SENAI CETIQT: As experiências de consumo de moda durante a pandemia


Para analisar o cenário, o SENAI CETIQT promoveu o encontro virtual conduzido pela professora de Design de Moda Diva Costa. Contou com a participação de Solange Mezabarba, Claudia Mendes e Bárbara Poci, também professoras do curso de Design de Moda, além das alunas Victoria e Luana da Silva Marques Corrêa. “Hoje, a gente lança uma marca na web e, se tudo der certo, vamos para a loja física. Então, temos que saber como atender plenamente o cliente de forma online. E são vitais as descrições do produto, o zoom no tecido – mostrar as peças do lado avesso para todos verem o acabamento – para não ter aquela surpresa ruim na hora em que recebe a peça em casa; a fidelização no tamanho das peças para que o consumidor saiba exatamente o que está adquirindo; a humanização na hora da compra e o auxílio ao cliente. E mais: ter multicanais para fazer com que a experiência da compra online melhore”, pontua a professora Bárbara

As formas de viver e de consumir mudaram radicalmente com a pandemia. Em plena Quarta Revolução Industrial, modelos de negócios passaram por uma grande transformação. O home office, a tecnologia em alta potência, as diferentes etapas da crise e seus efeitos também contribuíram para um consumidor muito mais consciente. E esse é um processo que já vinha sendo desenhado há muito tempo. O consumidor é hiperconectado, engajado com ideias e propósitos relevantes, com experiência compartilhada, opinativo e valoriza a experiência e tecnologia na hora de efetuar a compra. Players das indústrias e do varejo já estão em sinergia com esse novo consumidor, com hábitos e valores próprios. Ele quer ainda saber as ações para implantação de práticas como sustentabilidade e economia circular e como a marca contribui para regenerar a natureza com uso consciente de recursos. E mais: durante a compra quer contar com todos os canais da marca, consultoras digitais, espaço de experimentação e troca de experiências que integram o mundo físico e digital, sistemas de entregue/retire. Enfim: esta é a era do Omnichannel.

Para analisar o cenário, o SENAI CETIQT promoveu a live “As experiências do consumo de moda durante a pandemia”. Conduzido pela professora de Design de Moda Diva Costa, o encontro virtual contou com a participação de Solange Mezabarba, Claudia Mendes e Bárbara Poci, também professoras do curso de Design de Moda, além das alunas Victoria e Luana da Silva Marques Corrêa. Como pontua a professora Bárbara Poci, uma marca de moda até bem pouco tempo fazia o lançamento para a loja física e, depois, expandia para o online. “Hoje, a gente lança uma marca na web e, se tudo der certo, vamos para a loja física. Então, temos que saber como atender plenamente o cliente de forma online. A descrição do produto, o zoom no tecido – mostrar as peças do lado avesso para todos verem o acabamento – para não ter aquela surpresa ruim na hora em que recebe a peça em casa, a fidelização no tamanho das peças para que o consumidor saiba exatamente o que está adquirindo, a humanização na hora da compra e o auxílio ao cliente são ações muito importantes. É vital ainda ter multicanais para fazer com que a experiência da compra online melhore”.

Professora de Design de Moda do SENAI CETIQT, Solange Mezabarba deu o start ao debate durante a live lembrando a Cúpula sobre o Clima realizada recentemente é uma espécie de prévia da COP 26, que será realizada em Glasgow, em novembro. Segundo ela, analisando que a indústria têxtil é a ponta de lança da Revolução Industrial, é importante refletirmos sobre o impacto da mudança climática.

“Um dos impactos apontado pelos cientistas é o aparecimento de novas epidemias. De acordo com Toby Ord, filósofo da Universidade Oxford, que integra um grupo de trabalho que analisa o futuro da humanidade, duas das grandes ameaças que ele coloca em jogo são a possível guerra, uma hecatombe nuclear, e os efeitos da mudança climática – entre eles, o surgimento de vírus e, consequentemente, pandemias extremamente letais”, comenta a professora, acrescentando que, lá em 2008, o pesquisador francês Didier Raoult já previa novas e letais pandemias. A pergunta que proponho é: como vai ficar o sistema de produção têxtil, pensando que a gente tem em escala industrial um dos pilares do debate sobre o aquecimento global? É importante pensarmos na cadeia produtiva da moda, como ela vem sendo conduzida e quais são as expectativas que podemos ter em relação às mudanças”.

