões certificados, as peças reforçaram o compromisso da marca com práticas mais conscientes e sustentáveis: “Vestir Vai Maria também é vestir um compromisso com o mundo”, destaca, ao explicar a utilização de tecidos cultivados com respeito ao meio ambiente e aos trabalhadores do campo. Cândida é designer formada pela Universidade Federal do Ceará, comunicadora, bordadeira e profissional com mais de duas décadas de atuação na moda. Reconhecida por seu trabalho autoral que une bordado manual, joalheria em prata e valorização do artesanato, ela acumula experiências em projetos de desenvolvimento artesanal, consultorias para a CeArt, audiovisual, comunicação e design de moda. Como estilista do Vai Maria, encontrou um espaço onde criação e impacto social caminham juntos.
O “Vai Maria” é um dos vários projetos do IPREDE voltados ao atendimento da mulher. Completam essa frente o “Viva Maria”, programa que profissionaliza mulheres em vulnerabilidade com atividades pedagógicas voltadas ao desenvolvimento do seu potencial, viabilizando a geração de renda para favorecer a inclusão produtiva e social; o “Florescer”, destinado às mães e cuidadoras em extrema vulnerabilidade social, com o objetivo de promover a transformação por meio de práticas artístico-pedagógicas; o “Transformaria”, que capacita mulheres para atuarem na gastronomia de rua, trazendo a culinária de chefs renomados de Fortaleza para dentro de suas vivências, com ações pedagógicas focadas no crescimento pessoal, profissional, familiar e social.
E mais: o “Maria Bonita”, voltado à capacitação profissional no âmbito da estética, promovendo geração de renda e o fortalecimento do eu feminino, com maior bem-estar e autoestima. Parte dessa estrutura é sustentada por parcerias técnicas: há cerca de três anos, o IPREDE mantém colaboração com o Sistema FIEC, por meio do Programa Parceriza — iniciativa do SENAI Ceará e do SESI Ceará voltada à qualificação profissional de pessoas em situação de vulnerabilidade social —, que oferece ao Vai Maria apoio técnico em modelagem e custos de produção, contribuindo diretamente para a estruturação das atividades do projeto.

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)
Juntas, essas iniciativas traduzem a forma como o IPREDE vem mudando a trajetória de centenas de famílias por meio de projetos que contemplam a saúde e o desenvolvimento da criança e da mulher, bem como a assistência alimentar. O IPREDE foi lançado em 2018, com o propósito de capacitar mães e cuidadoras em técnicas de modelagem, corte e costura, além de acolhimento emocional e apoio em suas jornadas pessoais e profissionais
Sonhos tecidos
O desfile foi realizado no Estoril, equipamento tombado pelo município, sede da secretaria municipal de Turismo e situado em um dos principais cartões-postais de Fortaleza, a Praia de Iracema — palco que, por si só, já carrega memória e pertencimento, e que naquele final de tarde emprestou sua moldura histórica a um desfile sobre recomeços. A programação do DFB Festival sempre amplia o diálogo entre moda autoral e inclusão social. A edição 2026 contou com experiências urbanas, com desfiles distribuídos pela Rua dos Tabajaras, Ponte dos Ingleses, Estoril e Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Essa descentralização foi uma novidade da edição 2026.

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)

Vai Maria (Foto: Paula Matos)
O desfile emocionou o público ao revelar histórias de mulheres que encontraram na moda uma oportunidade de aprendizado, geração de renda e reconstrução de trajetórias. No encerramento do desfile, a mensagem ficou clara: o verdadeiro tesouro está na descoberta da própria potência. A coleção apresentou mulheres que aprenderam a navegar por conta própria, a confiar em suas bússolas e a compreender que nenhum mar é grande demais quando se acredita na jornada. Uma coleção sobre liberdade, autonomia e a coragem de continuar sonhando, porque, como lembra o projeto, sonhos não envelhecem. Se reinventam.

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)

Vai Maria (Foto: Nicolas Gondim)
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