Claudia Mendes, também professora de Design de Moda do SENAI CETIQT, pontua que tudo que aconteceu na história das revoluções industriais tem a ver com estratégia e a forma como, desde então, as pessoas têm consumido: “E isso se repete hoje, no momento em que estamos vivendo uma nova revolução industrial. O cenário da pandemia tem alterado a forma como a indústria têxtil vem trabalhando. Uma vez que estamos mudando o estilo de vida, trabalhando mais em casa, percebemos em grandes capitais um esvaziamento dos centros urbanos. Uma pesquisa da McKinsey mostra que, uma vez que empresas decidam cada vez mais que seus colaboradores trabalhem à distância, isso impacta o consumo de moda”.

A professora Bárbara Poci reflete também sobre a cadeia têxtil, por exemplo, que está atravessando grandes impactos simultaneamente: “A gente tem um cenário de Quarta Revolução Industrial, de Indústria 4.0 e, de repente, nos deparamos com uma pandemia. A produção já estava sendo pensada de forma mais rápida, resolutiva, mas tudo foi alterado a nível mundial. Uma produção que dependia de tecnologia com manufatura, pessoas envolvidas, trabalhando juntas, foi obrigada a seguir rígidas normas de segurança, como distanciamento social. Como manter a engrenagem funcionando? Não só em termos de consumo, mas, principalmente, em termos de sobrevivência? A saída foi repensar nossa maneira de viver. E também as formas de trabalho, de produção, de relacionamento. Tudo impactou nossas vidas. Não teve uma pessoa que não sofreu com o que aconteceu no mundo. Na cadeia têxtil não haveria de ser diferente. A forma de produzir foi repensada e passou a ser mais slow e extremamente consciente do que estamos enfrentando. O consumo tornou-se mais reflexivo, surgiram novos processos de trabalho, que já vinham sendo anunciados, mas, de repente, tivemos que fazer acontecer”.

A aluna de Design de Moda do SENAI CETIQT Luana da Silva Marques Corrêa disse que, antes da pandemia, marcas estavam repensando processos produtivos e forma diferenciada de entregar produtos aos clientes. Mas, as mudanças tiveram que ser aceleradas e feitas em pouquíssimos meses. “Olhando para o processo desde o design, concepção do produto, até a entrega ao cliente, tudo pode ser mudado. Nada é fixo. Uma empresa de moda não precisa criar algo do zero. Ela pode olhar o estoque e ver os aviamentos que tem, se há sobra de material, o que pode fazer com aquilo e como pode se diferenciar no mercado, como por exemplo, entrando em contato com artesãos para desenvolver algo autoral trazendo à peça valor agregado”, comenta.

Na parte da produção, a questão da modelagem, do corte e da costura, vemos a indústria têxtil avançando muito com máquinas que fazem com que diminua o tempo de confecção de peças e também a quantidade de mão-de-obra. “Não precisamos de tantos cortadores nem de tanto espaço numa mesa. Você tem uma máquina que faz todo o processo. Com isso otimiza-se mais, gasta-se menos e reduz-se matéria-prima”, lembra Luana.

Cita ainda que logística e distribuição com o crescimento do e-commerce poluem as cidades cada vez mais, porque são feitas por caminhões e carros. “Todos nós podemos pensar em opções diferentes. Se for uma entrega local, dá para entrar em contato com empresas de ciclistas ou pessoas da área que podem fazer entregas caminhando. Podemos ter a opção também de o consumidor buscar sua encomenda e até levando a própria ecobag”, frisa.

Claudia Mendes corrobora com as palavras da aluna dizendo que muitas marcas estão entendendo que essas mudanças são urgentes: “Não é uma tendência, um modismo; é uma necessidade, uma questão de sobrevivência. Hoje é importante estruturar a sua marca com valores que façam sentido, não somente por questões financeiras. Só que muitos demoram para perceber isso. São questões de ordens social e ambiental. E trabalhar com verdade e transparência. Esses são ativos. Não é porque a sua empresa é mais bacana que as outras. As empresas têm que entender que é dessa maneira que se deve pensar e isso não deveria ser um diferencial”.

Na opinião da professora Bárbara, nesse momento tivemos que parar e refletir sobre a nossa vida individual, coletiva e profissional. E começamos a atentar para atitudes que algumas marcas já tinham anteriormente e que se tornaram mantras, necessidades, no agora. Não é mais um querer fazer: precisa ser feito.

Aluna do curso de Design de Moda, Victoria revela que neste um ano e três meses de pandemia comprou T-shirts e shorts para usar em casa. E que nas poucas vezes que foi à rua, ela procurou brechós abertos. “Eu consumo muito em brechó. Basicamente, 95% do meu guarda-roupa são de roupas de brechós. O custo é muito baixo, a qualidade excelente e contribuímos para uma vida menos efêmera dos produtos”.

Professora de Design de Moda do SENAI CETIQT Diva Costa, que conduziu o encontro online, a partir do que foi dito até aqui durante o bate-papo, perguntou se estamos, portanto, em um momento de produção feita por demanda. Bárbara Poci analisa o momento como Diva: “O aumento do número de brechós foi considerável no meio dessa pandemia, porque as pessoas entenderam que dá para fazer um reuso. Mas, de fato, o consumo sob demanda está sendo alimentado. E as peças do segmento sleepwear tiveram uma procura muito maior. As marcas começaram a produzir os pijamas, por exemplo, que estavam esquecidos lá no fundo do mix de produtos. A produção sob demanda se tornou uma necessidade. Ninguém vai produzir um estoque grande em época de pandemia”. Luana observa também que os sites de e-commerce tiveram um alto grau de investimento em tecnologia e as peças cada vez mais são bem apresentadas e com todos os detalhes, como a descrição até do material utilizado para que o consumidor não tenha qualquer dúvida. Os provadores na web são também um grande facilitador para a segurança na hora da compra. Foram adaptações fundamentais para as necessidades.

A professora Claudia Mendes levanta a questão da humanização na hora das compras. “A revolução fala muito sobre tecnologia, mas, a verdade, é que ter acesso e se comunicar com uma pessoa real já é uma espécie de luxo. As empresas precisam ficar atentas ao atendimento mais humanizado. Esse tipo de approach, que pode ser até por Whats App, por exemplo, associado a uma experiência realmente rica no ambiente online é uma combinação essencial para que o e-commerce cresça cada vez mais”.

E o que a professora Bárbara Poci percebe com essa experiência de compra online? “Preciso ter, no momento da compra, uma tabela de medidas que seja fiel ao tamanho da peça para que eu receba de fato o que está ali descrito em termos de medida. Para quem não tem conhecimento da tomada de medidas, é importante que essa informação venha junto da tabela de medidas. A marca tem obrigação de dar a informação para o consumidor, porque quanto mais esclarecido ele estiver, mais vai se sentir confortável para voltar a comprar”. Ela disse que percebe menos burocracia e maior facilidade e rapidez nas trocas. “Quando penso em comprar novamente, já sei o tamanho, sei como fica no meu corpo e, se não ficar bom, tenho facilidade de troca”, resume.

Uma das questões sobre a nova Revolução Industrial diz respeito ao trabalho da costureira de bairro versus a industrialização. A professora Solange Mezabarba pontua que devemos, sim, prestigiar esta profissional. “Até porque a indústria ainda não contempla a diversidade. É muito interessante retomar a figura da costureira. Especialmente aquela que se estruturou em um ateliê equipado. Acho muito interessante essa mudança de comportamento e voltar àquela costureira que tinha um caderninho de medidas”. A aluna Luana da Silva Marques Corrêa acrescenta que é interessante a figura da costureira “como forma de a gente rever as nossas roupas. Aquela peça que estava esquecida, porque tinha um furinho… É simples, dá para resolver. Dá para reutilizar. Tem um vestido que eu não uso mais, o que ela pode fazer por mim para eu não perder o tecido?”

Um trabalho com as 50 principais lojas online do Brasil mostra que o setor têxtil aumentou 95,27 % o consumo online. “Com relação às experiências, elas são distintas. Acho que nunca vamos perder a conexão com a experiência física. As lojas não perderão o espaço. Mas parece, quando vemos os números, que várias barreiras que as pessoas tinham em relação ao consumo online caíram durante esse período”, comenta a professora Solange.

O que podemos antever para melhorar a relação online? Tanto trazendo questões como a roupa sob medida, a relação mais pessoal, um comércio online mais humanizado, mais pessoal? Como melhorar a relação entre consumidores e varejo no ambiente virtual?

Claudia Mendes responde que o brasileiro costuma adotar a repetição. “Se uma marca abre um e-commerce, eu contrato a empresa que fez aquele trabalho e peço para reproduzir no meu negócio. Parece óbvio, mas você tem que pensar com a cabeça do consumidor, que é quem vai fazer uso daquele espaço. Nas nossas pesquisas, a gente percebe uma repetição daquilo que funciona, mas também os erros. Falta muito a ser feito no uso da tecnologia. Eu, por exemplo, preciso do tato, preciso sentir. Mesmo sabendo que é algodão, e conhecendo o toque do algodão, preciso da experiência tátil, e também gosto da experiência física. Tem muito para melhorar na sinergia entre os ambientes físico e online. As empresas têm que se voltar para si mesmas para que o público entenda o que faz diferença para ele. Falta muita descrição, por exemplo. As marcas acham que é suficiente mostrar o produto com uma boa foto e uma modelo bacana. Não é só isso. A gente quer mais. Acho que tem muito para se aprender sobre a relação entre a tecnologia e esse atendimento mais humanizado”. É o tão falado Omnichannel.

O que vem acontecendo com o lançamento das marcas de moda? A professora Bárbara Poci responde: “Hoje, a gente lança uma marca na web e, se tudo der certo, vamos para a loja física. Então, temos que saber como atender plenamente o cliente de forma online. A descrição do produto, o zoom no tecido – mostrar as peças do lado avesso para todos verem o acabamento – para não ter aquela surpresa ruim na hora em que recebe a peça em casa, a fidelização no tamanho das peças para que o consumidor saiba exatamente o que está adquirindo, a humanização na hora da compra e o auxílio ao cliente são ações muito importantes. É vital ainda ter multicanais para fazer com que a experiência da compra online melhore”.

 

A aluna Victoria conta que desenvolveu um projeto de conclusão de curso de uma revista independente de moda brasileira com artistas do segmento e propondo a integração com a moda, sem ressaltar tanto a questão do consumo exacerbado. “Consumi muita revista de moda brasileira, como Vogue e Elle e, sempre que eu lia, sentia uma sensação de não pertencer àquele universo. Era totalmente fora da minha realidade e parecia que eu tinha que ter tudo o que estava sendo apresentado para não me sentir excluída. Eu quis criar um veículo no qual as pessoas se sentissem confortáveis e inseridas contexto e que não tivessem a obrigação de comprar desenfreadamente para não se sentir incluído”, revela.

E Luana, por sua vez, criou um relatório para pequenas e médias empresas sobre economia circular. É como um guia traçando passo a passo, desde a escolha dos materiais até a parte em que é desenvolvida a criação, o contato com o fornecedor, com distribuidores, com a produção até chegar às mãos do consumidor. “Vai passando por cada ponto desses e falando em como melhorar. Por exemplo, no que diz respeito ao design, é possível otimizar a modelagem da peça para ter menos gasto de tecido. Ou pode ir por um caminho de criar uma conexão mais emocional com o cliente. Por exemplo, você pode reformar uma peça do cliente, ajustar ou criar um valor agregado. Ou, se não quiser nada disso, pode fazer uma peça modular. Por exemplo, um casaco que é uma camisa e pode ser uma blusa. A pessoa pode usar em várias ocasiões e lavar as partes necessárias. Com isso, diminui o consumo e as reformas que precisa fazer na peça”, relata.

Ela aborda ainda a questão da distribuição e se o empresário realmente necessita de uma loja física. “Se o cliente necessita do tato, cria-se um ambiente sensorial. Seu ateliê pode ser esse ambiente. Ali você mostra para aquela pessoa como é, faz um atendimento mais humanizado. A cada momento no relatório, eu coloco links e QR Codes com documentos para consultar que reforçam as pesquisas”.

Ao final da live, a professora Solange Mezabarba faz perguntas às participantes: o que elas acham sobre a tese de o futuro da moda desfocar o design e lançar mais luz para as propostas de novos têxteis. E esses têxteis serão algo mais sensível ao nosso prazer tátil, deslocando do prazer visual? E se for assim, como vamos lidar com o comércio online?

“Já há inúmeros tecidos com função de hidratar a sua pele, de proteger dos raios UV, anti-bactérias, que possibilitam identificar os batimentos cardíacos se estão altos ou não (no caso dos esportes). São muitas pesquisas realizadas e já colocadas em prática. O material não vai ter só a função de embelezamento do produto. Vai fazer nossa vida melhor, mais fácil, mais prática, segura, funcional. Hoje, a gente já tem os tecidos que não amassam e secam rápido. Não é algo do futuro”, comenta Claudia Mendes, acrescentando que o que está acontecendo com materiais têxteis é revolucionário e impacta diretamente na forma como vamos consumir esses produtos.

Na opinião de Bárbara Poci, muitos vão repensar a estratégia do design dos produtos de moda e a superfície têxtil, que é a nossa ferramenta principal, terá um foco maior que a forma, a modelagem. Por quê? “A forma hoje tem uma preocupação que vai muito além de um corpo. Ela precisa atender a vários corpos. A humanização dos corpos. Então, a forma vai ser pensada para atendera a vários corpos, vários biótipos. Vai ser pensada para ser multifuncional, para ser transformada em vários tipos de silhuetas. Isso é riquíssimo até para que a peça seja multifuncional, para que você possa usar de várias formas, em várias ocasiões. De fato, a gente está presenciando uma mudança no pensamento do designer de moda em função desse momento que estamos vivendo. Porque de um produto podemos fazer quatro se a matéria-prima for boa, se a forma for multifuncional, se o produto for ergonômico e, consequentemente, confortável”.